Canal Viagens: o alternativo San Telmo

Por Texto/fotos/vídeo: Lene De Costa - lenedecosta@engeplus.com.br

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Canal Viagens: o alternativo San Telmo

Uma das experiências mais marcantes que se pode trazer de uma viagem à Buenos Aires é a visita ao bairro de San Telmo.

No início da colonização da cidade, as famílias mais abastadas se instalaram no bairro, mas abandonaram o local em 1871 quando uma epidemia de febre amarela invadiu a região.

As grandes mansões se transformaram, então, no que os portenhos chamam de conventillos, cortiços nos quais várias famílias imigrantes dividiam cômodos de uma mesma casa. Dedicados ao artesanato e ao comércio, foram estes imigrantes que deram origem ao vuco-vuco que vemos hoje pelas ruas.

Atualmente muitas das estruturas são tombadas pelo patrimônio histórico e abrigam antiquários, ateliers, cafés, restaurantes e hotéis. Durante a semana, uma vizinhança pouco agitada, mas é aos domingos que San Telmo exibe toda a sua diversidade.

Plaza Dorrego
Na Plaza Dorrego e quadras próximas é montada uma infinidade de barracas com os mais variados produtos. As ruas viram uma grande festa popular, tomadas por vendedores que dividem espaço com artistas em busca de alguns Pesos dos milhares de turistas que circulam por ali. Bandas imprimem seus ritmos, estátuas-vivas mudam de posição para os cliques, personagens caricatos se oferecem para fotos.

As ruas estão cheias e de repente os turistas se espremem na calçada para abrir alas para o desfile de um grupo fazendo um batuque, algo semelhante ao nosso Olodum. E há lugar para todo tipo de manifestação. Presenciei uma cena que mostra bem isso: oito jovens vestidos de túnicas brancas, com velas na cabeça, aparecem e dão início a uma procissão cantando Santa Luzia, até que encontram o batuque. Abafados pelo estardalhaço dos tambores, sobem na calçada e param o canto até o batuque passar, e depois se enfileram novamente continuando a procissão religiosa.

Também está em San Telmo a estátua da menininha mais famosa da Argentina, a Mafalda. Escrita e desenhada pelo cartunista argentino Quino, a personagem ficou conhecida nos anos 60 e 70 por suas tiras nas quais refletia sobre o mundo e até hoje estampa uma série de souvenirs do país.

Noites dedicadas ao tango
No início da noite, depois que a Feira de San Telmo se encerra, a Plaza Dorrego passa a respirar tango. Para quem acha que a dança é restrita às casas de show para turistas, surpresa: os portenhos realmente amam o tango e se reúnem em San Telmo para manter viva esta tradição. O chão do centro da praça é coberto com uma lona e vira palco. Ao redor, dezenas de pessoas estão prontas para uma dança.

Tanto os jovens quanto os senhores de mais de 70 anos (estes muito bem vestidos para a ocasião) convidam as mulheres para deslizar pelo improvisado salão, conservando costumes como, ao final da música, devolver a dama ao ponto onde foi tirada para dançar. Gerações se misturam, estilos se misturam e para nós que até então só víamos o tango pela televisão, o espetáculo da vida real é fascinante.

Como hospedagem e escola da viagem de imersão da Unesc eram em San Telmo, tive oportunidade de passar toda a semana no bairro. Para quem não tem um domingo na agenda durante uma viagem, uma pequena amostra pode ser conferida a qualquer dia da semana no Mercado San Telmo, formado por antiquários, artesanato, barracas de frutas e produtos típicos. Mas se você não estiver interessado nos alimentos e não for um colecionador, não espere muito do Mercado. É mais indicado para visitação do que propriamente para compras. O grande lance é sentir ali um pouco da alma de San Temo. Mas nada, nada se compara a um domingo por lá...


No próximo capítulo: De catamaram no Delta do Tigre.
Hasta!

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