Cobertura ou bola nas costas

Por ivan.bento@engeplus.com.br

Em

A palavra inglesa cover significa cobertura, abrigo, mas no terreno musical, além de ser uma versão diferente de uma música feita por outra pessoa pode, em alguns casos, ser uma verdadeira bola nas costas.

Além da febre de discos e shows tributos pífios que invadiram a cena nos últimos anos, quando a gente pensa que está tudo perdido, eis que aparece sempre algo pior.

Lembro rapidamente de um insípido disco em homenagem ao Led Zeppelin nos anos 90, que tinha versões altamente burocráticas, ou então do pobre David Bowie, um dandy da música na minha opinião, que foi assombrado por versões nacionais de Nenhum de Nós (“Starman” virou “estar lá”) e Seu Jorge (“Rebel Rebel” virou “zero a zero”). Sem comentários.

Pra não dizer que não gosto de covers (na verdade eu adoro), me vem à cabeça, neste fim de tarde ensolarado, algumas que me parecem supimpas:

Racionais - Jorge da Capadócia
A pérola de Jorge Ben (jor), que havia sido assassinada pela tal Fernanda Abreu, ressurge das cinzas pelas mãos de Mano Brown & Cia. A partir da batida sampleada de Isaac Hayes (Ike’s Rap, a mesma de Glory Box do Portishead), os Racionais fazem uma versão de quem sabe das coisas, à altura do clássico original.

Ian Brown – Thriller
O hit de Michael Jackson ganha contornos introspectivos e batidas hipnóticas, além de um refrão etéreo de arrepiar.

Cure – World in My Eyes
Se a música do Depeche Mode já era boa, aqui o Cure faz uma versão diferente, com a sua cara e bacana tanto quanto.

Red Hot Chilli Peppers - Higher Ground
O funk/soul de Stevie Wonder ganha versão pesada e empolgante. Do tempo (1989) em que os Chilli Peppers faziam um som poderoso e não tinham virado uma banda de colégio.

Smashing Pumpkins – A Night Like This
Versão com arranjo de cordas e guitarras levemente dedilhadas da linda música do Cure. Ficou linda também.

Smashing Pumpkins – Never Let Me Down Again
Cover intimista do Depeche Mode. Bacana, mas não chega aos pés do petardo original.

Cat Power – Wonderwall
Num programa de rádio a gata Chan Marshall faz a gente ir às lágrimas com esta versão minimalista do Oasis. Melancolia em estado bruto.

Cowboys Junkies – Seventeen Seconds
Mais lenta que a original do Cure, os Junkies cantam entre gemidos e sussurros regados a bourbon.

Bauhaus - Ziggy Stardust
Um Bowie à altura da sua história. Peter Murphy queria ser o camaleão. E foi.

Faith No More - Glory Box
O lindo hit do Portishead é tocado ao vivo e Mike Patton solta os pulmões para dizer "Me dê uma razão pra te amar, eu apenas gostaria de ser uma mulher". Imperdível.

Ivan Bento, editor do Blog 15 Minutos (http://15-minutos.blogspot.com/).

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