uMANOs Talk Show

De aplicativo desacreditado a 25% dos MEIs do Brasil: a trajetória de Mateus Vicente e da MaisMei

Mano Dal Ponte recebeu Mateus Vicente, CEO e cofundador da MaisMei, no uMANOs Talk Show

Por Mano Dal Ponte14 de setembro de 2026 9 min de leitura
Daniel Vieira / Triplice Filmes

A história de Mateus Vicente, empresário e programador começou muito antes de a MaisMei conquistar milhões de usuários no Brasil. Aos 34 anos, ele lembra que iniciou na programação em 2009 sem sequer ter computador ou internet em casa. Com materiais levados pelo irmão em um pen drive, aprendeu a desenvolver sites na prática e construiu uma trajetória marcada por desafios, demissões, freelas e muito trabalho. “Eu sempre gostei de tecnologia, sempre gostei de filmes e do mundo nerd como um todo”, contou durante participação no uMANOs Talk Show Engeplus, apresentado por Mano Dal Ponte.

A virada profissional aconteceu quando Mateus deixou o emprego e passou a trabalhar como freelancer. A experiência abriu caminho para novos projetos e, posteriormente, para a participação em empresas de tecnologia. Anos depois, surgiu a oportunidade de assumir um aplicativo que já existia, mas estava praticamente abandonado. O produto não tinha muitos cadastros efetivos, contava com poucas avaliações nas lojas de aplicativos e pouca utilização. A proposta era simples: ou o aplicativo seria descontinuado, ou Mateus assumiria o desafio de fazê-lo funcionar. “Eu só quero ter autonomia”, lembra ter dito ao negociar sua entrada no projeto.

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O que parecia apenas mais um projeto de tecnologia ganhou força justamente em um dos períodos mais difíceis da história recente. Em meio à pandemia, Mateus e os sócios decidiram reconstruir o aplicativo voltado aos Microempreendedores Individuais (MEIs). Em poucos meses, a equipe refez o produto e começou a oferecer serviços pagos. O resultado foi imediato: segundo Mateus, o primeiro mês de monetização alcançou R$ 30 mil em faturamento e o segundo chegou a R$ 60 mil. A empresa passou a crescer rapidamente, aproveitando também o aumento da procura por formalização durante a pandemia.

Hoje, a MaisMei soma mais de 4 milhões de MEIs cadastrados, segundo os números apresentados na entrevista, em um universo estimado pelo empresário em cerca de 16 milhões de MEIs no Brasil. A plataforma representa aproximadamente 25% desse mercado e registra entre 90 mil e 100 mil novos cadastros por mês. Com uma equipe de aproximadamente 70 pessoas e operação remota, a empresa foi adquirida integralmente pela Visma, multinacional norueguesa de software, em fevereiro de 2026. Para Mateus, entretanto, a venda não representa o ponto final da história: “A questão não é ganhar dinheiro, a questão agora é o propósito”.

De aprender programação sem internet a construir uma empresa nacional

A relação de Mateus com a tecnologia começou de maneira pouco convencional. Sem computador e sem internet em casa, ele recebeu do irmão materiais de estudo e passou a aprender programação por conta própria. O desafio era ainda maior porque, naquele período, o acesso a informações técnicas em português era limitado.

Depois de conseguir seu primeiro emprego na área, Mateus continuou estudando fora do horário de trabalho. A experiência também ensinou uma das principais características que levaria para o empreendedorismo: a necessidade de resolver problemas com os recursos disponíveis.

A demissão, inicialmente vista como um momento difícil, acabou se tornando um divisor de águas. “O que eu não aprendi lá em um ano, eu aprendi três meses trabalhando em casa e como freelancer e correndo atrás”, afirmou. A partir dali, passou a construir uma carreira mais independente e a acumular experiências em diferentes empresas e projetos de tecnologia.

O aplicativo que quase foi abandonado

A MaisMei não começou como uma grande startup pronta para conquistar o mercado. Segundo Mateus, o projeto era originalmente um aplicativo praticamente abandonado e pouca funcionalidade. Mesmo com avaliações ruins, havia um indicador que chamou a atenção: aproximadamente 100 novos cadastros por semana.

Foi nesse cenário que Mateus recebeu a possibilidade de assumir o produto. A estratégia foi reconstruir completamente o aplicativo e transformá-lo em uma ferramenta realmente útil para o MEI. “Eu era um cara de tecnologia, não somos uma contabilidade, somos uma empresa de tecnologia”, explicou.

A proposta evoluiu para concentrar em um único ambiente serviços que normalmente exigiam diferentes sistemas e sites. A plataforma passou a oferecer recursos relacionados à abertura e baixa do MEI, impostos, emissão de notas e outras necessidades do microempreendedor. “A gente pegou todos os sites e juntou tudo num aplicativo só”, resumiu Mateus.

A pandemia acelerou o crescimento

A reconstrução da MaisMei aconteceu durante a pandemia, período que Mateus define como uma fase extremamente difícil em sua vida pessoal e profissional. Ele havia se mudado para São Paulo para trabalhar em uma grande empresa de tecnologia quando veio o lockdown. A insegurança e a dificuldade de adaptação contribuíram para um período de forte pressão.

Ao mesmo tempo, o cenário criou uma oportunidade para serviços digitais voltados aos pequenos negócios. Com restaurantes, profissionais e empresas precisando migrar rapidamente para o ambiente digital, a abertura de CNPJ passou a ser ainda mais importante. O MEI tornou-se uma porta de entrada para milhares de pessoas que precisavam formalizar suas atividades.

Mateus reconhece que a empresa não apenas criou um bom produto, mas encontrou o momento adequado para colocá-lo no mercado. “A gente não somente fez algo bom, mas a gente aproveitou o timing”, afirmou. Para ele, a trajetória foi resultado de uma combinação entre oportunidade, tecnologia e muito trabalho.

De algumas centenas de usuários a mais de 4 milhões

O crescimento da MaisMei aconteceu em uma velocidade que surpreendeu até os próprios fundadores. O primeiro grande número que chamou a atenção dos sócios foi a marca de 1 milhão de cadastros. Em vez de grandes celebrações, eles fizeram uma chamada de vídeo, reconheceram a conquista e voltaram ao trabalho.

O crescimento continuou até a empresa atingir mais de 4 milhões de MEIs cadastrados. Considerando a estimativa apresentada por Mateus de aproximadamente 16 milhões de MEIs no país, a plataforma alcançou uma participação equivalente a cerca de um quarto desse universo. A empresa também registra atualmente entre 90 mil e 100 mil novos cadastros mensais.

“Quando a gente viu, a gente falou: poxa, temos aqui 25% do mercado com a gente. Que loucura”, contou. A dimensão do negócio também contrasta com sua estrutura: cerca de 70 profissionais trabalham de forma remota, sem um escritório tradicional centralizado.

Uma empresa criada para ganhar dinheiro que encontrou um propósito

Mateus faz questão de diferenciar a motivação inicial da empresa de sua missão atual. Segundo ele, a MaisMei não nasceu a partir de uma grande visão sobre o futuro do empreendedorismo brasileiro. A motivação inicial era mais direta: conquistar independência financeira e deixar de depender exclusivamente de um salário.

Com o crescimento da plataforma, entretanto, essa perspectiva mudou. A equipe percebeu que poderia utilizar tecnologia para facilitar a vida de milhões de pequenos empreendedores que enfrentam dificuldades para compreender impostos, CNPJ, notas fiscais e obrigações burocráticas.

“O meu objetivo é que ele resolva o problema dele”, afirmou Mateus. A filosofia passou a incluir também a produção de conteúdo gratuito para ensinar os usuários a realizar procedimentos por conta própria. Para o empresário, ajudar o usuário, mesmo quando isso significa ensiná-lo a não depender da empresa, fortalece a relação de longo prazo com a plataforma.

A venda para a Visma e o novo capítulo

Depois de anos crescendo com recursos próprios, a MaisMei entrou no radar de grandes empresas. Mateus explica que o negócio foi construído no modelo conhecido como bootstrapping: a empresa cresceu utilizando seus próprios resultados, reinvestindo parte dos lucros e sem depender de grandes rodadas de investimento externo.

As primeiras abordagens de potenciais compradores geraram entusiasmo e também frustrações. Algumas negociações não avançaram, enquanto outras propostas não estavam alinhadas com o que os sócios buscavam. “O negócio não era só a proposta financeira, era o todo”, explicou Mateus.

O processo que levou à venda foi estruturado com apoio especializado e envolveu diferentes interessados. Na etapa final, quatro ou cinco propostas eram consideradas boas, com duas se destacando. Entre elas estava a Visma, empresa norueguesa com atuação global em software para contabilidade e gestão empresarial. Em fevereiro, a multinacional adquiriu 100% da MaisMei.

Depois da venda, Mateus continua no comando

A aquisição não significou o afastamento imediato de Mateus. Ele permanece na empresa e passou a enfrentar um novo desafio: continuar conduzindo o negócio dentro de uma companhia multinacional. A mudança também trouxe uma nova dinâmica profissional, já que, antes, ele tinha grande autonomia nas decisões.

“Eu não tinha chefe. Hoje em dia eu tenho um chefe que é a empresa”, afirmou. A adaptação envolve novos processos, novas responsabilidades e até a necessidade de explicar particularidades do mercado brasileiro para executivos estrangeiros.

Apesar das mudanças, Mateus afirma estar mais tranquilo atualmente. A venda provocou uma sensação que ele descreveu como semelhante a um “luto”, justamente pelo vínculo emocional com uma empresa que ajudou a construir e que, segundo ele, também o ajudou a atravessar uma fase difícil da vida. “Hoje eu estou muito feliz”, declarou.

Criciúma no mapa nacional da tecnologia

A trajetória da MaisMei também evidencia a capacidade de empresas de tecnologia criadas em Criciúma alcançarem mercados nacionais e internacionais. Uma operação que começou pequena, com poucos profissionais e muito trabalho manual, transformou-se em uma plataforma utilizada por milhões de empreendedores.

Para Mateus, o próximo desafio é ampliar ainda mais essa presença. Questionado sobre o que falta para chegar a 50% ou até 100% do mercado de MEIs, respondeu de forma direta: “Eu acho que é tempo. Questão de tempo. A gente vai chegar lá”.

A história contada no uMANOs Talk Show Engeplus, apresentado por Mano Dal Ponte, mostra que grandes negócios nem sempre começam com grandes estruturas ou planos perfeitos. Às vezes, começam com um computador comprado pelo irmão, alguns PDFs em um pen drive, muitas horas de estudo e a disposição para aproveitar uma oportunidade quando ela aparece.

Mano Dal Ponte apresenta na Engeplus o uMANOs Talk Show

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