Não é
Não é só por R$ 0,20, é por cultura
Por Redação Engeplus
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"Tenho parado para refletir sobre as manifestações, ou melhor, sobre o que fez com que estourassem as manifestações por todo o Brasil: o valor da passagem de ônibus e a qualidade do transporte público. Já morei no Rio de Janeiro e sei que realmente as condições do transporte público de lá são ruins. Mas fora dos grandes centros, em cidades como Criciúma, será que transporte público de qualidade e a preços mais baixos são realmente fatores dignos de manifestações?
Ou seria melhor nos manifestarmos por uma cultura diferente, por uma mudança cultural em relação a esse tipo de transporte? Penso, sim, que a questão é mais profunda do que parece. O nosso pensamento e conceito em relação ao transporte público são culturais. Claro que Criciúma não tem o melhor transporte público do Brasil, mas também está longe de ser o pior.
Nossa sociedade é fascinada por status. É intrínseco à nossa cultura. Tudo que fizemos, ou quase tudo, é para os olhos dos outros. E, convenhamos, andar de ônibus não dá status. Hoje, utilizar transporte público é sinal de pobreza, que não temos condições de ter um veículo próprio. Ter um carro, sim, por pior que ele seja, é status. Virou sonho de consumo de todo brasileiro. Não é à toa que, quando vimos alguém que andava de ônibus passar a andar de carro, logo dizemos que a pessoa está bem financeiramente. Repito, a questão é cultural. Há muitos que pra ir à padaria na esquina vão de carro. Outros economizariam tempo e dinheiro indo ao trabalho de ônibus, mas preferem ir de carro.
E se, junto ao Plano Nacional de Mobilidade Urbana, anunciado em 21.06.13, pela presidente Dilma Rousseff em cadeia nacional, fosse incluída uma boa verba para uma agência de publicidade tentar mudar essa visão que temos a respeito do transporte público? Muitos dirão: Não viaja, isso é delírio, o transporte público é ruim mesmo! É claro que entendo que deve haver investimento em estrutura também. Mas vejamos, então, o caso das sandálias havaianas. Mas o que a havaianas tem a ver com o transporte público?
Tentarei explicar brevemente. Ela foi lançada em 1962, baseada num tipo de sandália oriental, com o propósito de ser uma sandália barata. E assim foi até a década de 80. Todos tinham vergonha de usar havaianas. Sair de casa com havaianas no pé, nem pensar, era assumir sua pobreza. Da década de 90 em diante, o grupo Alpargatas resolveu mudar o foco da publicidade e criou o slogan conhecido até hoje - havaianas, todo mundo usa - fazendo com que várias celebridades fossem filmadas ou clicadas usando as sandálias. Se a Malu Mader usa havaianas, eu também vou usar!
Com isso, o valor da marca aumentou e, consequentemente, o valor do produto também. E, a partir de então, ninguém mais tinha vergonha de assumir o uso freqüente - quer em casa quer a passeio - das sandálias havaianas. Hoje ninguém se importa de pagar o valor de mercado dessas sandálias.
Então, partindo do raciocínio até agora, será que se fizéssemos um movimento ao contrário, no sentido de aumentar a passagem de ônibus, reduzir o valor da gasolina e criar uma grande campanha de publicidade em cima do transporte público, muitas pessoas não parariam de reclamar? Provavelmente muitos passariam a utilizar o transporte público, pois daria status. Imagine a cena: o cidadão vai sair pra trabalhar; na garagem o carro está com o tanque cheio, mas que custou só R$ 40,00 para abastecer; a passagem de ônibus custa R$ 8,00; ele e a mulher assistiram ontem, no intervalo comercial da novela das nove, que o Luan Santana, a Xuxa, a Paola Oliveira e mais alguns artistas da moda só andam de ônibus; ele abre a carteira e encontra míseros R$ 20,00; o que será que ele faria, iria de carro ou deixaria o carro na garagem e iria de ônibus? Não esqueçamos: o marketing elegeu um presidente!"
Leonardo Teixeira
