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“Aprender não é descartável”: reitor da SATC defende nova educação diante da IA

Carlos Ferreira afirma que ensino precisa formar profissionais capazes de pensar

Por Mano Dal Ponte13 de agosto de 2026 8 min de leitura
Daniel Vieira / Triplice Filmes

A inteligência artificial está transformando a maneira como as pessoas trabalham, estudam, produzem conhecimento e tomam decisões. Diante desse cenário, a educação também precisa mudar. Essa é uma das principais avaliações de Carlos Ferreira, reitor da SATC, durante entrevista ao uMANOs Talk Show. Para ele, embora conhecimentos e métodos possam se tornar ultrapassados, a capacidade de aprender continuará sendo indispensável. “O conhecimento talvez seja descartável, porque a gente vai achar maneiras diferentes de fazer, maneiras diferentes de enxergar aquelas coisas. Agora, o aprender não, aprender não é descartável”, afirmou.

Com uma trajetória ligada à instituição desde a formação acadêmica até a reitoria, Carlos falou sobre o futuro dos cursos técnicos, os impactos da inteligência artificial, metodologias ativas, gestão educacional, formação profissional e a necessidade de desenvolver pessoas capazes de fazer perguntas. Para o reitor, a escola não pode tentar prever exatamente como será o futuro, mas precisa preparar seus alunos para um mundo em que a mudança será cada vez mais rápida.

Mano Dal Ponte recebeu Carlos Ferreira, reitor da SATC, no uMANOs Talk Show Engeplus.

Confira a entrevista completa no Youtube:

Educação precisa ensinar a pensar, não apenas transmitir conhecimento

Na avaliação do reitor, o modelo tradicional de ensino, baseado principalmente na transmissão de conteúdo e posterior reprodução em provas, precisa ser repensado. O estudante atual está exposto a uma quantidade de informações e estímulos muito maior do que as gerações anteriores, o que torna mais difícil manter sua atenção apenas por meio de aulas expositivas.

Por isso, a proposta defendida pelo reitor é colocar o aluno diante de situações que despertem curiosidade e exijam investigação. Em vez de simplesmente apresentar uma fórmula ou resposta, o professor pode criar um problema real e conduzir o estudante na busca por soluções. “Eu acho que a educação precisa remodelar a ponto de fazer as pessoas pensarem”, afirmou.

“O que interessa é a pergunta”

Uma das ideias centrais apresentadas por Carlos é que a educação do futuro deverá valorizar mais a capacidade de formular perguntas do que simplesmente memorizar respostas. O exemplo utilizado pelo reitor é o de um objeto aparentemente simples, como uma caneca. O aluno pode ser desafiado a pensar sobre material, formato, volume, finalidade e condições de utilização antes de chegar a uma solução.

Esse processo, segundo ele, estimula a curiosidade e leva o estudante a buscar conhecimento para resolver um problema concreto. “No fundo não é a resposta que interessa, é a pergunta”, afirmou. Para Ferreira, a capacidade de fazer as perguntas certas será ainda mais importante à medida que ferramentas de inteligência artificial passarem a fornecer respostas em poucos segundos.

Inteligência artificial não deve retirar o professor do centro da educação

A inteligência artificial já faz parte das discussões internas da SATC, mas Carlos afirma que a instituição ainda busca compreender qual será o impacto da tecnologia diretamente no processo educacional. Segundo ele, a prioridade atual está em utilizar IA para resolver problemas internos, enquanto a instituição avalia cuidadosamente como incorporar a ferramenta à sala de aula.

O reitor demonstra preocupação com modelos que possam utilizar a inteligência artificial para substituir o professor. Para ele, a tecnologia deve ser incorporada ao processo, mas sem eliminar a figura humana responsável pela condução da aprendizagem. “Eu não gostaria que o professor perdesse a posição que ele ocupa como adulto da relação de ensino, aprendizagem”, afirmou.

Metodologias ativas mudaram a relação com os alunos

Outra transformação citada pelo reitor é a adoção de metodologias ativas. Ele conta que conheceu experiências internacionais sobre o modelo e ficou impressionado com aulas nas quais os estudantes participavam constantemente de diferentes atividades, em vez de permanecerem apenas ouvindo o professor.

A implantação, porém, não aconteceu sem resistência. Segundo ele, inicialmente houve dificuldades para convencer parte dos professores sobre a mudança. Com o tempo, a estratégia passou a envolver os próprios docentes na construção das metodologias, permitindo que eles testassem propostas, avaliassem resultados e ajustassem o que não funcionava. Para o reitor, participar da construção aumenta a possibilidade de adesão à mudança.

Cursos técnicos continuam relevantes na era da inteligência artificial

Ao contrário da ideia de que a automação poderia tornar determinadas profissões desnecessárias, Ferreira acredita que os cursos técnicos continuarão tendo papel importante. A diferença estará no tipo de conhecimento exigido do profissional. Atividades operacionais poderão ser cada vez mais automatizadas, mas será necessário compreender os fundamentos para avaliar se aquilo que a tecnologia produziu está correto.

O reitor utilizou o exemplo dado por Mano Dal Ponte na programação de máquinas CNC. Segundo ele, tarefas que anteriormente exigiam domínio técnico específico já podem ser realizadas pela inteligência artificial em poucos segundos. Entretanto, alguém ainda precisa compreender o funcionamento do equipamento para identificar erros e validar o resultado. “Cada vez mais vai ter que aprofundar o fundamento”, afirmou.

O profissional do futuro será cada vez mais um “maestro”

Para Ferreira, a inteligência artificial tende a retirar das pessoas parte do trabalho operacional e aumentar a importância da capacidade de supervisão e decisão. O profissional deixa de executar determinadas tarefas diretamente e passa a coordenar ferramentas capazes de realizá-las.

O exemplo de uma ponte ajuda a explicar esse raciocínio. Uma inteligência artificial poderá, no futuro, receber parâmetros e gerar um projeto, mas será necessário que alguém conheça os fundamentos da engenharia para avaliar se aquela solução atende aos requisitos. Sem esse conhecimento, o profissional se transforma apenas em espectador do resultado produzido pela máquina.

Educação também precisa ser tratada como um negócio

Além da transformação pedagógica, Ferreira defende uma mudança na forma como instituições de ensino enxergam a gestão financeira. Segundo ele, preservar o propósito educacional não significa ignorar a necessidade de gerar resultados.

A SATC trabalha com equipamentos, laboratórios, computadores e softwares que precisam ser constantemente atualizados. O reitor cita, por exemplo, a necessidade de renovação periódica dos computadores e os custos de licenças de programas utilizados na formação dos alunos. “Nós temos que gerar resultado”, afirmou. Para ele, o resultado financeiro é justamente o que permite reinvestir na estrutura, na formação dos profissionais e na qualidade do ensino.

“Não tenho que saber de tudo”: autoconhecimento como ferramenta de gestão

Ao falar sobre sua própria trajetória, Ferreira afirma que uma das principais mudanças em sua forma de liderar foi entender que não precisa dominar todas as áreas. Durante determinado período, conta que se incomodava por não possuir conhecimentos aprofundados em contabilidade, até perceber que existem profissionais especializados para assumir essas funções.

Hoje, ele afirma investir principalmente em autoconhecimento. Para o reitor, compreender os próprios valores e os valores das pessoas que integram uma equipe ajuda a melhorar a comunicação e a tomada de decisões. “Quanto mais eu invisto no autoconhecimento meu e da minha equipe, mais eu me descubro como pessoa e mais eu consigo entender o que é valor para outras pessoas”, afirmou.

Pessoas certas nos lugares certos

O autoconhecimento também aparece na visão do reitor sobre gestão de pessoas. Para ele, uma das principais responsabilidades de um líder é identificar quais características são necessárias para cada função e encontrar profissionais compatíveis com elas.

O reitor cita diferentes perfis comportamentais para explicar que nem sempre o profissional tecnicamente mais preparado será a melhor escolha para determinada posição. Uma função que exige atenção rigorosa a regras, por exemplo, pode exigir características diferentes de uma atividade que demanda criatividade ou capacidade de relacionamento. “O maior feeling que você tem que ter, para mim, é saber colocar as pessoas certas nos lugares certos”, afirmou.

Uma instituição que precisa aprender junto com o mundo

Carlos também rejeita previsões definitivas sobre o futuro da educação. Para ele, experiências recentes demonstraram como determinadas certezas podem mudar rapidamente. A pandemia, por exemplo, levou muitos a acreditar que o trabalho remoto e determinadas formas digitais de educação seriam permanentes, mas o cenário posterior mostrou movimentos diferentes.

Por isso, prefere adotar uma postura de observação e adaptação. Em vez de afirmar exatamente para onde a educação irá, ele considera mais importante preparar a instituição para responder às mudanças. “Esses statements, essa verdade absoluta, instantânea, eu hoje já não acredito mais”, afirmou.

“Aprender não é descartável”

Ao longo da entrevista, Carlos Ferreira retorna a uma ideia que sintetiza sua visão sobre educação em um período de avanço acelerado da inteligência artificial: o conhecimento pode mudar, mas a capacidade de aprender permanece.

Para o reitor, a escola precisa preparar profissionais capazes de compreender fundamentos, questionar respostas, avaliar informações produzidas por máquinas e continuar desenvolvendo novas habilidades ao longo da vida. Em um cenário no qual a tecnologia passa a executar cada vez mais tarefas, a vantagem humana estará justamente na capacidade de interpretar, questionar e aprender continuamente. “Agora o aprender não, aprender não é descartável”, concluiu.

Mano Dal Ponte apresenta na Engeplus o uMANOs Talk Show

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