“A Anjo foi construída com um modelo de meritocracia muito verdadeiro.”
Mano Dal Ponte recebeu Filipe Colombo, CEO da Anjo Tintas no uMANOs Talk Show Engeplus

Aos 27 anos, Filipe Colombo assumiu o comando da Anjo Tintas, empresa fundada por seu pai, e que, ao longo das últimas décadas, consolidou-se no mercado brasileiro de tintas e produtos químicos. Antes de chegar à posição de CEO, ele percorreu diferentes áreas da companhia, passando pela produção, carga e descarga, expedição, estoque, laboratórios, administração de vendas e marketing.
A trajetória foi construída ao longo de anos de aprendizado dentro da própria empresa. Filipe começou oficialmente na Anjo muito cedo e passou cerca de sete anos conhecendo diferentes setores da operação. Depois, assumiu a supervisão administrativa e de vendas, experiência que foi seguida por um período de formação internacional, com mestrado realizado nos Estados Unidos, na China e em Dubai.
Mais de uma década depois de assumir a principal posição executiva, Filipe Colombo fala sobre gestão, sucessão, pessoas, inovação e os desafios de conduzir uma indústria em um cenário econômico complexo.
Em entrevista ao Mano’s Talk Show, exibido pela Engeplus, o empresário também compartilhou histórias dos bastidores da empresa e explicou como a Anjo procura transformar seus valores em práticas concretas no dia a dia.
“A Anjo foi construída com um modelo de meritocracia muito verdadeiro.”
Mano Dal Ponte recebeu Filipe Colombo, CEO da Anjo Tintas no uMANOs Talk Show:
Uma sucessão construída dentro da empresa
A chegada de Filipe Colombo à posição de CEO não ocorreu de forma repentina. Antes de assumir a liderança, ele passou por praticamente todos os setores da Anjo. A experiência foi parte de um processo de formação desenvolvido dentro da própria empresa, que permitiu ao executivo conhecer desde a operação industrial até as áreas administrativas e comerciais.
Aos 27 anos, Filipe assumiu o comando após seu pai, Beto Colombo, fundador da empresa, decidir deixar a operação. O executivo admite que os primeiros anos foram difíceis e que a responsabilidade provocou forte pressão pessoal. Segundo ele, a experiência exigiu acompanhamento psicológico e uma adaptação progressiva à nova posição. Hoje, são cerca de 13 anos à frente da companhia.
“Os dois primeiros anos foram complicadíssimos para mim psicologicamente. Foi uma carga muito pesada.”
PPR como ferramenta de gestão e participação
Um dos principais pilares da gestão da Anjo é o Programa de Participação nos Resultados (PPR). Segundo Filipe, a empresa distribuiu mais de R$ 12 milhões aos colaboradores entre 2021 e 2025 por meio do programa. A proposta, porém, vai além da distribuição financeira: o objetivo é fazer com que os funcionários compreendam como suas atividades interferem diretamente nos resultados da companhia.
Em vez de utilizar apenas indicadores financeiros complexos, a empresa trabalha com metas que podem ser compreendidas e acompanhadas pelas equipes, como inadimplência, satisfação dos clientes, prazo de entrega, ativação de novos clientes, volume vendido por profissional e custos fixos. Para Filipe, a estratégia permite transformar os objetivos corporativos em ações concretas no cotidiano dos colaboradores.
“O nosso PPR tem uma função muito mais ampla do que simplesmente distribuir parte dos resultados.”
Segundo o executivo, o programa também funciona como uma ferramenta de formação. Funcionários de diferentes áreas podem acompanhar indicadores, entender conceitos de gestão e participar diretamente da construção dos resultados da companhia.
Cultura organizacional: resultado sem abrir mão do ambiente
A Anjo possui aproximadamente 700 colaboradores e, de acordo com Filipe, trabalha com a ideia de que não existe uma fórmula única para motivar todas as pessoas. Cada profissional possui razões diferentes para estar na empresa, e cabe à organização criar condições para que esses diferentes interesses encontrem espaço dentro da cultura corporativa.
Entre as iniciativas citadas estão bolsas de estudo, benefícios e ações voltadas às famílias dos funcionários. Um dos exemplos é o convite feito às mães dos colaboradores para conhecerem a empresa durante as ações do Dia das Mães. A intenção é aproximar a família do ambiente profissional e criar identificação com o local onde seus filhos trabalham.
“Não dá para ter uma fórmula única para motivar todo mundo.”
Para Filipe, a motivação precisa estar relacionada ao propósito individual de cada profissional e às oportunidades que a empresa oferece para que ele se desenvolva.
Diversão também faz parte da estratégia
Entre os valores cultivados pela Anjo está a diversão. Para Filipe, o conceito não significa reduzir a cobrança por resultados, mas criar um ambiente em que as pessoas possam trabalhar de maneira mais agradável. A empresa promove eventos e ações internas que procuram transformar esse valor em experiências concretas para os colaboradores.
Um dos exemplos mencionados na entrevista foi a “Paleteira Maluca”, evento inspirado em competições de carrinhos e criado a partir de uma ideia interna. A iniciativa levou para dentro da empresa uma atividade de entretenimento envolvendo um equipamento utilizado na operação. Para o executivo, ações desse tipo ajudam a reforçar a cultura e a criar um ambiente menos burocrático, sem eliminar a necessidade de cobrança, metas e resultados.
“A Anjo não é perfeita. Não existe empresa perfeita. Mas a gente tenta fazer da nossa empresa o melhor lugar possível.”
Filipe resume a lógica dizendo que os funcionários passam grande parte do tempo dentro da empresa. Por isso, na visão dele, o ambiente de trabalho não precisa ser incompatível com diversão, convivência e relações humanas.
Agir como dono é diferente de pensar como dono
Filipe também faz uma distinção entre “pensar como dono” e “agir como dono”. Na avaliação dele, poucas pessoas efetivamente passam a pensar como proprietárias de uma empresa, mas é possível criar mecanismos para estimular comportamentos semelhantes aos de quem tem participação direta no negócio.
O PPR é apresentado como uma dessas ferramentas. Se um funcionário identifica uma luz acesa sem necessidade, por exemplo, e decide apagá-la porque sabe que a redução de custos também poderá contribuir para o resultado que será compartilhado, ele está agindo como dono. O sistema, segundo Filipe, também acaba funcionando como uma ferramenta de formação em gestão e identificação de novos talentos dentro da organização.
“Pensar como dono, poucos pensam. Agora dá para estimular as pessoas a agir como dono.”
A diferença, segundo ele, está em criar mecanismos para que o colaborador perceba que suas decisões cotidianas também têm impacto sobre os resultados da empresa e, consequentemente, sobre sua própria remuneração.
O desafio de reter profissionais em um mercado de trabalho diferente
A escassez de mão de obra é apontada pelo executivo como um dos principais desafios enfrentados atualmente pelas empresas. Segundo Filipe, existe dificuldade especialmente na contratação de profissionais qualificados, mas também há uma maior facilidade para o trabalhador encontrar novas oportunidades, o que aumenta a rotatividade.
Diante desse cenário, a Anjo procura criar possibilidades de crescimento dentro da própria organização. As vagas são inicialmente disponibilizadas internamente, permitindo que profissionais mudem de setor e adquiram novas experiências sem necessariamente deixar a empresa. Para Filipe, essa estratégia pode ser importante principalmente diante de uma geração que busca aprendizado constante e novas experiências profissionais.
“Por que o meu profissional precisa sair da Anjo para ter uma experiência diferente? Ele pode ir para outro setor dentro da minha empresa.”
A estratégia também busca responder a uma mudança no comportamento das novas gerações, que, segundo Filipe, tendem a buscar diferentes experiências ao longo da carreira. Na Anjo, a mobilidade interna é utilizada como uma alternativa para manter esses profissionais dentro da organização.
Indústria, economia e os desafios de um mercado mais pressionado
O executivo também descreveu o atual cenário econômico como desafiador para a indústria. Segundo Filipe, a Anjo enfrenta aumento da inadimplência, menor ritmo de investimentos e dificuldades relacionadas ao custo do crédito. A empresa possui aproximadamente 40% das vendas direcionadas à indústria e 60% ao varejo, fazendo com que o desempenho de diferentes setores da economia tenha impacto direto sobre seus negócios.
Outro fator destacado é a relação entre o cenário econômico e o consumo de produtos ligados à construção e manutenção. Quando famílias e empresas estão mais endividadas, a tendência é de redução nos investimentos e no consumo. Para Filipe, a combinação entre juros elevados, endividamento, recuperação judicial de empresas e menor ritmo de investimentos torna o ambiente empresarial mais complexo e exige maior eficiência das organizações.
“A gente está tendo que trabalhar muito mais para fazer o mesmo resultado.”
Filipe afirma que a inadimplência da empresa chegou a quadruplicar em relação ao período anterior. Na avaliação dele, o cenário exige mais atenção à gestão, ao controle de custos e à eficiência operacional.
Tecnologia, clima e o desafio de desenvolver produtos para diferentes regiões
Além da gestão, Filipe também explicou como as características climáticas brasileiras interferem diretamente no desenvolvimento e na aplicação de tintas. Temperatura e, principalmente, umidade podem alterar o comportamento dos produtos, exigindo diferentes formulações e soluções para garantir o desempenho esperado em regiões com condições climáticas distintas.
Na indústria automotiva, por exemplo, a velocidade de secagem precisa ser controlada conforme a temperatura. Em ambientes muito quentes, a superfície pode secar rapidamente enquanto partes internas ainda permanecem úmidas, provocando problemas na aplicação. A empresa utiliza diferentes aditivos para adaptar o comportamento dos produtos às condições de cada região.
“A temperatura influencia demais. A umidade influencia mais ainda.”
O desenvolvimento de produtos para um país de dimensões continentais exige, portanto, que a indústria considere condições ambientais muito diferentes, desde regiões frias do Sul até áreas de temperaturas elevadas próximas à linha do Equador.
A umidade como um dos grandes desafios da construção
A umidade também aparece como uma das principais preocupações relacionadas à aplicação de tintas em obras. Segundo Filipe, mesmo um produto de alta qualidade não consegue solucionar todos os problemas quando a origem da umidade está na própria estrutura da construção.
A Anjo trabalha com produtos que podem auxiliar no combate à infiltração externa, como tintas com características hidrorrepelentes. Entretanto, o executivo ressalta que situações de umidade ascendente ou problemas estruturais mais severos exigem outras soluções. Para ele, a água encontra caminhos dentro das estruturas e pode aparecer em pontos diferentes daquele onde a infiltração teve origem.
“A água sempre vai achar um jeitinho.”
A frase resume uma das dificuldades enfrentadas no setor. A tinta pode ajudar na proteção de uma superfície, mas não substitui a correção de problemas estruturais responsáveis pela entrada de água.
Cor, transformação e o impacto das tintas na vida das pessoas
Para Filipe Colombo, a relação entre a indústria de tintas e o consumidor vai além da aplicação de um produto sobre uma parede. A mudança de cor de uma casa pode representar um momento importante para uma família e alterar a percepção de um ambiente. A empresa procura transmitir aos colaboradores justamente essa dimensão do produto e seu impacto na vida das pessoas.
O executivo também citou um projeto realizado em São Paulo, no qual um viaduto conhecido por registrar casos de suicídio recebeu uma intervenção artística com cores. Segundo o relato apresentado na entrevista, após a transformação visual do espaço, houve uma redução significativa nos registros. O episódio é utilizado por Filipe como exemplo do potencial que a cor e a transformação dos ambientes podem exercer sobre as pessoas.
“Às vezes, mudar uma cor muda a energia dentro da casa.”
Para o executivo, essa dimensão emocional ajuda a explicar por que a pintura pode representar mais do que uma simples reforma. Para muitas famílias, pintar a casa significa renovação e transformação do ambiente em que vivem.
Um CEO que também testa os produtos em casa
Apesar de comandar uma grande indústria, Filipe afirma que mantém uma relação prática com os produtos fabricados pela empresa. Ele conta que costuma testar tintas em sua própria casa e brinca que é um “péssimo pintor”, justamente porque acredita que os produtos precisam funcionar também quando utilizados por pessoas sem a experiência de um profissional.
Uma das experiências aconteceu quando tentou criar listras coloridas na parede do quarto do primeiro filho. Sem conhecer as técnicas adequadas, utilizou uma fita inadequada e acabou tendo problemas durante a pintura. Depois de um final de semana de trabalho, precisou contratar um pintor profissional para corrigir o resultado.
“Eu sou um péssimo pintor, mas eu pinto.”
A história, além do tom descontraído, reforça uma das ideias apresentadas pelo executivo: o produto precisa ser desenvolvido pensando também na experiência real de quem está do outro lado, inclusive o consumidor que não possui conhecimento técnico.
Gestão com cobrança, mas sem perder a humanidade
Ao longo da entrevista, Filipe Colombo apresentou uma visão de liderança baseada no equilíbrio entre resultado, cobrança e ambiente de trabalho. Para ele, uma empresa precisa gerar lucro e cobrar desempenho, mas isso não significa transformar o ambiente profissional em um lugar desagradável.
A trajetória do executivo na Anjo Tintas, iniciada ainda na juventude e construída em diferentes áreas da companhia, tornou-se também uma experiência de formação de liderança. Entre indicadores, sucessão, participação nos resultados, inovação, desafios econômicos e histórias dos bastidores, Filipe defende uma gestão em que os objetivos da empresa estejam conectados aos objetivos das pessoas.
“Nem todo resultado vale o seu custo.”
A frase sintetiza parte da visão apresentada pelo executivo durante a conversa. Para Filipe, resultado é indispensável para a sustentabilidade de uma empresa, mas a maneira como esse resultado é alcançado também precisa ser considerada. Na Anjo, a proposta é combinar cobrança, participação, desenvolvimento profissional e um ambiente em que as pessoas tenham motivos para permanecer e crescer.

Mano Dal Ponte apresenta na Engeplus o uMANOs Talk Show



