Criciúma
‘Isso não pode ficar assim’: presidente da OAB repudia ato e aponta providências após fala de vereador
Fato aconteceu na sessão dessa segunda-feira da Câmara de Vereadores
Por Patrick Stüpp
6 min de leitura

Moacyr Jardim de Menezes Neto, presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) Subseção Criciúma, destacou determinadas providências após a fala do vereador Valdeci Bittencourt (PSD), o Amaral, na sessão da Câmara de Vereadores dessa segunda-feira, dia 24. O parlamentar afirmou no momento de fala na Tribuna que “50% dos advogados estudam para roubar os pobres”.
Em entrevista nesta terça-feira, dia 25, para o jornalista João Paulo Messer, da Rádio Eldorado, o presidente da Subseção de Criciúma pontuou que a classe de profissionais “acordou triste” na manhã de hoje após o pronunciamento do parlamentar. Conforme Neto, foi um pronunciamento feito de maneira gratuita e sem embasamento, se caracterizando como uma situação “absolutamente lamentável”.
“O vereador tem a imunidade para defender direitos e fazer preposições. O comentário pode ser duro e pode ser forte, desde que respeite os limites da civilidade. Desde que fale aquilo que é verdade. Agora não se pode generalizar que 50% trabalham para lograr os pobres. Em particular, a advocacia se sentiu muito triste e certamente está agindo e vai agir, não para buscar uma retratação, mas para buscar seus direitos”, frisou. Confira a fala completa do vereador:
Direitos e medidas
Assim que soube do acontecimento na noite de ontem, o presidente afirmou que a OAB emitiu uma nota de repúdio. Neto disse que está sendo estudado a possibilidade de ser feito uma Ação Civil Pública por danos morais coletivos. Já em relação a parte criminal e ao uso da Tribuna da Câmara de Vereadores, ele também destacou que está sendo estudado e analisado determinadas medidas pela classe.
“O parlamentar também demonstrou o seu desconhecimento em relação a toda advocacia, já que somos mais de 70 mil advogados em Santa Catarina. Diante disso, usou a Tribuna para insultar uma profissão tão digna à democracia e as pessoas, em sua maioria pobres. Pessoas que se não fossem a advocacia, não conseguiriam buscar os seus direitos. A OAB vai fazer sua defesa, uma série de manifestações, propor ações pertinentes. Isso não pode ficar assim”, destacou o presidente.
Neto também ressaltou que todas as medidas serão tomadas dentro dos limites da lei, com respeito, responsabilidade e estudo. “Ele teve um momento de retratação e preferiu não se retratar. Então, me parece que a retratação é algo que não possa mais ser conversado. A advocacia merece respeito, os médicos merecem respeito e a advocacia não é uma profissão de covardes”, concluiu o presidente. Veja a nota completa:
OAB SUBSEÇÃO CRICIÚMA | NOTA DE REPÚDIO
A OAB Seccional de Santa Catarina e a OAB Subseção de Criciúma, em defesa da dignidade da advocacia e do respeito devido a milhares de profissionais que exercem sua missão com liberdade, responsabilidade, coragem e amor, adotarão conjuntamente as medidas judiciais e institucionais cabíveis diante das declarações proferidas nesta segunda-feira, 24 de agosto de 2026, pelo vereador Amaral Bittencourt, da tribuna da Câmara Vereadores de Criciúma.
A liberdade de expressão é uma conquista fundamental da humanidade, reconhecida, entre outros instrumentos, nos arts. 18 e 19 da Declaração Universal dos Direitos Humanos, e assegurada pela Constituição Federal, especialmente em seus arts. 5º, IV e IX, e 220.
A OAB e a advocacia brasileira sabem, mais do que ninguém, o valor dessa conquista. A história da advocacia está profundamente ligada à defesa das liberdades, do Estado Democrático de Direito e das garantias fundamentais. A própria Constituição Federal reconhece que o advogado é indispensável à administração da justiça e assegura a inviolabilidade por seus atos e manifestações no exercício da profissão, nos limites da lei.
Liberdade de expressão, entretanto, não se confunde com liberdade para ofender, imputar genericamente a uma categoria profissional a prática de atos desonestos ou criminosos ou atingir, sem individualização e sem qualquer demonstração, a honra e a reputação de milhares de pessoas.
Críticas à advocacia são legítimas. A atuação de advogados pode e deve ser fiscalizada. Eventuais desvios profissionais devem ser denunciados e apurados pelos órgãos competentes. O exercício do mandato parlamentar também assegura ao vereador ampla liberdade para manifestar suas opiniões.
Mas nenhuma dessas garantias autoriza, por si só, o abuso de direitos fundamentais. A própria Constituição estabelece que a honra e a imagem das pessoas são invioláveis e assegura a responsabilização por sua violação.
É justamente por acreditar na liberdade de expressão que a OAB não pode permanecer silente diante de uma manifestação que, em tese, ultrapassa os limites da crítica legítima e atinge, de forma indiscriminada, a honra da advocacia e de milhares de profissionais que diariamente trabalham com dignidade, honestidade e compromisso com a Justiça.
A OAB não pretende silenciar ninguém. Pretende apenas afirmar, com serenidade e firmeza, que liberdade de expressão exige civilidade e responsabilidade e deve ser exercida nos limites estabelecidos pela Constituição e pelas leis.
Por isso, as declarações serão submetidas à análise jurídica e serão adotadas as medidas cabíveis, inclusive para que sejam examinados, nas esferas pertinentes, os eventuais excessos e responsabilidades decorrentes das manifestações proferidas.
A advocacia merece respeito.
Não porque esteja acima de críticas, mas porque exerce função essencial à Justiça e porque milhares de advogadas e advogados de Santa Catarina dedicam suas vidas à defesa dos direitos dos cidadãos, muitas vezes daqueles que mais precisam de proteção.
Liberdade de expressão, sim. Crítica, sim. Fiscalização, sim.
Abuso, ofensa e generalização irresponsável, não.
A OAB defenderá a advocacia com a mesma liberdade, responsabilidade, coragem e amor com que seus profissionais defendem, todos os dias, os direitos de seus constituintes e o Estado Democrático de Direito.
Criciúma, 24 de agosto de 2026.
Moacyr Jardim de Menezes Neto
Presidente da OAB Subseção Criciúma
O que disse à Câmara de Vereadores?
A Câmara de Vereadores de Criciúma também repudiou a fala do parlamentar. Confira a nota:
A Câmara de Vereadores de Criciúma vem a público, diante da situação envolvendo a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) – Subseção Criciúma, ocorrida nesta segunda-feira (24), manifestar seu repúdio a qualquer manifestação que possa representar ataque, desrespeito ou generalização em relação a uma categoria profissional.
A instituição esclarece que não compactua, não endossa e não se associa a manifestações individuais que possam atingir a honra ou a dignidade de trabalhadores, independentemente da classe ou profissão a que pertençam.
A Câmara reafirma seu respeito à OAB, à advocacia e a todas as categorias profissionais, reconhecendo a importância do trabalho desenvolvido por seus representantes e profissionais em benefício da sociedade.
O Poder Legislativo de Criciúma reforça seu compromisso com o respeito, o diálogo democrático e a responsabilidade, destacando que manifestações individuais de parlamentares não representam o posicionamento institucional da Câmara.



