Luta dos imigrantes nos EUA se intensifica com questão do coronavírus
Falta de documentação pode se tornar um obstáculo para atendimento de saúde

Peter (nome fictício) não pode se dar ao luxo de ficar em quarentena: perdeu seu emprego de garçom em um restaurante de Los Angeles e está há duas semanas de ficar sem dinheiro para comida e aluguel.
Os programas de assistência social promovidos pelo governo dos EUA para enfrentar a crise econômica causada pela COVID-19 não são uma opção para este colombiano de 30 anos, que não possui permissão legal para trabalhar.
Peter depende do trabalho por hora. Se trabalha, ganha. Se não trabalha, não ganha.
"Preciso buscar uma forma para pelo menos cobrir o aluguel e alimentação, com essa situação conseguir um trabalho é complicado", afirmou para um repórter da agência Associated France-Presse este homem que ganhava 400 dólares semanais, nos EUA "o necessário" para viver.
Os sem-documentos nos Estados Unidos sempre viveram sob incertezas, principalmente desde a chegada ao poder do presidente Donald Trump, que fez da bandeira de seu governo a luta contra a imigração ilegal.
A pandemia aumenta a incerteza: no país causou a morte de 150 pessoas nos mais de 10 mil casos relatados, e já anuncia efeitos catastróficos na economia.
Peter pergunta: Posso ir ao hospital sem seguro? Corro risco de deportação? Se usar os serviços do governo, um futuro pedido de residência pode ser prejudicado?
São algumas das muitas perguntas que Luz Gallegos, da organização pró-imigrantes TODEC recebeu, quando fizeram uma clínica legal em Perris, comunidade rural ao norte de Los Angeles, no fim de semana passado.
"A COVID-19 é um estresse adicional para a comunidade", afirmou Gallegos. "É uma comunidade que não confia no governo".
Em TODEC a mensagem é "a saúde em primeiro lugar", mas isso não acalma o estresse.
A principal preocupação, conforme explica Gallegos, é a nova regra migratória da "cobrança pública", que leva em consideração aspectos como o estado de saúde para conceder um visto ou autorizar o início de um processo de Green Card.
O escritório de imigração dos Estados Unidos declarou que os imigrantes submetidos a exames médicos para detectar o coronavírus, ou que recebam tratamento para a doença, não serão penalizados ao solicitar a naturalização ou qualquer outro benefício migratório sob o novo protocolo.
A polícia migratória ICE também anunciou que suspenderia "temporariamente" pela crise as prisões e expulsões de imigrantes sem documentos.
E na Califórnia, por lei, os policiais estatais cooperam pouco com as entidades federais nas questões de imigração.
"Mas ainda assim existe medo e insegurança porque o governo Trump muda constantemente como aplicará a política", afirmou Gallegos.
Estados Unidos adotou um plano de assistência social de cerca de 100 bilhões de dólares, destinado aos trabalhadores diretamente afetados pelas consequências do coronavírus. O plano prevê licenças pagas para funcionários que ficarem doentes e um acesso mais fácil ao seguro desemprego e aos benefícios alimentícios.
Contudo, para cerca de 11 milhões de indocumentados, esses benefícios parecem inalcançáveis.
"Quando nos avisaram que não havia mais trabalho, enviaram um link para solicitar ajuda do governo" da Califórnia, lembra Peter. "Mas li que era para cidadãos ou para aqueles que têm a documentação em dia".
Das 15 pessoas que trabalhavam no restaurante japonês com Peter, a metade não possui documentos.
"Penso que a situação ficará mais difícil por volta de 15 dias, um mês, quando não tiver o suficiente para o aluguel, as obrigações", lamentou o jovem, que paga 580 dólares mensais por uma moradia.
Sua opção imediata é começar a trabalhar como entregador de pizzas com um carro velho que conseguiu comprar há duas semanas, antes de descobrir a crise.
"Depois de dois anos neste país, estava em um momento em que sentia estar decolando, me organizando e aí vem isso do coronavírus", lamenta. "Quase tenho que começar de novo".
Foto: Senhor sem teto em Los Angeles, Califórnia.
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