Sorria para Mona Lisa, você está no Louvre

Por Texto/fotos: Lene De Costa - lenedecosta@engeplus.com.br

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Estou entre as cerca de 30 milhões de pessoas que leram O Código da Vinci, obra de Dan Brown que tem, entre suas tramas, um assassinato dentro do Museu do Louvre. Se o roteiro é ficção, o descritivo do local é totalmente real. As paredes e salas, os desenhos do piso, as cores de cada ambiente, as obras, tudo está lá, exatamente como no livro.

Minha veia artística não é das mais aguçadas e confesso que, pelo pouco conhecimento da área, seria quase uma heresia tentar escrever sobre as peças armazenadas. Melhor, então, não entrar no mérito e me limitar às impressões de turista que vê, ao vivo, o que tentou imaginar durante a leitura.

Li num dos guias de viagem que, para apreciar por cinco segundos cada uma das obras contidas no local, o visitante precisaria passar 30 dias dentro do Louvre. É muito tempo, não recomendo, mas pela pequena amostra que tive, não deve ser exagero. São quilômetros de salas decoradas com raridades, de beleza incontestável e valor incalculável.

Erguido há 800 anos, o palácio foi construído por Charles 5° para servir de fortaleza medieval. Pense no interior dos castelos de filmes como Coração Valente e Lancelot. O subsolo do Louvre é assim. E, apesar do aspecto, não tem cheiro de mofo. Minha rinite agradece.

Impressionada com tamanho do museu, escolho fazer uma visita guiada, em espanhol, já que não há prospectos nem guias em português. Comprando a entrada por conta própria, o turista desembolsa quatro vezes menos que na visita guiada, sai sem as narrativas históricas mas, de posse do mapa ilustrado fornecido sem custo adicional, provavelmente vai encontrar as principais obras e sair satisfeito.

No meu caso, além de uma boa oportunidade de aprender sobre arte, ser guiada era uma garantia de não me perder na imensidão de salas e ser devolvida no estacionamento no horário marcado. Bem lembrado, o estacionamento. Imagine um grande estacionamento. O do Louvre é maior. Tem até semáforo para controlar o tráfego, mas é escuro demais para um estacionamento de ponto turístico.

Recebo o equipamento de áudio pelo qual ouvirei as explicações do guia durante a visita, subo a escada rolante, passo pela maquete do museu, dobro à esquerda e estou no Napoleon Hall, exatamente embaixo da grande pirâmide. É a parte mais jovem do Louvre, inaugurada em 1989 pelo presidente François Mitterrand. Mapa na mão e fones no ouvido, sou revistada pela segurança para garantir que não entro com armas e estou autorizada a circular pelo museu.

Passadas as antiguidades egípcias do subsolo, a primeira pop star a surgir é a Vênus de Milo, estátua que representa a deusa grega Afrodite. Está bem conservada para quem foi construída no ano 130 Antes de Cristo. Vi também o Parthenón e os sarcófagos romanos.

No final da Escadaria de Darú fui apresentada à Vitória de Samotrácia, escultura incompleta da deusa Atena, notável tanto pela beleza quanto pelo tamanho. Diria que não ter cabeça é um detalhe que poderia passar até batido se o guia não fizesse questão de apontar a particularidade. A Vênus de Milo não tem os braços e, no entanto, o guia nem fala no assunto.

É fácil identificar se estamos chegando perto de uma das tops do Louvre: basta seguir a direção dos flashes. Sim, infelizmente, flashes. A não utilização deles é a única exigência feita ao turista no início da visita, já que as luzes inadequadas comprometem a preservação das obras. E, ainda assim, quase ninguém respeita esta solicitação, e é impossível para os guias controlar as multidões diante de cada peça - depois ainda atribuem a cara de poucos amigos dos funcionários exclusivamente ao fato de serem franceses. Sem falar que contrariar a exigência do museu é ainda um ato antifotográfico, uma vez que a luz do local é ideal para cliques sem flash e, na maioria das salas, o resultado é bem mais interessante assim.

É ELA!
As placas indicam agora a proximidade com a maior celebridade do local. É no primeiro piso que está a sorridente Mona Lisa. Deixo de lado o guia e saio em busca da sala onde está o quadro. Para minha surpresa, o encontro sem grandes regalias, tratado como só mais um entre tantos. Olhei para o interior de uma sala e lá no fundo estava ela. Só então percebi, embaixo, pouco menos de uma centena de turistas se esmagando e disparando seus insistentes flashes, que aqui não fazem estragos.

Ela está protegida por uma corda de isolamento, uma reserva de madeira, mais uma base de madeira e uma placa de vidro pelo menos seis vezes maior que ela. É, ela é pequena, sombria, de poucas cores, mas com um olhar provocante, capaz de perseguir por todos os cantos da sala quem insiste em encará-la.

Além de não ter sala vip, Mona Lisa ainda correria o risco de ter seu brilho ofuscado pelo gigantesco quadro de Veronese, As Bodas de Cana, que toma toda a parede à sua frente. Mas ela não precisa ter grandes dimensões para ser respeitada porque ela é, simplesmente, a Mona Lisa. Da Vinci ficaria orgulhoso se pudesse conferir todas as noites as bilheterias que sua pequena rende ao museu.

Quase seis horas depois da chegada ao Louvre, a visita termina no encontro das pirâmides, outro ponto sagrado depois da adaptação para o cinema de O Código. Segundo o filme, sob a pirâmide estão escondidos os restos mortais de Maria Madalena, o Santo Graal. Sempre tive medo que um fanático demolisse a peça para tirar a prova antes que eu conseguisse pôr meus pés lá. Pés e, claro, mãos, afinal, cumpro o mesmo ritual de milhares de turistas, colocando a mão entre as pirâmides. Dizem que dá sorte. Eu diria que, no mínimo, dá uma divertida foto.

Ninguém me contou que a visita guiada não incluía os jardins nem a grande pirâmide de vidro da parte externa. Recomendo percorrê-los, por conta própria, gratuitamente, antes de entrar no museu. Não fiz isso, e com horário marcado para retornar o hotel, saí do Louvre frustrada. Só considerei a visita completa no dia seguinte, quando voltei lá e, aí sim, molhei as mãos na fonte e registrei a famosa figura de vários ângulos, ainda que ela continuasse na mesma pose.

O Louvre parecer ter também o maior “acervo” de japoneses da ala turística de Paris. Para cada quadro exposto há pelo menos dez deles, empilhados, mirando suas câmeras moderníssimas que fez minha Sony semiprofissional ficar semi-envergonhada. E o preço dos souvenirs no museu parece fixado especialmente para eles, com Euros de sobra para torrar por lá.

Ainda rodo mais por Paris. Saio da área central para conhecer o boêmio bairro de Montmartre - na minha opinião, o que há de mais parisiense em Paris - e a encantadora Bercy. Antes, uma visita aos jardins de Versalhes. Doses fantásticas da viagem, mas que ficam para a próxima semana.

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