Voilà! A criciumense está em Paris

Por Texto/fotos: Lene De Costa - lenedecosta@engeplus.com.br

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A partir desta semana o Canal Viagens roda cinco países da Europa: França, Inglaterra, Holanda, Bélgica e Alemanha. Uma série produzida especialmente para o Portal Engeplus, já que as histórias são contadas por alguém da casa. Neste espaço esqueço a narrativa jornalística usada nas demais editorias e ataco de turista criciumense pisando, pela primeira vez, no continente europeu.

Menos de 30 dias depois do retorno, já preciso de uma mãozinha do Google para denominar corretamente tantos lugares visitados. Mas a parte mais difícil é, com toda certeza, selecionar amostras entre as quase 1.500 fotos trazidas. Dizem que uma imagem vale mais que mil palavras. Numa viagem destas eu diria que cada imagem exigiria mais de mil palavras para se descrever a sensação de estar ali. Juro que vou tentar resumir, mas sabem como são estes turistas de primeira viagem...

Jornalista Lene de Costa
Editora Executiva e Turista



VOILÀ! ESTOU EM PARIS!
O relógio, ainda com horário do Brasil, marca 10:30, mas sei que já passam das três da tarde na França. Ansiosa, colo o rosto na janela antes mesmo do piloto anunciar o pouso, em poucos minutos, no Charles De Gaulle. Percorro o Rio Sena com os olhos em busca da obra de Gustav Eiffel, mas há tanto o que contemplar que, lá de cima, ficou impossível encontrá-la.

Já de posse do carimbo da imigração, cumprimento um último representante de La Police que não se contenta com meu bonjour. Quer saber de onde venho, o que faço em Paris, para onde vou depois, se chego com bens. Com o cerco cada vez mais apertado aos que pretendem se instalar ilegalmente na Europa, quem ainda não chegou aos 30 anos e não tem passaporte da comunidade européia dificilmente escapa dos interrogatórios. Explicações dadas, sigo para o hotel sem tirar os olhos da estrada. Nada da torre. Depois de adaptar meu 1,70 ao chuveiro baixo instalado dentro da banheira, ignoro estar na França e exagero no banho para espantar o cansaço das 28 horas desde a saída de Criciúma. De camisa verde e amarela, a estampa do turista de primeira viagem, sou apresentada ao metrô de Paris, rumo ao que procuro desde que estava no ar. Subo as escadas da estação Trocadéro e ainda não a vejo, pois há uma igreja imensa no caminho. Resmungo qualquer coisa sobre achar que, pra se esconder tanto, não deve ser grande coisa. Calo a boca assim que contorno a igreja e dou de cara com o maior cartão-postal da França no final da praça. Não sei se acontece com todo turista, mas só nessa hora a ficha caiu e tive certeza: estou em Paris! E devo ter repetido isso em voz alta umas dez vezes pra me convencer.

Os 200, talvez 300 metros que me separam dela são calmamente percorridos, pois cada metro contornado pelo Rio Sena dá uma foto diferente, ainda mais espetacular. Estou, finalmente, embaixo da torre. Mas quero mais, quero estar em cima. A fila não é animadora, há pelo menos 800 pessoas na minha frente, mas depois de ler tantos guias de viagem, estava preparada pra encarar a média de 1,5 hora pra comprar o ticket, e mais um bom tempo até o primeiro elevador. Descubro mais de uma dúzia de brasileiros na fila, vindos de todo canto do país, cena que vai se repetir em quase todos os pontos turísticos em que estive. Chego ao terceiro andar da Torre Eiffel às 21:20 e graças à primavera, o sol visto lá de cima é esplêndido.

Refeita do pânico do elevador panorâmico (o problema não é a altura, mas o fato do elevador ser de vidro, até o do Milenium Saúde Center me apavora), subo ainda um lance de escadas que me leva ao último estágio, onde só há grades, nada de vidro, e sinto o forte vento do início da noite. A 320 metros de altura, as gigantescas construções parisienses não passam de brinquedos, a cidade nada mais é que uma maquete. Desço encantada e digo até hoje que não há fila que justifique não ver Paris do topo. É algo fantástico. Quando acho que a Torre já me mostrou todos os seus atrativos, inicia-se o show de luzes. Em um ritmo que parece acompanhar uma música inexistente, milhares de luzes piscam da base ao alto da estrutura metálica saudando os visitantes. Ou, quem sabe, para frisar que estamos na Cidade Luz.

Outro ponto ainda precisa ser visto antes da primeira noite de sono em Paris: o iluminado Arco do Triunfo. Caminho pela Champs-Elyseé e páro para fotografar os carros que cortam a rua de lajotas, alheios à obra, como se fosse possível encontrar aquele cenário em qualquer esquina do mundo. Aí lembro que estamos em Paris e, em Paris, toda esquina é, realmente, um cartão postal, e os franceses devem estar tão acostumados ao Arco quanto eu à Nereu Ramos.

Há milhões de guias de viagem detalhando a cidade mais visitada do mundo, mas a melhor maneira de associar o lido ao que o local abriga é fazendo um city tour. A visita panorâmica é narrada por um guia local, em portunhol, e resume séculos de história em pouco mais de duas horas. Foi no city tour que soube que até o sistema de esgoto de Paris atrai turistas. Que o café mais caro do mundo não é o mais sofisticado, mas o que abrigou figuras do meio artístico e literário por várias décadas. Conheci esculturas recebidas de presente de vários países, particularidades de Napoleão e Luiz XIV, contornei Père-Lachaise, o jardim-cemitério onde foram enterrados Édith Piaf, Maria Callas, Jim Morrison, Chopin, Balzac, Alan Kardec e outros tantos famosos. O tour encerra em Notre Dame e lá cometo o pecado de fazer como a maioria, ignorar o aviso de No Pictures e clicar o famoso altar gótico. A mais famosa catedral francesa tem ainda outro diferencial: não cobra entrada, algo raríssimo em Paris.

A comida, pelo menos para mim, não vai ficar entre as melhores lembranças da viagem. Acostumada com o tempero italiano, estranhei muito a culinária francesa. Eles ainda não descobriram o sal. Mas descobriram as batatas. Elas estão em quase todos os pratos. E tive a impressão de que todo pão francês é duro – talvez tenha sido só falta de sorte. Também estranhei o terrível costume de preparar a comida com a mão, receber o dinheiro do turista com esta mesma mão, colocar no caixa e continuar mexendo nos alimentos. Nada de luvas ou espátulas. Vi essa cena em, pelo menos, três locais, os três primeiros em que comi. Dali pra frente adotei a técnica de fazer o pedido e virar as costas até que estivesse pronto. O que os olhos não vêem, o estômago sente menos.

O tal mau humor dos franceses e a aversão ao inglês também não são totalmente mito. Mas são mais comuns nos pontos mais formais, a exemplo dos carrancudos funcionários da Torre Eiffel e alguns garçons de má vontade. No comércio, a maioria se esforça para ser simpático e até arrisca palavras em portunhol para agradar aos brasileiros, a melhor forma de arrancar Euros. Na Benlux, loja de perfumes e cosméticos indicada pelos guias, o turista é recebido no seu idioma original, seja brasileiro ou chinês. Ah, é, a China também já invadiu Paris e na hora de comprar souvenirs é bom olhar a etiqueta para não voltar com uma leva de artigos orientais. Aliás, aprendi na prática que souvenirs de pontos turísticos nunca devem ser comprados no próprio ponto. Não se afobe, vai ter, igualzinho, ali na frente. Quanto mais longe do lugar, menos Euros se paga pelo mesmo produto. É a única forma de economizar, já que chorar por descontos lá não funciona. Quem precisa fazer promoção na cidade que mais recebe turistas de todo o mundo?

Depois de dois dias batendo perna na charmosa capital já se entende o mau humor parisiense, afinal, são 12 milhões de habitantes tentando levar uma vida normal enquanto milhares de turistas armados com muitas câmeras e nenhuma pressa invadem as ruas, as estações de metrô, os restaurantes, os supermercados, as escadas rolantes, as lojas, tudo. Não deve mesmo ser fácil. Depois que voltei, nunca mais reclamei que o Manentti ou a Henrique Lage estavam cheios demais.

Meu tour por Paris me possibilitou ainda ver uma cena bastante comum na Europa: a população organizada para defender seus direitos. A greve geral deflagrada naquele dia fechou museus – por isso conheci o Pompidou apenas por fora – reduziu os horários do transporte e levou uma multidão às ruas. Assisti tudo da porta da Galeria Lafayette, ponto certo para quem pretendia deixar centenas de Euros nas mãos das marcas mais famosas da França. Como não era o meu caso, fiquei fotografando a greve.

Por mais que se traga fotos de Paris, nunca se trouxe fotos suficientes. Há várias lembranças que acabaram não sendo registradas. Mas há ainda as lembranças absorvidas pelos sentidos. Para mim, Paris será lembrada pelo som das sirenes de polícia e ambulâncias que tentavam driblar os engarrafamentos, ambos agravados pelo Torneio de Roland Garros disputado nestes mesmos dias, e no qual o catarinense Guga se despedia das quadras. Paris voltará à memória toda vez que vários perfumes se misturarem no ar, revivendo o cheiro das centenas de lojas de cosméticos pelas quais passei, e toda vez que eu sentir gosto de Nutela, o mais tradicional recheio dos deliciosos crepes.

Como cada parada daria uma historia, Paris virá em doses, não encerra aqui. Não posso deixar de contar como é estar no Louvre...

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