Médicos do HMISC cobram R$ 4 milhões em salários atrasados e pedem ajuda à Câmara de Criciúma

O assunto foi levado à tribuna livre da Câmara Municipal nesta terça-feira

Médicos do HMISC cobram R$ 4 milhões em salários atrasados e pedem ajuda à Câmara de Criciúma
Foto: Fabrício Júnior | Portal Engeplus | Arquivo

Os 130 médicos que integram o corpo clínico do Hospital Materno Infantil Santa Catarina (HMISC), em Criciúma, estão sem receber os honorários referentes aos meses de abril e maio, período em que a unidade era administrada pelo Instituto de Desenvolvimento, Ensino e Assistência à Saúde (Ideas). A dívida, segundo o Sindicato dos Médicos da Região Sul Catarinense (Simersul), chega a aproximadamente R$ 4 milhões.

O assunto foi levado à tribuna livre da Câmara Municipal de Criciúma nesta terça-feira, dia 1º, quando representantes da categoria pediram apoio dos vereadores para buscar uma solução para o pagamento dos valores. O Ideas deixou a gestão do hospital em maio. Desde junho, a unidade passou a ser administrada pela Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Bernardo do Campo (SCSBC).

A presidente do Simersul, Cristiane Coral, afirmou que os profissionais trabalharam normalmente durante os dois meses, mas não receberam pelos serviços prestados. “Não houve repasse dos honorários aos médicos nos meses de abril e maio. A partir de junho, quem começou a gerir a instituição foi a Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Bernardo do Campo (SCSBC) e, desde então, nós nos mobilizamos como sindicato para tentar fazer algumas negociações tanto com o Ideas quanto com a Secretaria de Estado da Saúde, mas as negociações não foram resolutivas”, lamentou.

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Segundo Cristiane, os médicos já ingressaram com ações contra o Ideas. Ela também defendeu que o Governo do Estado seja responsabilizado pela situação, já que a administração da unidade era terceirizada. “Pensamos em fazer algumas mobilizações, já estivemos aqui nessa Casa em reunião com alguns vereadores e hoje, o que nós queremos? Não estamos aqui tentando reivindicar só a falta dos honorários que não foram pagos aos médicos. A gente quer realmente que vocês se coloquem na posição para entender que esses profissionais trabalharam. Trabalharam abril e maio e não receberam. Lembrando que muitos profissionais têm vínculo único. Só trabalham no Hospital Santa Catarina e dependem do dinheiro”, frisou.

Sindicato cobra responsabilidade do Estado

Cristiane afirmou que o sindicato também buscou uma negociação com a Secretaria de Estado da Saúde. Na avaliação dela, apesar da gestão ter sido transferida para uma organização terceirizada, o Estado mantém responsabilidade sobre a fiscalização do serviço. “Houve o repasse do Governo do Estado ao Ideas, com certeza houve repasse, mas o que eu sempre falo: quando uma gestão terceiriza os serviços, apesar de passar a administração para uma outra empresa, ainda assim ela tem uma corresponsabilidade com aquela instituição. Então nós entendemos que o governo é sim corresponsável”, destacou.

Médicos seguiram trabalhando sem receber

Médica pediatra e coordenadora do Pronto-Socorro Pediátrico do HMISC, Suzana Kniphoff de Oliveira, afirmou que os profissionais mantiveram os atendimentos mesmo durante o período de crise e da mudança de gestão. “Eu já era coordenadora durante a gestão do Ideas. Além disso, eu sou mãe de dois meninos e, durante todo esse período, eu saí da minha casa, deixei os meus filhos, eu paguei funcionário para cuidar deles, tive todo um ajuste da minha vida para poder continuar trabalhando. A gente ficou sem receber e continuamos trabalhando”, relatou.

Segundo Suzana, enquanto houve paralisação de parte da equipe de enfermagem, os médicos mantiveram as escalas. “Todos os pacientes continuaram sendo assistidos por nós, não faltou em nenhum momento um plantonista, em nenhum momento ficou desassistido pela equipe médica. Em todos os momentos a gente cumpriu o nosso papel, cumpriu a nossa escala, sem saber se a gente ia receber, como a gente ia receber, quando a gente ia receber”, afirmou.

Ela também relatou dificuldades durante a transição entre as empresas responsáveis pela gestão. “Quando trocou a gestão, eles fizeram a contratação de todos os outros funcionários. A gente começou o mês sem ter um contrato, continuamos cumprindo a nossa escala sem ter um contrato com nenhuma empresa e até o momento que fomos chamados e reorganizados para refazer as escalas e agora seguimos com essa nova empresa”, disse.

Para a médica, a orientação recebida até o momento não resolve o problema. “A gente não tem nenhuma resposta, ninguém tem nada para nos falar e a resposta é: ‘Busquem a Justiça’. E a gente sabe como a Justiça é morosa. Então esse tempo ficou perdido, são dois meses de salário que a gente não vai receber, provavelmente num futuro muito distante, se for o caso”, lamentou.

A ginecologista e obstetra Ana Luiza Pereira Córdova, que atua no hospital há seis anos, também utilizou a tribuna para relatar as dificuldades enfrentadas. “É muito difícil para mim falar sobre esse assunto porque eu me sinto extremamente negligenciada e humilhada em relação a esse assunto. Uma vez a minha mãe me disse: ‘Estuda, filha. Estuda porque o conhecimento ninguém nunca vai tirar de você’. E eu sinto que hoje o meu conhecimento está sendo tirado de mim”, afirmou.

Ana Luiza contou que trabalhou 330 horas durante os meses de abril e maio. “Eu deixei a minha vida, eu deixei a minha mãe, eu deixei meu noivo. Eu fiquei dias, horas, noites naquele hospital. Eu salvei vidas, eu fiz mais de 300 partos, eu trouxe mais de 300 crianças ao mundo e eu quero saber quem vai pagar o meu salário?”, questionou.

A médica reforçou que, mesmo sem receber, manteve as atividades normalmente. “Eu e mais 130 médicos estamos há dois meses sem receber. E eu não deixei de trabalhar. Eu estava lá nas minhas 130 horas, de dia e de noite, cuidando de mãe, botando bebê no mundo. Teve paciente minha que foi para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI), quase morreu, e eu fiquei do lado até ela ser transferida para outro hospital, enquanto os outros não estavam lá. Em nenhum momento a gente parou. Em nenhum momento. Não teve um médico que não foi na sua escala de serviço”, relatou.

Ana Luiza também explicou que, apesar de ser médica, depende dos rendimentos do hospital para manter as despesas pessoais e o financiamento da formação profissional. “Muitos olham e pensam: ‘Mas ela é médica, ela tem dinheiro’. Eu sou nova na minha profissão, tenho três anos de ginecologia e obstetrícia. O meu financiamento do FIES custa R$ 3 mil todos os meses e 90% do que eu ganho vem do Hospital Santa Catarina. Eu trabalho em outro consultório que não me rende mais de R$ 3 mil por mês”, contou.

“Por dois meses eu não tinha dinheiro para pagar o resto do meu financiamento, eu não tinha dinheiro para pagar aluguel, transporte, comida e seja lá mais lá o que for. Mas todo mundo pensa: ‘Não, mas são médicos, eles se viram, eles dão mais horas de plantão, eles têm dinheiro guardado, eles têm pais ricos’. Meu pai não é médico, meu pai não é engenheiro, meu pai não é empresário. Meu pai me criou para ser honesta, para ser trabalhadora, e foi o que eu fiz. Eu estudei e eu trabalhei. E por que eu não recebo o meu salário?”, acrescentou.

Vereadores prometem buscar solução

O presidente da Câmara de Criciúma, Neto Uggioni, garantiu que os vereadores irão trabalhar em conjunto para buscar uma solução para o pagamento dos profissionais.

O Portal Engeplus procurou a Secretaria de Estado da Saúde e o Ideas para obter um posicionamento sobre os salários atrasados. Até a publicação desta matéria, os dois não haviam se manifestado. O espaço permanece aberto.

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