Canal Viagens: Caminho de Santiago de Compostela

Por

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Carlinhos Nunes
europlast@engeplus.com.br

Fiquei meu primeiro dia em Saint-Jean-Pied-de-Port num Camping, uma que era mais barato, e até porque os albergues estavam cheios. Estava fazendo minha credencial e entre o pessoal que faria o percurso a pé, fiquei escutando alguns comentários das dificuldades e das surpresas, principalmente das intempéries que poderiam surgir no caminho, ainda mais que a meteorologia previa chuva e frio.


San Piet de Port

Fui para o camping e próximo havia um telefone, onde aproveitei para dar notícias a minha família e pedir que rezassem para eu ter uma boa viagem. Fui dormir na barraca sob chuva fina, deixando-me um pouco apreensivo, sendo que logo ao amanhecer, sem chuva e ainda nublado, comecei então a subir os Pyrineus.

Uma montanha com uma inclinação quase impossível de subir, ainda mais com a bike e o peso da bagagem nos alforges, fazendo que a bike empinasse. Apesar do desgaste físico e do extremo cansaço, cheguei ao topo das montanhas. Uma vista belíssima, com picos cobertos de neve. Em virtude da época de primavera, as árvores já todas bem verdes e flores por todo lado, canto de pássaros e um som que soava como cantiga, do badalar dos sinos. Uma vista bela, avistando as vacas ao longe nas belas pastagens.

Nuvens abaixo de mim não deixavam que visse de onde vinham o badalar dos sinos. Segui a minha caminhada e passava pelos peregrinos que faziam o caminho a pé, na maioria aproximadamente 60% de pessoas acima dos 50 anos de idade. Pessoas maduras e com muito para ensinar do que para aprender. Fiquei admirado pela persistência e resistência dessas pessoas que pareciam flutuar ao invés de andar. Caminhavam calmamente sem se prender a nada, e sem qualquer pressa, sentavam, conversavam, comiam, rezavam e cantavam. Era tudo uma questão de torcer para que o tempo parasse por ali.


Depois do grande esforço da subida, pensava na compensação da descida. Porém, não foi bem assim. Pela umidade dos caminhos deixados pelos bosques, quase não conseguia frear a bike. Eram verdadeiras trilhas e um dow Hill, onde caí 3 vezes. Nesta descida, escorregava na maioria das vezes nas raízes das árvores. Em uma destas quedas, perdi o ciclo computador. Em outra queda, perdi o tripé que tirava minhas fotos, devido a estar só nesta aventura. Ele seria de grande utilidade. Assim, não conformado, larguei tudo e voltei para procurar, subindo 300 metros montanha acima. Pela trilha, não conseguia ver nada, e já me conformando de ter perdido o tripé da máquina fotográfica, avistei uma pequena entrada de raios de sol no meio das árvores, fazendo com que o brilho incidisse em um objeto muito brilhante. Isso foi algo realmente inusitado, mas este objeto era o próprio: o tripé. Parece bobagem, mas perder algo que sempre caminhou com você, auxiliando em todas as aventuras, torna-se parte integrante de seus utensílios.

Quando voltei, já não avistava mais minhas coisas. Como no meio daquela floresta já não tinha encontrado nada e ninguém, não fiquei tão preocupado de alguém ter levado. Mas descia cada vez mais e não encontrava nada, tanto que comecei a cismar com a demora em não encontrar nada. Foi me dando uma espécie de vazio no estômago e me perguntava “E se alguém levou mesmo? Como fico nessa história?”

Mais uns 50 metros adiante, avisto ela caída no chão, encostada numa árvore. Segui então entre galhos, raízes e folhas, chegando numa espécie de colchão de folhas. Era uma imagem diferente, pois parecia estar pedalando sobre um colchão d`água. Com o passar dos anos, a cada outono, cai todas as folhas das árvores, para então receber o inverno, onde a neve vai acumulando no caminho. Então, assim, as folhas que caíram formaram este prazer a parte, encontrado neste caminho.

Depois de muita descida forte, cheguei numa espécie de bacia, com uma clareira fechada por árvores. Ao olhar para frente, percebi várias opções de caminho, e ao mesmo tempo, várias dúvidas na opção de caminho. Senti um vazio e percebi que estava perdido. Encostei a bike em uma árvore para tê-la como referência na minha procura pela saída. Comecei a andar em roda, procurando algum sinal para tomar o caminho certo, pois uma vez que descesse, não mais conseguiria voltar com a bike. Era um terreno muito úmido e inclinado, foi então quando vi um sinal amarelo numa árvore, e fui me aproximando. Se tratava de uma flecha amarela indicando um caminho. Longo pensei “Acho que estou salvo”. Continuei seguindo, até chegar em Roncesvalles, já em terras Espanholas.

Pedalei mais uns 35 Km até chegar em Zubiri, onde encontrei um albergue municipal. Estava louco por um banho quente e comer alguma coisa. Para ficar nesse albergue, se paga 5 euros e tinha ainda uma cozinha, para quem tivesse um pouco de energia sobrando, afim de cozinhar alguma coisa. Com a bike, apesar do cansaço sempre sobrava um pouco de energia para circular pela cidade e ir ao mercado, pois fica bem econômico fazer as compras e preparar no albergue.

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Nesse albergue, estávamos no fim da noite, ou seja 21:00 hs, com mais ou menos 80 pessoas de todos os tipos, raças, crenças, de todas as partes do mundo, e ficava pensando como este mundo é pequeno mesmo. Sei que seria muito difícil de reencontrar algumas delas em outra oportunidade, mas procurava tirar delas o máximo de informações sobre sua filosofia de vida, mesmo porque na sua maioria, pessoas com grande experiência de vida, pelo cansaço em que elas chegavam no albergue, algumas não conseguiam nem se alimentar direito. Outras tomavam maior parte de seu tempo cuidando das bolhas dos pés, que por sinal, não eram poucas.

Na porta do albergue tinha uma placa solicitando para que deixassem os sapatos no lado de fora do quarto, pois depois de um dia de sol e chuva, os calçados cheiravam muito mal (chulé). Mas o maior problema ainda era os que roncavam. Parecia uma orquestra “roncônica”, e como a maioria dos roncadores dormia muito cedo, os mais atrasados demoravam para conseguir dormir devido ao barulho. Levantei as 6:30hs, mas já tinha ouvido barulho de pessoas indo para estrada 5:00 da manhã. Fiz um lanche reforçado e fui para estrada. O tempo estava bem nublado, após pedalar por um 15 minutos, começou a chover. Parei embaixo de uma espécie de estrebaria e coloquei minha capa. Isolei os pés e os alforges, segui então até Pamplona. Visitei a cidade debaixo, sob uma garoa. Passei por um grande estádio pensando se tratar de um estádio de futebol, mas era uma arena de touradas, muito popular por lá.

Estava circulando quando vejo dois ciclistas, que parados numa esquina,
balançavam a cabeça como quem estava perdido. Fui ao encontro deles e perguntei se precisavam de ajuda. Falaram que sim, estavam com problemas para sair da cidade. Tinham um mapa bem detalhado mas não conseguiam se comunicar como os espanhóis para pedir alguma informação, e foi onde eu disse que poderia ajudar tranqüilamente. Abordei uma senhora que prontamente me mostrou o caminho, e assim, reportei a mesma informação para eles em inglês. Com um sorriso me perguntaram sobre o meu mapa, do caminho para ciclista. Falei que não tinha, sendo que o único que tinha, é mesmo dos que fazem a pé. Me chamaram de louco e perguntaram se eu gostaria de seguir com eles. Sem pensar duas vezes, falei que sim. Um deles falou “Você nos ajuda com a língua e nós com o mapa”.


Carlinho, Gerard e Lawrense

Se tratava de dois Holandeses, Lawrense um médico ortopedista de 52 anos e seu irmão mais velho Gerard de 65 anos. O mais velho, morava na Califórnia USA e o outro na Holanda, que se encontraram na Espanha para fazer o caminho juntos. Apesar da idade, pedalavam muito forte e tinham um equipamento na bike de primeiro mundo. Era bem engraçado quando chegávamos nos albergue, eles com um simples toque retiravam seus asforges impermeáveis e levavam para o quarto, enquanto eu tinha que tirar de dentro dos aslforges minhas roupas que estavam dentro de sacos. Eu saí com umas 4 bolsas na mão, e as vezes, com roupa úmida da chuva do caminho. Apesar da quantidade de bolsas, tinha pouca roupa, a toalha de banho que na verdade era de rosto, tinha um par de sapatos, que mais era uma botina, a qual tinha que ficar protegendo da chuva. O problema era, se molhasse esta botina, no outro dia já sairia com os pés cheios d’agua. Tinha também uma calça para entrar nas igrejas, pois algumas eram obrigatório o uso , uma jaqueta que tinha recebido de uma senhora na Itália. Esta mesmo, foi a minha salvação, pois era bem quentinha, com um tecido parecido com um slive de surfista. No restante das roupas, 6 pares de meias e cuecas, algumas camisetas e duas bermudas de ciclista, pois como chovia muito no caminho e a roupa não secava, então não lavava tudo. Costumava usar e depois reciclava as que estavam pouco sujas. O maior problema, era a toalha que não secava. Então geralmente levava encima das mochilas para dar uma secada. Carregava comigo o mínimo necessário, pois qualquer peso a mais, no fim do dia se transformava numa tonelada. Fazia em média 90 km por dia, passando por dois ou três albergues no dia. Eles ficavam num espaço médio de 30 km.

Chegamos a Viena, uma cidadezinha no caminho. Observamos uma grande movimentação no lugar que se tratava de uma festa e um casamento. Procuramos então um lugar no albergue que por sorte, estava lotado. Em hotéis, a mesma coisa. Não haviam campings na cidade. Gerard entrou em um hotel com um padrão muito acima dos que a gente vinha ficando e me chamou para perguntar se tinha um quarto. Só havia um quarto e era um quarto de núpcias. Bem, comecei a rir e ele me indagou logo “o que foi Carlos?”. “Nós ficamos com ele e diga que precisamos de uma cama reserva” disse ao atendente. No andamento da conversa, perguntei quanto custaria. O recepcionista prontamente disse 145.00 euros. Comentei para Gerard do preço e rapidamente disse que era sem problemas, talvez não para eles, mas para mim sim, pois sairia muito do meu orçamento. Depois de um bom banho, saímos para conhecer a cidade, agora a pé. Encontramos um grupo de brasileiros, apresentando com um tipo de dança, que misturava capoeira com carnaval. Muito animados, era um grupo que fazia shows pela Espanha. Eles moravam em Madri. Depois fomos jantar uma paelha com uma sopa de entrada, mas o engraçado foi à sobremesa. Eu havia pedido um pudin de leite e os Holandeses frutas frescas. Chega o garçom com uma fatia de pudim, até que não estava mal. Veio também com as frutas frescas que era uma laranja num prato com uma faca para descascar. Eles olharam para mim com uma cara de surpresa e completaram o silêncio “bem vivendo e aprendendo”.

Na manhã seguinte depois de um café bem reforçado, Lawrence falou assim “já tomou seu café?” e repondi “opa, sim”. Ele então falou “olha! Tome outro igual pois hoje o caminho vai ser bem pesado”. Assim o fiz, repetindo o café. Saí até meio pesado demais para pedalar. Dito e feito, o dia amanhecera chovendo muito e mesmo assim, procuremos nos proteger na medida do possível, indo embora 8:00hs da manhã por caminhos de asfalto e barro.


Moderna proteção para sapatos:
pequena bolsa plástica amarrada no pé,
muito importante contra barro e água.

Fomos em uma das estradas de barro sob forte chuva, quando furou o pneu da minha bike.


Remendo expresso
direto da Holanda.

Imediatamente virei ela com os pneus para cima, peguei o material para concerto e muito rápido já estava pronto para seguir em frente, pois não queria atrapalhar a viagem de todos. Gerard até comentou “que prática, hein?!!”. Andamos mais 300 metros e o pneu furou novamente, desta vez, com um estouro ainda maior que o anterior. Procurei para ver o que tinha acontecido e o pânico estava crescendo. O pneu havia se rasgado no colarinho do aro, pensei “e agora, que faço?”. Não havia pneu reserva, somente câmara. Não contava com esta possibilidade de uma seqüência de furos. Rapidamente pensei em algo alternativo para poder andar, uma vez que a próxima parada faltavam ainda cerca de 25 km. Fiz o remendo no pneu e coloquei um pedaço de câmera por dentro e outro por fora amarrando a câmara de ar ao aro. Saí pulando, com um remendo muito alto e o pneu com pouca calibragem, ficou tudo muito pesado, mas foi assim que segui os próximos 25 km, até chegar à próxima cidade, San Domingos. Ficamos em um albergue, onde tinha uma cozinha bem montada. Saímos dali, depois de um bom banho sob uma chuva fina, para comprar ingredientes para uma bela macarronada. Cozinhei para 13 peregrinos e com isto foram se chegando. Vinho, queijo e outras guloseimas, constituíam uma pequena festa. Para quem vinha comendo bocadilhos , pelo caminho que eram os sanduíches de pão de trigo com presunto e queijo que já era uma delícia, uma macarronada caiu como uma luva para o estômago. Esses bocadilhos, foi o que mais me chamou atenção na Espanha. No mesmo dia ainda, fui visitar uma igreja com o nome do lugar. Fiquei pasmo ao ver que dentro da igreja havia uma espécie de galinheiro com umas 3 galinhas de verdade dentro. Ficavam bem no alto como num altar e fiquei sabendo, se você entrasse e elas cantassem, você chegaria ao fim do caminho. Tomei um pouco de tempo esperando que elas cantassem mais isto não aconteceu. Não me preocupei com isto, pois tinha muita esperança e determinação para chegar até o fim. Saímos como sempre cedo, com as estradas úmidas demais devido à forte chuva na noite anterior.

Nossa meta era chegar a Burgos, pedalando em media 100 km. Após um dia exaustivo chegamos em Burgos. Uma cidade bem grande e como toda grande cidade, muita coisa para conhecer. Com o passar dos dias na Espanha, estava me acostumando com os hábitos e costumes deles, dentre tudo, o que me chamava mais atenção, era quando entrávamos em algum mercado ou padaria. Nada podia ser tocado e davam uma bronca se pegasse na mão uma laranja ou um pão. Eles não aceitam que as pessoas toquem nos produtos, você tinha que apontar para a fruta ou verdura ou pão que desejasse, que eles pegavam. Ganhei umas 3 broncas por conta disto. O inverso disto, o jeito despreocupado e até relaxado com a limpeza dos ambientes, como fumar em restaurantes fechados e jogar tudo no chão como ponta de cigarros, papel, farelos de comida. O chão dos bares e restaurantes era um absurdo de sujeira e para eles bem normal. Tudo o que serviam nos restaurantes, sempre havia junto a mesa pão. Em Burgos o prato mais famoso são as “morcilhas de burgos”. Passamos também por El Burgo, para fazer um lanche. Paramos numa lanchonete e o atendente perguntou o que iríamos querer. Junto de nós, estava um ciclista Espanhol que parou nesta mesma lanchonete e ficou na nossa mesa. Olhei o cardápio e li em voz alta, para todos da mesa, “mursella a Burgos” e o espanhol logo disse, “pode pedir, isto é uma delicia” e solicitou um para ele. Bem, fui atrás e fiz o mesmo pedido. Gerard solicitou Bocadilho com queijo e Lawrence, analisou bem e solicitou bocadilho burgos. O primeiro a ser servido pela ordem foi eu. Fiquei surpreso e assustado com o prato, pois eram dois ovos mal passados, duas fatias de morsilha e pão.

Não esperava que fosse a nossa morsilha do Brasil até porque pedalar com ovos mal passados, não seria uma boa idéia. Foi então que Laurence esticou o pescoço para ver o que era aquilo, com um cheiro forte como só a morsilha tem, com um ar de sorriso sarcástico, olhou para mim com o dedo no nariz e perguntou admirado “você vai comer isto aí, afinal o que e isto?!”. Prontamente falei que isto é sangue de porco cozido com arroz. Morcilha com arroz nunca tinha visto, já havia experimentado, mas sem arroz e bem temperada. Ele fez cara de não acreditar mais deixa estar que seu lanche ainda estava por vir. Para sua triste surpresa, o seu pedido eram 5 fatias de morsilha dentro de um pão. Ele olhava mas não acreditava. Imediatamente tirou as morsilhas e perguntou se eu queria.


Lawrense com cara de sério,
com panca de quem comeu e não gostou.

Disse para colocar em meu prato pois nessa altura seria loucura jogar comida fora. Fui solidário com ele e dei um dos ovos que estavam no meu prato, o qual aceitou imediatamente. Reparti um pouco da morcilha com o Espanhol e seguimos viagem.

Acordamos com um dia de verão, depois de muita chuva e uma temperatura baixa para a época. Nosso caminho ficara mais leve com poucas montanhas e o vento ainda estava a favor, o que ajuda bastante.

De Burgos a Carrion eram mais 110 km, nossa meta para o dia e seguimos viagem, entre campos de trigo, que se perdiam de vista ao horizonte, a temperatura amena na casa dos 18 graus, mesmo assim, o dia seria quente, perto do meio dia chegou aos 29 graus. Sorte que o caminho era mais leve, pois o sol judiara demais, mesmo passando protetor solar ainda sentíamos o vapor do asfalto e das térmicas entre os campos assarem nosso rosto. Gerrard com olhos claros e pele clara, jogava água com freqüência em seu rosto e não tinha água que chegasse para hidratação. Quando conseguíamos água fresca era por pouco tempo. A temperatura fazia tudo ferver muito rápido e quando achávamos uma sombra, ficávamos por alguns minutos para se refrescar e tomar um fôlego.

Nossa meta ainda não estava muito perto passamos um trecho longo sem ter encontrado qualquer lugar para comer ou mesmo para beber água. Estávamos ficando sem água. Meu medo seria, com tudo isto ainda tomar um caminho errado. Após quase 35 km sem encontrar nada, exceto campos e planícies, estávamos sobre um asfalto escaldante e quando levantava a cabeça, via a frente o caminho fechar, pois parecia não ter fim com retas quilométricas.

Cansava só de ver até chegarmos a Carrion. Uma cidade pequena, com um albergue bem confortável. Chegamos extremamente cansados. Não tinha fome pois tinha bebido toda a água possível, o que deixava até meio enjoado. Ficamos programando nossa viagem para o dia seguinte. Nossa meta Leon são 98 km. Depois de um dia exaustivo, ficar programando mais 100 km, parecia loucura. Mas vamos lá. Ao analisar o mapa, vi que seria um dia bom de pedal, com poucas montanhas. Saímos cedo, como sempre e um belo dia prometia pois o sol já dava sua graça. Carimbamos nossa credencial e saímos rumo a Leon. Saindo da cidade, começamos a encontrar os peregrinos que saíram mais cedo do albergue. Como sempre, desejando-os um bom “camiño”, era uma saudação onde todos entediam. O caminho como sempre belo em meio a campos verdes. Depois de 45 km, paramos para fazer um lanche com o tradicional bocadilho. Puxei assunto com um nativo da região que foi muito atencioso. Gerrard tentava alguma comunicação mais não tinha sucesso. Aprendera a dizer “café com poco lete e um bocadillo de quesso”. Bem, não estava mal, pelo menos não passava fome. Após o lanche, ainda tínhamos 50 km pela frente. O corpo já estava se acostumando com aquela maratona diária e os 100 km, estavam se transformando em 70km. Na verdade, estava aumentando a resistência física. Ao mesmo tempo via que algumas roupas estavam ficando largas e não fiz questão de conferir o meu peso para não ficar preocupado. Chegamos em Leon, outra bela e grande cidade. Ficamos em um hotel simples, desta vez bem no centro de Leon, como tudo era muito simples, até que ficara bem.


Cidade de Leon

Saímos para jantar numa pizzaria. A janta estava ótima com ar de cidade Italiana, com bom vinho e sorvete como sobremesa. Após dar um passeio noturno pela cidade, voltamos para o Hotel, pois amanhã, teríamos um longo dia novamente. Nosso destino era chegar até próximo a Cruz de Ferro. Saímos cedo sem café, pois o hotel não tinha esta opção. Com caminhos um pouco mais duros, mas com a compensação das árvores frutíferas como laranjas, cerejas e ameixas. Por uma boa parte do caminho faríamos uma colheita rápida. As árvores ficavam praticamente no meio do caminho e era só levantar os braços e colher. As cerejas mesmo, eram muito doces e bem grandes, uma delicia.

Chegamos em Astorga. Uma Catedral riquíssima em detalhes e o Castelo de Gaudi bem perto eram destaques. Circulamos toda cidade, vigiados pelos olhos atentos dos curiosos, uma vez que sempre saíamos da rota dos peregrinos pela facilidade de circular com a bike. Fazia um pouco de frio neste dia quando começamos a subir a montanha que teria como destino Cruz de Ferro numa altitude de 1600 metros. Meu Deus, esta subida não tinha mais fim. Já não tinha mais onde buscar fôlego até que chegamos ao topo da montanha. Encontramos uma espécie de pensão hotel com bar, cama e banho, tudo de pedra. Um visual da montanha muito interessante. A temperatura baixava cada vez mais. Depois do banho, descemos para o restaurante onde serviam a entrada principal e sobremesa. Uma sopa bem quente de couve flor e outros legumes. Estava uma delicia, ainda mais com aquele frio. Tentei dar uma volta na vizinhança do hotel, mas com o frio estava terrível e decidi não ir, ainda mais com um vento que cortava. Só ficava pensando no dia seguinte e que teríamos que subir mais uns 200 metros até Cruz de Ferro.

Saímos um pouco mais tarde devido a forte neblina, vento moderado com um frio de cortar. Depois de um café reforçado, começamos o dia já subindo até topo da montanha a Cruz de Ferro.


Cruz de Ferro

Ela é nomeada assim com o nome do topo numa cruz de ferro, onde os peregrinos levam de sua cidade natal, uma pedra, que simboliza sua cidade. Deposita-se a pedra lá, aos arredores da cruz de ferro, local este que já tem uma pequena montanha de pedras. Ao chegarmos à cruz de ferro, cumpri o ritual, apesar de não ter levado uma pedra de carvão da nossa cidade. Coletei uma no caminho e fiz o depósito da mesma no alto da cruz. Naquele momento, apareceu um céu azul de brigadeiro. Ficou tudo bem claro e limpo. Aquela neblina se foi sumindo, por alguns minutos. Depois de uns 3 km, já não sentia mais minhas mãos. Estavam quase congeladas, tanto que não conseguia mais frear a bike morro abaixo. Pegava uma velocidade fora do normal e não conseguia força suficiente os freios, tanto que usei os sapatos na roda para frear. Cheguei lá embaixo, agora já em Ponferrada. Vi que ficara uma listra debaixo da minha bota, devido ao break. Então paramos em uma lanchonete para tomar alguma coisa quente. Como eu não gosto de café, tomava sempre um chocolate quente. Seguimos viagem até vila franca, onde já completara 50 kms, mas o dia tinha ainda uma grande surpresa e bem grande que se chama Cebreiro, altitude de 1500 metros e sabia que novamente o frio iria nos pegar.


Cidade de Pedra

Aos pés do Cebreiro não parecia tão difícil, mais durante o caminho, parecia que não tinha mais fim. Aos 1300 metros, já com muita cerração e frio de congelar, com temperatura na casa dos 3ºC, o esforço físico, mesmo com o frio suávamos muito. Faltando 300 metros para chegarmos na próxima parada, começou então uma chuva, que parecia dizer “duvido vocês continuarem agora”. Ficou tudo mais pesado e gelado. Não desistimos em nenhum momento, mesmo porque não dava mais para desistir. Através da chuva e das nuvens, começamos a ver uma vila que parecia uma cidade fantasma, toda de pedra. Paramos a bike e fomos ver se havia lugar em alguma posada. Laurenci ficou cuidando da bike, eu e Gerrard fomos procurar. Na primeira que paramos, já com dificuldades ate de falar, uma senhora prontamente falou que estavam lotados. Ficamos em pânico naquele momento pois não tínhamos mais onde procurar. Subimos por uma escadaria e demos de cara com uma vila inteira, toda de pedra, desde o chão, paredes e teto das casas. Tivemos ali mais algumas opções de hospedagem. Uma senhora nos atendeu e disse que teria quarto para três. Prontamente pegamos nossas bagagens e tomamos um banho quente. Tinha um restaurante debaixo do hotel com uma cantina. Uma comida bem gostosa. Encontrei um telefone e liguei para minha esposa. Ela me acompanhava num mapa em casa. Meu filho no fundo falava que tinha bastante morro, visto pelo google erth. Chamei Laurenci e Gerrard para falarem com minha esposa que desejou-nos good luck (boa Sorte). Após a janta circulamos entorno daquela vila e víamos muitos peregrinos chegando debaixo de chuva e bem cansados.

Nosso destino, 80 km até Ventas de Naron. Mas ainda tínhamos como refresco, descer o Cebreiro. As pastilhas de freio de minha bike estavam quase em nada e não tinha nenhum local para trocá-las. Ao olhar o mapa, fiquei preocupado, pois seria uma descida bem forte. Pensei, seja o que Deus quiser. Qualquer coisa meto a bota nos pneus, pois já haviam funcionado na descida da Cruz de Ferro. Saímos bem cedo com uma temperatura entorno dos 5ºC, sem vento e céu parcialmente claro. Pela altitude, passavam com freqüências nuvens que cobriam todo o caminho, hora sol, hora uma neblina muito densa. Quanto mais descia, sentia melhorar a respiração e aumentar a temperatura do corpo. Em Tricastelo, depois de descer 700 metros de altitude, estávamos a 1600 metros, o céu se abriu e a temperatura já estava em 18 graus, excelente para pedalar prometia ser um ótimo dia. Paramos no meio da pequena cidade para comer um bocadilho, notávamos que circulavam por ali somente pessoas idosas acima dos 70 anos e isto se repetia por muitos lugares que passamos pelos caminhos do interior da Espanha. Chegamos a conclusão que os jovens procuram as grandes cidades para estudar e acabam ficando por lá, deixando para trás as raízes de sua historia.

Seguimos caminho, pois faltavam ainda uns 40 km, entre várias subidas e conseqüentemente, descidas, seguíamos nosso caminho. Ao chegar em Portomarin, nos abastecemos com muita água e alguns suprimentos energéticos, pois teríamos mais uma montanha pela frente para terminar o dia. Por fim, qualquer morrinho se transformava numa serra. Estávamos a 300 metros de altura, deveríamos subir aos quase 800 metros. Aja fôlego para tanto, mais ao cair da tarde chegamos ao nosso destino do dia.

Próxima tarefa era chegar a Santiago, e para isso, teremos para amanhã 100 km que será bem puxado. Mas o que dá um alivio é que no mapa mostravam muitas descidas.

Nosso último dia de viagem juntos, já estava pensando como seriam os próximos dias, sozinho novamente. Partimos em direção a Santiago, encontramos uma placa que dizia faltar 70 km no caminho dos peregrinos que faziam o caminho a pé. Na verdade, para nós faltaria 90 km e já tínhamos andado uns 30 km. Seria um dia longo, nesses últimos 100 km. A paisagem já mudou bastante, passando de plantações para árvores, principalmente eucaliptos que deixavam um cheiro de natureza bem viva no caminho. Por um momento pensávamos estar perdidos pois não conseguimos conciliar o mapa com o caminho. Cheguei a pensar “será que vamos nos perder, logo nos finalmente?”, até surgir uma placa mostrando o caminho para Santiago de Compostela, mais uns 10 km à frente, encontramos uma placa que dizia que o nosso destino à cidade, estava sobre nossos pés.

Agora faltava muito pouco. Atravessamos uma pequena ponte e em seguida nos deparamos com uma subida íngrime de poucos metros. Ao chegar ao topo, já estávamos vendo as cúpulas da Catedral. Guiados pela aquela imagem, chegamos até a praça de Santiago. Uma arquitetura belíssima, com incríveis detalhes, repleta de peregrinos e alguns ciclistas. Andamos pela praça e preenchemos nossa credencial Compostelana, que nada mais era, que um certificado de conclusão do Caminho. Fiquei surpreso ao ver o meu nome escrito diferente no certificado e perguntei o que tinha acontecido.

A atendente me falou que o meu nome em Latim é assim, e que o certificado é todo em Latim.

Saímos para conhecer o resto da cidade e procurar um hotel. Em virtude de ser uma cidade muito turística, não foi difícil encontrar qualquer hotel disponível, então ficamos no centro da cidade. Após tomarmos um banho, assistimos uma missa na Catedral da cidade, que surpreendia tanto por fora quanto por dentro, simplesmente sem palavras para relatar tamanha beleza, dando espaço para o silêncio, orações e agradecimentos. Ao amanhecer, Laurence e Gerrard já estavam com as malas prontas para a viagem com destino ao aeroporto de Santiago. Foi emocionante, talvez nunca mais os veria, dando um último abraço e desejei que Deus os acompanhasse o resto do seu caminho. Estavam agora, a caminho à Holanda.

Segui pela cidade sem rumo, praticamente perdido. Parecia que me tiraram da tomada e resolvi voltar a Catedral, onde rezei e comecei a refletir um pouco sobre a viagem, sobre o caminho ainda a ser percorrido, chegando-se a conclusão de que na vida não precisa muito para ser feliz e que quanto maior sua mochila, mais problemas vai ter para carregá-la. Uma grande lição é que devemos “ser mais do que ter”. As pessoas deixam pelo caminho o que realmente não necessitam, considerando como um peso extra. Refleti então sobre meus próximos caminhos.

Almocei ainda em Santiago e procurei uma estação de trem com destino para Vigo ainda na Espanha.

No próximo capitulo Portugal e seus encantos.

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