Na despedida de Paris, o lado mais parisiense da cidade

Por Texto/fotos: Lene De Costa - lenedecosta@engeplus.com.br

Em

Roland Garros parece ter mexido mesmo com a rotina de Paris. De acordo com o guia, não é normal um engarrafamento tão extenso, nem tantas sirenes de polícia, na área em que estamos, rumo à Versalhes, subúrbio de Paris. No ônibus há alguns venezuelanos, três ou quatro peruanos e cerca de 30 brasileiros, 13 deles criciumenses.

Para distrair o público, um conterrâneo vestindo camisa do Tigre saca uma gaita de boca e, em vários ritmos, vira a atração do percurso. Uma venezuelana, cantora, pede para dar uma palhinha, completando o show. É neste clima que chegamos ao Chateau de Versalhes.

É redundante dizer que algo na Europa é imenso, mas Versalhes, o palácio habitado por Luis XIV em 1682, precisa ser tratado como algo muito grande. Contabilize aí duas mil janelas, 700 quartos, 1.250 lareiras, alguns quilos de ouro nos detalhes do teto e 700 hectares de jardins. Belíssimos jardins, milimetricamente aparados, retocados, cuidados. Outra redundância é dizer que havia uma fila considerável para entrar no palácio. Continuo sem me intimidar pelas engolidoras filas mas, como temos horário marcado para deixar o local, calculo que não vale a pena gastar todo o tempo ali para ver onde dormiram ou jantaram os reis, ainda mais agora, com boa parte do palácio fechada para restauração.

Há muito para se conhecer por fora, vale a pena ir até lá só para rodar pelos fantásticos jardins e arredores. Mas não é bom se distrair com a paisagem a ponto de esquecer dos pertences. Curiosa com a movimentação policial, rodeio até entender que uma turista acaba de ter sua bolsa roubada. Sim, estamos no primeiro mundo, e os furtos são constantes por lá.

Nos metrôs é fácil identificar as gangues em busca dos distraídos com carteiras à vista ou bolsas de alças longas, fáceis de serem cortadas. Pegam o metrô em uma estação, procuram por vítimas, se não as encontram descem para pegar uma nova linha, e assim vão. Dinheiro, cartões de crédito e passaporte ficam mais seguros se carregados sempre em mini-pochetes e, de preferência, escondida por baixo da roupa. Para as mulheres, às vezes parece um pouco constrangedor erguer a blusa para procurar o dinheiro, mas a cena é comum por lá e, em nome da segurança, vale o mico.

MONTMARTRE E SEUS ARTISTAS
Embora o sol ainda esteja intenso já é noite e deixamos o hotel para iniciar uma viagem no tempo: vamos ao boêmio Montmartre. Na minha opinião, o que há de mais parisiense em Paris. O bairro fica no topo de uma colina e a impressão que dá é que à medida que se vai subindo, os anos vão regredindo, até chegar a Paris de um ou dois séculos atrás. As ruas são estreitas, de paralelepípedos, com casas e lojas minúsculas, espremidas uma ao lado da outra. Seguimos de ônibus até onde ele consegue chegar e caminhamos até a pequena praça para contemplar o topo. Lá em cima, no ponto mais alto da cidade, está a Basílica de Sacré Coeur.

Para chegar a ela, o turista tem duas opções. A primeira é tomar fôlego (bastante) para encarar os 550 degraus que separam a praça da entrada da basílica. A segunda é dar uns dez passos para contornar a praça e comprar o ticket de menos de dois Euros para ser levado até o topo por uma espécie de bondinho. Geralmente demoro para tomar decisões, mas desta vez sou rápida, já tenho as moedas na mão. Como a colina é íngreme, o bondinho tem uma forma meio retangular, inclinado, e é pequeno, com capacidade para levar 20 pessoas, a maioria de pé.

Há um painel digital indicando a lotação e não tente passar quando o painel zerar, pois a catraca é travada e ninguém mais entra. A modernidade do bondinho é um dos poucos indícios de que, em Montmartre, também se está em 2008. O bondinho é de vidro, mas como ele segue por trilhos sem sair do chão, meu pânico da combinação vidro/altura não é ativado. Ao lado do bondinho está o mirante, de onde é possível ver boa parte de Paris. É um bom consolo para quem não subiu ao alto da Torre Eiffel mas, nem de longe, substitui.

Apesar de ponto turístico, Sacre Coeur é cercada de mais rigidez que as igrejas “normais”, com funcionários carrancudos indicando por onde o visitante precisa passar e até em que velocidade. Falo menos de dez palavras em francês, mas não foi difícil entender que o funcionário não só não permitia fotos como preferia que eu não percorresse os sagrados corredores com a máquina nas mãos.

Nem um simples comentário sobre as belezas da igreja é possível fazer sem ser advertido. No lugar de canto gregoriano, a melodia que mais se ouve dentro da Sacre Couer é o extenso “shhhhhhhhhi”, aquele pronunciado com dedinho indicador na boca e tudo, cada vez que alguém tentava falar. Rir, então, seria um pecado mortal.

Com tamanha cordialidade, não devo ter ficado mais de dez minutos dentro da basílica. Me vi obrigada a tomar a rua lateral à igreja, dobrar à esquerda e seguir para um dos simpáticos bares da ladeira. Lá, sim, as risadas eram permitidas e até incentivadas. Há dezenas de restaurantes, de todas as especialidades e preços variados. Seguindo a determinação de uma lei francesa, todos os estabelecimentos exibem na entrada o cardápio com os valores, detalhe muito interessante para o turista que quer equilibrar sabor e orçamento.

O restaurante escolhido é de massas e, feito o pedido, descubro que a cozinha não fica no mesmo local, mas do outro lado da rua. A diversão passa a ser olhar o garçom fazer um verdadeiro malabarismo para atravessar a ruela lotada de turistas com os pratos na mão, e torcer para que a massa chegue intacta ao destino.

Montmartre é ainda o paraíso para o turista que quer comprar algo bem típico sem gastar muito. Não conheço mulher que tenha saído de lá sem uma pachemina (tradução para os homens: um cachecol mais leve e delicado) ou uma autêntica boina. Depois de caminhar por cada rua da ladeira para averiguar os bares e lojas, paro para uma nova experiência de crepe com Nutela, mais uma vez marcada pelas mãozinhas do atendente na minha massa, sem luvas, pós-recebimento dos Euros.

Volto para a praça atrás da área dos restaurantes e perco a noção do tempo observando os artistas pintando retratos. Estou diante de verdadeiros artistas parisienses, de boinas na cabeça e aquarelas em punho, concentrados em representar no papel a alegria de quem serve de modelo. Um espetáculo à parte. E a certeza de, finalmente, estar vendo franceses, porque até então tinha a impressão de só ter visto turistas ou estrangeiros trabalhando; nenhum nativo.

A VILA BERCY
A última noite em Paris é reservada para conhecer a pequena vila de Bercy, no leste da cidade, norte do Rio Sena. Para chegar lá, três trocas de linha do metrô e mais algumas estações no trem-bala. O trem-bala circula pelas áreas mais distantes, em velocidade maior que a do metrô. É a linha mais profunda, e não sei se isto explica o vento intenso nas estações e até dentro do trem. Muito vento, não há cabelo que resista ileso.

A vila tem apenas uma rua, de lajotas, e pela presença dos trilhos, já foi caminho para trens. Reúne algumas dúzias de restaurantes e lojas especializadas em qualquer coisa: artigos de culinária, presentes, cosméticos, bolachas. Bolachas finas, é bom lembrar, cinco delas por 18 Euros. A variedade e o gosto justificam o preço, mas são meio duras e, para quem usa aparelho, acaba sendo um investimento em longo prazo: precisei esperar cinco dias para que elas perdessem a densidade e eu pudesse mordê-las.

O restaurante escolhido em Bercy tem toalhas vermelhas que o deixam com cara de ambiente italiano, mas é totalmente francês. Por um valor menor que o das bolachinhas escolho um bife, acompanhado por – óbvio – batatas. Ambos, para variar, vêm sem sal. O suco de laranja também é o mesmo em todo lugar, industrializado. Ninguém espreme laranjas por lá, o que acaba sendo uma vantagem para o organismo do turista se lembrarmos dos limitados hábitos de higiene.

Perto da uma da manhã a volta para casa é silenciosa, em tom de despedida, admirando nostalgicamente as luzes que surgem de todos os cantos na noite parisiense. Encerrada a primeira etapa do roteiro, é hora de arrumar as malas. Às 7:30 deixo a cidade e cruzo parte da França para chegar ao Porto de Callais, rumo à Inglaterra. Ao revoir, Paris! Finalmente vou ver o Big Ben. E descobrir que nem todos os que viajam com destino à terra da rainha conseguem realmente chegar lá...

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