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Da Cecrisa à Acentra: Dic Freire relembra trajetória na indústria, inovação e cooperativismo

Mano Dal Ponte recebeu Dic Freire no uMANOs Talk Show Engeplus

Por Mano Dal Ponte26 de agosto de 2026 8 min de leitura
Daniel Vieira / Triplice Filmes

A história profissional de Dic Freire se mistura com alguns dos principais capítulos do desenvolvimento industrial de Criciúma. Engenheiro mecânico formado pela Universidade de Brasília, ele começou a trabalhar na Cecrisa ainda durante a graduação, em Anápolis, Goiás, e chegou a Criciúma em 1982. Desde então, construiu uma trajetória marcada pela indústria cerâmica, pela inovação, pela gestão de pessoas e, posteriormente, pelo cooperativismo.

O entrevistado revisitou momentos importantes de sua carreira e falou sobre a aquisição da Cesaca, a construção da Portinari, a evolução tecnológica da indústria cerâmica, a transformação da antiga Cecrisacred em Acentra e sua visão sobre o futuro de Santa Catarina e do Brasil.

Mano Dal Ponte recebeu Dic Freire, presidente do conselho da Acentra, no uMANOs Talk Show Engeplus.

Confira a entrevista completa no Youtube:

Uma vida dedicada à Cecrisa e à transformação da indústria cerâmica

Dic chegou à Cecrisa quando ainda cursava Engenharia Mecânica. Inicialmente, trabalhou na unidade de Anápolis e, posteriormente, veio para Criciúma, onde passou a participar diretamente dos projetos de engenharia e expansão da empresa. Foram 33 anos de atuação na Cecrisa, período em que acompanhou uma transformação profunda do setor.

Um dos grandes capítulos foi a chegada do porcelanato. Segundo Freire, a indústria brasileira passou de formatos relativamente pequenos para peças cada vez maiores, chegando atualmente aos chamados grandes formatos, que podem alcançar dimensões de 1,80 metro por 3,60 metros.

A evolução tecnológica também modificou a aparência dos produtos. Hoje, segundo ele, a impressão digital permite reproduzir com grande fidelidade materiais como pedras, metais e outros elementos naturais. A transformação também reduziu problemas históricos da produção. Freire lembra que, no passado, as perdas na indústria eram muito maiores.

Após deixar a Cecrisa, em 2013, Dic Freire também passou a investir em novos negócios. Um deles surgiu de uma conversa com um amigo e deu origem à importadora de vinhos. O projeto começou com vinhos e azeites da Espanha, escolhidos diretamente com produtores e vinícolas, e ganhou espaço com a seleção de rótulos de diferentes regiões. Atualmente, a operação trabalha com aproximadamente 200 rótulos, provenientes de países como França, Itália, Espanha, Portugal, Argentina e Chile.

Segundo Dic, a proposta não é simplesmente importar vinhos, mas encontrar produtos que atendam às necessidades específicas de cada cliente. Ele cita como exemplo uma rede de supermercados que poderia solicitar um vinho português do Alentejo dentro de determinada faixa de preço. A partir dessa demanda, a empresa busca o produto adequado. A operação mantém estoque próprio, realiza entregas conforme a demanda e também conta com comércio eletrônico. O empresário destaca ainda que a escolha dos rótulos exige degustação e pesquisa constante, já que a qualidade do produto é fundamental para a relação com os clientes.

Cesaca e Portinari: dois capítulos importantes da carreira

Entre os momentos marcantes da trajetória de Freire está a aquisição da Cesaca pela Cecrisa, ocorrida na década de 1980. Além do desafio relacionado à gestão e à operação da unidade, havia uma questão importante: a localização da fábrica, em uma área central de Criciúma.

O processo industrial provocava impactos como ruídos e partículas provenientes da produção. Outro problema citado por Freire era a antiga geração de gás utilizada para alimentar os fornos, que também provocava forte odor.

Pouco depois da aquisição, veio outro grande desafio profissional.

Freire foi chamado pelo então empresário Manoel Dilor de Freitas para coordenar a equipe responsável pela construção da Portinari. Ele acompanhou o projeto desde o início até os primeiros meses de produção.

“Foi um trabalho belíssimo”, resumiu.

Para Freire, o resultado da Cecrisa não pode ser atribuído a uma única pessoa. O engenheiro prefere falar em uma combinação de profissionais, equipes, tecnologia, planejamento e circunstâncias históricas.

“Eu era um integrante dessa equipe”, afirmou ao lembrar sua participação na construção da empresa.

Tecnologia, China e a busca constante por inovação

A inovação foi uma constante na carreira do engenheiro. Durante anos, ele participou de viagens internacionais para pesquisar equipamentos, tecnologias e novos produtos. Itália e Espanha foram importantes centros de referência para a indústria cerâmica, mas a partir de 2005 a China passou a ocupar espaço importante nesse processo.

Segundo ele, a equipe chegou a analisar aproximadamente 150 possibilidades de fornecedores antes de reduzir a lista para cerca de 20 empresas que seriam visitadas. A preocupação não era apenas tecnológica. Havia também questões relacionadas à origem dos produtos e às condições de trabalho nas empresas fornecedoras.

A operação de importação chegou posteriormente a volumes expressivos. Em determinado momento, uma profissional que assumiu essa área chegou a importar aproximadamente 180 contêineres por mês da China para atender o mercado.

Mesmo depois de deixar a Cecrisa, Dic afirma que a indústria cerâmica nunca saiu de sua rotina. Na empresa de engenharia criada após sua saída, continuou trabalhando com soluções para o setor. Também passou a importar produtos utilizados pela indústria cerâmica de países como Argentina e Bolívia e atualmente desenvolve negociações com fornecedores da Turquia.

De Cecrisacred à Acentra: a transformação pelo cooperativismo

Outro dos grandes capítulos da trajetória de Freire começou dentro da própria Cecrisa. A Cecrisacred nasceu em 1999, a partir da união de funcionários da empresa. Freire acompanhou o desenvolvimento da cooperativa e, posteriormente, passou a integrar sua estrutura de governança.

Com o tempo, a instituição percebeu que precisava ampliar sua atuação.

A cooperativa inicialmente estava restrita ao universo ligado à Cecrisa. Com a expansão, iniciou um processo junto ao Banco Central para se transformar em uma cooperativa de livre admissão.

A mudança exigiu também uma nova identidade. Surgiu então a Acentra. Hoje, segundo o presidente do conselho, a cooperativa possui aproximadamente 41 mil cooperados e 12 postos de atendimento, distribuídos pela região. A instituição também passou a integrar o Sistema Ailos, estrutura que reúne cooperativas e oferece suporte em áreas como tecnologia, recursos humanos, contabilidade, segurança, antifraude e outras operações.Para Freire, essa estrutura permite que a Acentra concentre seus esforços no relacionamento com os cooperados e na gestão do negócio.

Pessoas, sucessão e o futuro de Santa Catarina e do Brasil

Apesar de ter construído uma carreira fortemente ligada à engenharia e à tecnologia, Freire aponta as pessoas como o principal fator de sucesso de sua trajetória. Segundo ele, escolher profissionais, formar equipes e preparar pessoas sempre esteve no centro de seu trabalho. Essa visão também aparece quando fala sobre sucessão.

Para Dic, um dos erros de gestores é acreditar que determinado projeto ou empresa depende permanentemente de uma única pessoa. Preparar novos profissionais para assumir responsabilidades faz parte da construção de uma organização saudável. A mesma filosofia, segundo ele, vale para a Acentra. Na cooperativa, a responsabilidade é ainda maior porque o trabalho envolve diretamente o dinheiro e os sonhos dos cooperados.

Santa Catarina como exemplo

Ao falar sobre Santa Catarina, o engenheiro demonstra entusiasmo com a capacidade de desenvolvimento do Estado. Na avaliação dele, Santa Catarina reúne diferentes vocações econômicas: indústria no Norte, agronegócio no Oeste, serviços e tecnologia no Leste e atividades ligadas à mineração no Sul.

A combinação dessas forças, somada ao cooperativismo, ajudou a transformar Santa Catarina em uma referência nacional. Ele também destaca a capacidade de atração do Estado, que recebe pessoas de diferentes regiões brasileiras em busca de oportunidades.

Inteligência artificial e novas oportunidades

Outro tema abordado foi a inteligência artificial. Dic defende que a tecnologia precisa ser utilizada, mas com cuidado e conhecimento. Para ele, a IA não deve substituir a capacidade humana de análise e aprendizado. Além da inteligência artificial, ele aposta em áreas como robótica, computação quântica, novas tecnologias de comunicação e armazenamento de energia como setores que poderão gerar novas oportunidades.

Sua visão sobre tecnologia está diretamente relacionada ao que chama de “caminho da prosperidade”: para Freire, o avanço tecnológico cria oportunidades para quem estiver disposto a estudar, empreender, desenvolver projetos ou ensinar.

“O Brasil precisa sair do atoleiro”

Ao falar sobre o futuro do país, Freire foi direto. Para ele, o Brasil precisa encontrar mecanismos para ganhar velocidade, reduzir burocracia e transformar sua capacidade técnica e profissional em desenvolvimento. O engenheiro acredita que o país possui profissionais, infraestrutura e capacidade para avançar, mas enfrenta dificuldades justamente na execução e na velocidade das decisões.

A entrevista terminou com uma síntese que talvez ajude a explicar a trajetória de Freire: depois de mais de quatro décadas trabalhando com indústria, tecnologia, gestão e pessoas, ele continua enxergando o conhecimento e a capacidade de adaptação como os principais instrumentos para construir o futuro.

A história começou na engenharia e na Cecrisa, passou pela Cesaca e pela construção da Portinari, chegou ao cooperativismo da Acentra e continua, segundo ele, olhando para aquilo que ainda está por vir.

Mano Dal Ponte apresenta na Engeplus o uMANOs Talk Show

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