Uma noite no cassino em Rivera

Reabertura das casas no Brasil é sutilmente discutida no Congresso. O negócio é ir ao Uruguai

Por Denis Luciano - denis.luciano@engeplus.com.br

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Uma noite no cassino em Rivera
Foto: Denis Luciano

A noite era quente naquela quinta-feira na fronteira do Brasil com o Uruguai, depois de um entardecer bonito e dourado naqueles cantos. Bastava atravessar a praça que une Santana do Livramento a Rivera e o relógio atrasava uma hora. Eram umas 22 horas cá, 21 horas lá, e, com uma pequena caminhada pós jantar, estava diante do Casino Rivera Hotel.

Ali, o ponto mais próximo geograficamente, para muitos brasileiros, de viver uma experiência ilegal em nosso país desde os anos 40: o jogo em cassinos.

Com a arcaica postura do Brasil - ditada pela primeira dama de 46, do sisudo presidente Eurico Gaspar Dutra -, divertir-se com o jogo exige outros rumos, desde os mais sofisticados e caros - diga-se Las Vegas, nos Estados Unidos -, até os mais em conta para os não tão abundantes bolsos brasileiros, e ali está o Uruguai.

Um hotel para jogar

O cassino está encravado em um luxuoso hotel, na avenida que separa-nos do Uruguai, em um caminho que é também de compras para muitos brasileiros.

Ocupa um quarteirão todo o complexo. Portas muito largas abrem-se diante dos visitantes, que logo pisam um extenso carpete vermelho que, ao fundo, pisca em luzes, iluminando sutilmente a clientela variada.

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Para quem chega, é necessário dirigir-se a um guichê, à direita no hall. Ali, uma verdadeira casa de câmbio. Para jogar, é necessário mergulhar no câmbio do jogo. Se no comércio agitado de Rivera é possível pagar R$ 0,10 por 1 peso uruguaio, ali a cotação aumenta: uns 0,12 por 1. Mas vale a diversão. Comprados os pesos, é hora de vasculhar os salões.

No primeiro, o maior, há certamente uma centena de máquinas caça-níquel. Elas são a coqueluche de uma casa que, noite ainda começando, abrigava um público já maduro e de diversas origens. “Sou do Ceará”, me contou Tereza*, 42 anos, acompanhada do marido Osmar*. Iniciante, ela dedilhava com cuidado as máquinas depois de pedir algumas sugestões aos atendentes que vão e vem pelos salões.

Havia esquecido de adotar o segundo expediente: depois do câmbio, procura-se o caixa do jogo, em outro ponto, mais escondido, para “converter” os pesos em cartões que facilitam o jogo nas máquinas.

Ao gosto das aposentadas

Catar dinheiro apertando botões é rotina para aposentadas uruguaias. Várias delas circulavam, geralmente com copos de refrigentes às mãos. “Estoy sin suerte”, me disse Dulce* - que não quis me contar a idade, mas aparentava uns 70, seguramente -, sentada na máquina ao lado, ao perceber que eu vinha me saindo um pouco melhor. Não muito.

Há crise até nos cassinos. Aqueles frequentadores abonados que você imagina, cercados por fanáticos torcedores e regados aos whiskys mais caros, são cada vez mais raros.

Continuei o giro pelo salão principal. Achei um grupo que fazia diminuir um tanto a média de idade do confortável ambiente. Fernanda*, 26 anos, saiu de Curitiba para conhecer os cassinos uruguaios. “Minha família já teve problemas com o jogo, mas sei me controlar”. É o que pareceu nos minutos que me misturei a ela e outros amigos. “Deu, Fernanda”, disse Fabiane*, outra curitibana, ao perceber que a parceira já extraía uns bons pesos da máquina.

As roletas logo ali

O cenário induz a uma cervejinha para relaxar. A garçonete uruguaia é bonita e atenciosa, mas rápida. Sem muitas explicações, me entrega a cerveja mais popular do seu país, em uma long neck de R$ 15. Quase 200 pesos. Normal.

Com ela em mãos, troquei de salão. No anexo, cujas escadarias de mármore ao fundo levam ao hotel, de onde muitos hóspedes descem para compartilhar da jogatina, mais máquinas, que piscam, comem e cospem dinheiro, acendem e apagam, e uma dica que vale como estratégia.

“Sabe aquele que senta em uma máquina e perde, e perde e perde?”, me indaga Pedro*, outro velho frequentador da casa, vindo de Montevidéu. “Então. Se o sujeito saiu após muito perder, sente ali, pois não demora e você vai ganhar”. Segui a dica, mas isso é história para mais adiante.

O carpete troca de cor, migra do vermelho escuro para um verde sugestivo. Mesas retangulares distribuídas no espaçoso ambiente abrigam as roletas, fascínio de tantos. Nao me arrisco a elas, mas noto a predominância dos homens nos seus entornos. Mulheres? Algumas expectadoras.

“Joga no 5”, pediu Rafaela*. O noivo, Celso*, atendeu. Girou a roleta. A bolinha pulou, cutucou aqui e ali, namorou a casinha pretendida por ela, mas se abrigou no escaninho vizinho. “Hora de ir embora”, disse ele. “É preciso saber a hora de parar aqui”, me contou, noiva à tiracolo, ao deixar a mesa com alguns dólares garantidos, rumo ao caixa para o câmbio, e já pensando em como gastar a caminho de Florianópolis, no retorno para casa.

Hora de seguir os conselhos

Fazia um calor inclemente lá fora, mesmo com a noite já avançando rumo á madrugada. Ali dentro, porém, o ar condicionado carregado forçava algumas das senhorinhas, com seus copos de refri, a apelarem para casaquinhos, leves, mas necessários.

Resolvi então unir as duas melhores dicas da noite - a das máquinas e a da hora de parar -, e parti para tentar melhorar o saldo da noite, que estava negativo. Depois de alguns passeios no salão, achei a tal máquina encantada, na qual alguém perdia, perdia e perdia.

“Desisti”, disse-me Alice*, uma bela argentina de não mais que 30 anos. Tomei o seu lugar e, minutos depois, ela volta para perceber que, com 8 mil pesos garantidos, era chegada a minha hora de partir.

Sorte de principiante? Provavelmente. Mas uma certeza: ao jogador consciente, e me pareceu ser o caso de todos os citados e os não citados mas vistos no mesmo ambiente naquela noite de verão, ter um cassino ao seu alcance é uma oportunidade não de se viciar, mas de se divertir. “E o governo nos leva uma boa fatia de imposto”, contou-me Gustavo*, um dos gerentes do lugar. Logo, jogo é turismo e fonte de divisas.

Para um país que tem potencial e precisa de dinheiro como o nosso, por que não arriscar? O Congresso, a passos de tartaruga, analisa projetos de legalização do jogo, com cassinos em lugares remotos do Brasil. Enquanto isso, os asteriscos nos nomes acima mencionados são pedidos e necessários. Que um dia os ventos de normalidade apertem os botões, girem as roletas e lancem a sorte!

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