Por Texto/fotos: Lene De Costa - lenedecosta@engeplus.com.br
EmMeu último dia em Londres começa cedo, com chuva e frio. O ônibus vermelho me deixa próximo da Trafalgar Square, e o primeiro programa é a visita ao National Gallery, um dos mais importantes museus do Reino Unido. Enquanto as portas não abrem, fico observando o vai-e-vem na famosa praça. Por causa da chuva, não há nenhum turista pagando o maior mico que se pode pagar ali: escalar um dos quatro enormes leões da Trafalgar, posar pra foto e, depois, descer escorregando pelo bicho. Tem que ser muito corajoso. Não pela altura do leão, mas pelo papelão da subida e da descida, com tanta gente olhando. Eu vi a cena na noite anterior e, claro, fui um dos que parou pra rir.
Pontualmente às 9 da manhã – sim, a tal pontualidade britânica não é lenda - o museu é aberto e sou uma das primeiras a entrar. O National Gallery não cobra entrada, mas uma urna instalada na entrada recebe doações, e um simpático aviso faz até o turista mais mão-de-vaca amolecer. Algo como “contribuindo com algumas moedinhas, você ajuda o museu a continuar gratuito”.
No balcão de entrada procuro um Plano para me localizar. O material é oferecido em vários idiomas, não tem em português mas é tão bem elaborado que poderia ser compreendido até em russo. A localização das salas é dividida por cores, a listagem de artistas dividida por época, e uma página mostra a obra mais famosa dos principais artistas, seguida pela sala onde está alojada. As salas são, quase sempre, muito amplas, todas com numeração, e pequenos sofás no meio para que o turista possa apreciar com calma cada tela.
O museu tem duas características marcantes. A primeira é a presença de pinturas fantásticas, algumas com 750 anos. A segunda é a ausência de japoneses. Apesar de ser um dos pontos mais visitados de Londres, não atrai tanto a atenção dos orientais por não permitir a brincadeirinha preferida deles, as fotos. Ninguém tira fotos no National Gallery. Diferente de outros locais, não há como burlar essa determinação aqui. Cada sala tem um “olheiro”, funcionário do museu preparado para impedir qualquer clique. Ao menor sinal de máquina a postos, ele está ao lado para impedir o dedo de chegar ao gatilho. Se é a regra da casa, volto sem as fotos, mas com ótimas lembranças.
OS GIRASSÓIS
Em poucos minutos já estou diante da obra admirada por crianças, jovens, adultos, vovôs. Os Girassóis de Van Gogh, ao contrário da Monalisa, não tem nenhum aparato especial. É possível quase tocar o quadro. Quase, porque uma pessoa educada sabe que não deve tocar uma pintura. Se cada turista que passar por lá tocasse o dedão, os Girassóis já estariam reduzidos a alguns galhos.
Não me arriscaria a fazer uma análise do acervo, mas até para um leigo como eu, o museu é impressionante. Há pinturas sensacionais lá dentro, algumas de um realismo que exige tempo para ser contemplado, e se torna ainda mais curioso quando se lembra que a tela foi pintada séculos atrás, sem nenhum recurso avançado, muito menos Photoshop. Só pincel, tinta e talento. É fantástico, vale cada minuto da visita.
Como não é possível fotografar nada, a loja de souvenirs na saída da galeria é parada obrigatória para levar uma lembrancinha. Há várias ilhas temáticas dos principais artistas, e nela se encontra todo tipo de produto. Na ilha Van Gogh, o turista pode adquirir reproduções de quadros, canetas, canecas, camisetas, sombrinhas, tudo estampado pelos Girassóis. Da Vinci tem ilha própria, Monet também. Entre tantas opções, minha escolha é um jogo americano com quatro cópias de Monet. E volto para o Brasil feliz com meu jogo americano comprado em Londres em homenagem a um pintor francês. Viva a globalização.
A atendente da lojinha da National resmunga algo sobre o cartão de crédito de outro brasileiro que está no caixa comigo. Já sabemos o que é. Qualquer cartão é aceito nos estabelecimentos mais simples de Londres, mas a reclamação é sempre a mesma: a falta de assinatura. O bom brasileiro deixa para assinar o verso depois e nunca mais lembra, até porque no Brasil ninguém confere isso. Lá, até pra me vender um sanduíche no Burger King o atendente rosnou apontando pro campo não assinado, pediu documento, comparou a foto com a minha cara. Juro que na próxima viagem assino antes de embarcar.
CELEBRIDADES
Do encanto das pinturas históricas, sigo para o mundo das celebridades. Mapa do metrô na mão, procuro com alguns colegas de viagem a linha que nos levará a Baker Street, endereço do lendário Sherlock Holmes. Na saída da estação, uma estátua do detetive nos saúda, mas a pressa é tanta que nem fotografo o ilustre fumador de cachimbo. Ao lado, na Marylebone Road, está o Museu de Cera Madame Tussauds, programa escolhido para a última tarde na Inglaterra.
Vacinada com as filas, fico empolgada quando vejo pouco mais de 100 pessoas na rua. Em meia hora estou do lado de dentro do museu, tendo a mochila revistada e prestes a dobrar a porta que eu penso que vai me levar à bilheteria. É aí que entendo o golpe. A verdadeira fila do Madame Tussauds fica do lado de dentro da estrutura. Um aviso na parede indica que, a partir daquele ponto, faltam cerca de 40 minutos para entrarmos no salão. Depois de encarar a primeira fila, é lógico que não quero desistir. Novas placas vão “animando” o turista com informações sobre o tempo médio, e a fila sobe a escada e dá mais algumas voltas. No caminho, o visitante vai se divertindo com o que aparece: máquinas de refrigerante e salgadinhos, telas que exibem vídeos de hollywoodianos e mortais no museu, um painel com mãos e pés de famosos e um balcão com rostos, olhos e outras pecinhas humanas.
Algumas horas depois, estamos finalmente próximos da bilheteria. O aviso no painel digital diz que é possível pagar a entrada com Euro e fala de alguns descontos, mas não entendemos exatamente o teor. A caixa que nos atende, por sorte, é brasileira, e nos explica que se tivéssemos pego um panfleto disponibilizado na estação de metrô, teríamos 50% de desconto na entrada. Ninguém avisa esses detalhes importantes pro turista, e lá se vão 25 Libras. Em Reais, bom, melhor nem converter.
Quando a porta do primeiro elevador se abre e temos acesso ao salão, ninguém lembra das horas de fila. Julia Roberts posa atrás de uma cadeira, Morgan Freeman faz cara de sério, as panteras estão prontas para o ataque e o casal mais belo do cinema, Brad Pit e Angelina Jolie está ali, paradinho para as fotos.
SORRY!
Uma das coisas que me chamou a atenção em Londres foi a educação das pessoas. Numa cidade entulhada de gente com pressa, ninguém esbarra em você sem se desculpar. Mesmo na correria, olha pra trás e larga um “sorry”. Mônica, a guia, nos disse que essa é a palavra mais falada na Inglaterra, e deve realmente ser. É hábito por lá ser educado. Sorry se esbarrou, sorry se passou na frente da foto, sorry se não entendeu a pergunta, sorry pra tudo. E o bom é que o turista absorve esse espírito, e em pouco tempo já está dizendo sorry até para os brasileiros do grupo.
Algumas estátuas do museu de cera são tão perfeitas que passariam tranqüilamente por pessoas de verdade. Aliás, duas coisas diferem gente de estátua lá dentro: as pessoas se mexem, e tem uma máquina fotográfica na mão. Mas isso também não é regra. Já tinha sido avisada da pegadinha e, no calor da empolgação, também cai. Há uma estátua anônima entre as celebridades, de câmera fotográfica na mão, câmera com luzinha piscando e tudo.
Como ela está no meio do corredor, muita gente esbarra e, ao ver a máquina, contagiados pela educação local, a reação é a mesma: pedir desculpas pela batida que atrapalhou a foto. Como não há resposta ou movimento, o turista estranha e resolve olhar melhor a mulher. Cera pura. Eu falei sorry pra ela, e quem não falou que atire a primeira pedra. Fiz foto da mocinha e até ia publicar aqui embaixo, mas mudei de idéia. Faz parte da visita fazer papel de bobo se desculpando com a estátua, e perderia toda a graça se eu antecipasse quem é.
O Madame Tussauds é dividido por temas. Celebridades de Hollywood, família real, personalidades científicas, artísticas, cantores, esportistas, desenhos infantis. Um espaço é dedicado aos atores de Bollywood, a Hollywood indiana, e é cercada pelos turistas de lá o tempo todo. O museu de cera foi o local em que mais vi indianos fazendo turismo.
Algumas das celebridades tem ala vip no museu, com cenário e fotógrafo próprio. A foto pode ser comprada ao final da visita, não lembro ao certo se por 10 libras. Mas nada impede que o turista fotografe à vontade com a própria máquina. O único local em que não são permitidas fotos é no Espírito de Londres, um passeio de trenzinho por uma área do museu, feito em cabines que reproduzem o táxi preto. A volta pela Londres histórica de Madame Tussauds termina diante de uma série de monitores onde o turista encontra sua foto, pronta para ser impressa por mais algumas libras. A minha ficou terrível, e tomara que não guardem para usar como modelo na minha estátua quando eu ficar famosa.
A manhã seguinte é de viagem. Deixamos a Inglaterra no ferryboat, retornamos à França para, então, seguir para a Bélgica. É para lá que vamos no próximo capítulo.
LEIA TAMBÉM:
Enquanto vejo soldadinhos, Elizabeth II curte aviões
Fui a Londres e não vi o Big Ben!
Nem todo turista entra facilmente na Inglaterra
Na despedida de Paris, o lado mais parisiense da cidade
Sorria para Mona Lisa, você está no Louvre
Voilà! A criciumense está em Paris



































