Por Texto/fotos: Lene De Costa - lenedecosta@engeplus.com.br
EmA viagem até o porto de Calais vai durar pouco mais de duas horas, com uma parada rápida para um café. Não sei se é a melancolia de deixar Paris, mas todos no ônibus estão quietos e aproveito para tentar pôr o sono em dia.
Somos acordados pela guia desta etapa da viagem, Mônica, uma divertida espanhola de cerca de 30 anos, cabelos cacheados, sempre acompanhada de sua sombrinha que serve de ponto de referência no meio das multidões. Nosso grupo a apelida de Moni Poppins, referência à Mary Poppins do cinema.
Mônica explica que, em breve, estaremos na imigração e é preciso preencher, em letra de forma, o formulário de autorização. Sem saber da importância do documento, preencho o pequeno papel de qualquer jeito, ignorando que é ele quem define o rumo da entrevista com os agentes ingleses.
Depois da abordagem da polícia francesa no aeroporto Charles de Gaulle, já imagino que minha entrevista pode ser mais longa que as habituais. Como ninguém me disse até ali que há risco de turistas serem barrados, impedidos de entrar no país ou até deportados, estou preparada para mais perguntas, mas nem cogito a possibilidade de não entrar na Inglaterra.
Parte do grupo está de olho em mim, um pouco apreensivos, e a ansiedade faz a fila parecer mais extensa do que já é. Não que eu tenha começado a me importar com as filas, mas é que esta não tem a menor graça, afinal, vou perder um tempão e no final dela, em vez de um cartão-postal maravilhoso verei um balcão escuro com um inglês fardado me perguntando por quê estou ali. Porque quero ver o Big Ben, oras.
A primeira parada é na imigração francesa para formalizar a saída do país. A mesma fila já segue para a sala ao lado, a imigração inglesa. O clima começa a parecer mais tenso. A agente que controla a fila, uma simpática senhora loira, pergunta se falo inglês. Respondo que me viro. Ela sorri e diz que, então, será uma boa oportunidade para treinar. A torcida agora é para cair num guichê com um atendente não muito rígido, pois meu perfil não colabora: brasileira, menos de 30 anos, solteira, viajando sozinha. Exatamente como boa parte dos que tentam entrar no país para trabalhar ilegalmente.
Um dos rapazes que está no meu ônibus pega o agente mal-encarado que torci para não me chamar, e, poucas perguntas depois, já está sentado no único sofá da sala. Precisa aguardar. A agente que me chama parece não ser das mais radicais. Vai direto ao campo da profissão para constatar se sou mesmo jornalista e, realmente, é melhor não mentir ao preencher o papel, porque eles pedem confirmações.
Para alguns médicos do grupo, os agentes perguntaram nomes de ossos. A agente pergunta se falo inglês fluente, explico que posso responder a entrevista, mas ao ouvir meu sotaque puxado para o americano, ela pede a presença de Mônica. Britânicos odeiam o inglês americano.
QUEM VAI, QUEM FICA
Preciso dizer a ela o nome do veículo no qual trabalho, soletrar E-N-G-E-P-L-U-S, listar em quais editorias escrevo, dizer quantos dias fico na Inglaterra, em que hotel vou me hospedar, se trago dinheiro, mostrar a passagem de volta. Na terceira pergunta Mônica quer se retirar porque diz que eu estou entendendo a entrevista, mas peço que ela fique porque é a agente quem faz questão de não entender.
Quando penso que vou ser liberada, ela quer saber ainda como consegui o dinheiro para pagar a viagem. Desta vez nem espero pela tradutora, olho para agente e digo, rindo, que trabalho duro há anos sem tirar férias. Convencida, carimba meu passaporte. Estou autorizada a entrar. Mas nem todos estão.
Um dos criciumenses, mesmo viajando com o familiar que deu de presente a ele a viagem, é levado a uma sala para averiguações. O agente não acredita que ele está apenas em férias. Recém-formado em licenciatura, o rapaz preenche o formulário como professor, e o agente diz que é impossível um professor em férias pela Europa em pleno ano letivo brasileiro.
O rapaz que estava na minha frente continua tentando explicar sua ida à Inglaterra, mas é inútil. A peneira é a profissão, e o rapaz trabalha com produção de móveis, força braçal. Goiano, ele e outro conterrâneo têm as malas retiradas do ônibus. Para eles não há chance, a imigração detectou a intenção de ficar no país. Serão deportados.
O criciumense precisa comprovar as informações para poder continuar o tour, mas isto não é feito imediatamente. O grupo precisa seguir e deixá-lo para trás. Não queremos seguir sem ele, mas Mônica diz que é a regra da viagem e que, se ele não foi deportado na entrevista, provavelmente não será mais. Os agentes têm agora duas alternativas: ou negam a entrada do rapaz no país e o mandam para a Bélgica, nosso próximo destino, ou concluem que é só mais um turista inofensivo e o encaminham de volta ao grupo.
O guia criciumense se oferece para ficar com o rapaz. O restante do grupo é levado ao porto. Mônica explica a todos o que houve e diz que tanto as averiguações quanto as deportações são comuns. Dali pra frente o dia se torna angustiante, com celulares desligados e nenhuma informação do destino dos dois.
À BORDO
A travessia do Canal da Mancha é feita de ferryboat e dura pouco mais de uma hora. Os ônibus entram no estacionamento, marcamos a cor da escadaria que nos devolverá ao mesmo local e estamos liberados para circular pelo barco “até avistarem las pedras brancas”, frisa Mônica. Em três andares estão instalados restaurantes, lojas, áreas de lazer, casas de câmbio. A moeda na Inglaterra é a Libra, e como nos demais países precisaremos sempre de Euro, as agências indicam que o turista faça a conversão lá mesmo, trocando dinheiro só para as despesas básicas.
Há máquinas de troca instaladas em todo o ferry e é aí que somos apresentados à devoradora economia inglesa. Deposito na máquina uma nota de 50 Euros e ela me devolve poucas moedas. Penso que ela está de sacanagem, mas é sério. Nas casas de câmbio no país a taxa é um pouco menor mas, trocada no ferry, uma Libra equivale a R$ 5,50. Dá uma saudade danada do Brasil nessa hora. E é melhor adotar a máxima das viagens internacionais: quem converte não se diverte.
A viagem de ferry é insuportável para metade dos tripulantes, mas não para mim. Meu café da manhã incluiu um Dramin, o fantástico comprimido que me permite circular com o estômago no seu devido lugar por um barco embalado em alto-mar. Subo e desço escadas para conhecer tudo, vou à área aberta do ferry, mas corro logo para dentro para escapar do vento e me instalo numa janela para fotografar os barcos mais à frente, já cruzando o canal. São 250 navios fazendo este mesmo caminho todos os dias. A vista é realmente belíssima, mas tenho dúvida se chega a justificar as 10 horas de viagem. De Eurostar, o trem que liga Paris a Londres, o percurso seria feito em apenas três horas.
As tais pedras brancas - um rochedo próximo ao porto - anunciam que é hora de desembarcar em Dover, primeira cidade do lado inglês. Por falar em lado, o ônibus aqui já toma a mão contrária, a famosa mão inglesa, e é estranho circular pela rodovia na pista da esquerda sem a adrenalina de se estar ultrapassando. O cérebro custa a associar a mão contrária.
A PEQUENA CANTERBURY
Nossa primeira parada é Carterbury, uma cidade no condado de Kent, centro religioso do Reino Unido, e que parece saída de um conto dos Irmãos Grimm. O acesso ao centro é feito por uma trilha cercada por árvores e costeando um lago. Chegamos a uma praça antiga, coisa de mais de 1.500 anos. Nela está a catedral, lojas e pequenos cafés e é difícil saber onde é rua e onde é calçada. Não há árvores e, como a parada é curta, não há tempo para pegar a fila e entrar na catedral.
Aproveito para provar o Frapuccino, o tradicional café gelado inglês, servido com creme. Sento na varanda do café, em frente à praça, para observar o menino loiro que brinca com bolinhas de sabão em meio a duas centenas de turistas. Duas mulheres que estão no mesmo ônibus que eu, mineiras, ambas na faixa dos 40 anos, puxam assunto. Querem saber de Paris, já que desceram lá no dia anterior mas só conhecerão a cidade das luzes no retorno, últimos dias no pacote delas.
Conto sobre a vista da torre, dou dicas de fotos interessantes, e elas se mostram empolgadas, fazem planos. Só dois dias depois dessa conversa vou me dar conta de que a imigração inglesa não é assim tão eficiente em suas entrevistas. Ainda encontrei as duas no hall do hotel em Londres à noite e ensinei como fazer ligações para o Brasil, mas foi a última vez que as vi. De turistas não tinham nada. Autorizadas a entrar no país, fugiram do hotel e ingressaram na lista dos brasileiros que vivem clandestinamente na capital inglesa.
São quase sete horas da noite e, depois de um dia todo de estrada, recepcionados por tímido sol, chegamos a Londres. Aparecem as primeiras construções em tijolos escuros, todas muito semelhantes, sem garagens ou jardins, e eu teria acertado meu relógio pelo Meridiano de Greenwich se não tivéssemos passado tão rápido por ele. Moídos de cansaço, chegamos finalmente ao hotel e a euforia de estar na fantástica cidade é dividida com a preocupação. Até agora, nenhuma notícia dos colegas que ficaram no Porto de Calais.
LEIA MAIS!
Na despedida de Paris, o lado mais parisiense da cidade
Sorria para Mona Lisa, você está no Louvre
Voilà! A criciumense está em Paris


































