uMANOs Talk Show

“Um em cada quatro grãos produzidos no Brasil passa pela análise da Procer.”

Mano Dal Ponte recebeu Tarcísio Selinger da Procer no uMANOs Talk Show

Por Mano Dal Ponte02 de setembro de 2026 10 min de leitura
Daniel Vieira / Triplice Filmes

A história da Procer começou a partir de uma combinação improvável: um sonho, três profissionais com competências complementares e a disposição de abandonar empregos estáveis para empreender. Fundada em 2011, a empresa criada por Eduardo de Aguiar, Murilo Gehrmann Schneider e Tarcísio Cardoso Selinger nasceu com o objetivo de levar tecnologia para a armazenagem de grãos a um setor produtivo que apresentava grande defasagem tecnológica. A aposta se transformou em uma companhia com presença nacional e atuação em outros países.

Mano Dal Ponte recebeu, no uMANOs Talk Show, Tarcísio Selinger, um dos fundadores da Procer. Durante a entrevista, o empresário relembrou os primeiros anos da companhia, período marcado por dificuldades financeiras, incertezas e desafios inerentes à consolidação de um novo empreendimento.

Segundo Tarcísio, os três sócios chegaram a permanecer durante dois anos sem receber salários, direcionando seus esforços e recursos para a estruturação do negócio. Mesmo diante das limitações financeiras e das dúvidas manifestadas por familiares e pessoas próximas, os fundadores mantiveram-se comprometidos com o projeto.

A decisão de seguir adiante, conforme relatado pelo empresário, estava fundamentada não apenas na perspectiva de retorno financeiro, mas também no propósito de desenvolver soluções capazes de gerar impactos positivos na cadeia produtiva e contribuir para o fortalecimento da segurança alimentar.

Confira a entrevista completa no Youtube:

Hoje, a tecnologia desenvolvida pela empresa está presente em uma parcela significativa da armazenagem de grãos no Brasil. Segundo Selinger, aproximadamente 25% dos grãos armazenados no país passam por sistemas monitorados por sensores da Procer. A empresa, que começou com três fundadores executando praticamente todas as atividades, conta atualmente com cerca de 210 colaboradores.

A trajetória da companhia também chamou a atenção de grandes grupos do setor. A Procer passou a integrar a Kepler Weber após um processo de negociação que levou mais de um ano e envolveu uma mudança significativa na estrutura de governança da empresa. Agora, em uma nova fase profissional, Tarcísio deixa parte das funções administrativas para assumir uma posição voltada à inteligência artificial, área que considera estratégica para os próximos passos da companhia.

Um sonho que se transformou em empresa

A ideia de criar a Procer surgiu quando Murilo, um dos futuros sócios, acordou durante a madrugada após ter tido um sonho relacionado ao negócio. Ele chegou a registrar no papel o que seria um plano inicial e, dias depois, apresentou a proposta a Tarcísio. Os dois já trabalhavam juntos e tinham formações complementares: enquanto Tarcísio era ligado ao desenvolvimento de software, Murilo tinha experiência na área de hardware.

O terceiro integrante do grupo surgiu de forma quase simultânea. Antes mesmo de conhecer todos os detalhes da proposta, Eduardo também manifestou o desejo de empreender com os colegas em uma área relacionada à armazenagem de grãos. A combinação das três competências formou o que Tarcísio definiu como um tripé: software, hardware e área comercial.

A decisão, no entanto, significava abrir mão da estabilidade profissional. Tarcísio já tinha sete anos de experiência na empresa onde trabalhava e possuía um salário considerado confortável. Ainda assim, os sócios decidiram apostar no novo projeto, mesmo sem a certeza de que a empresa conseguiria se sustentar.

Da agricultura familiar à tecnologia para o agronegócio

Natural de uma família ligada à agricultura, Tarcísio cresceu em Içara acompanhando o trabalho dos pais com a fumicultura. Desde cedo, teve contato com atividades rurais, participando de tarefas relacionadas ao cultivo e convivendo com a realidade das famílias que dependiam da agricultura para sobreviver.

Incentivado pelo pai a estudar e buscar novas oportunidades, conseguiu seu primeiro emprego enquanto se preparava para ingressar na área de tecnologia. Formado em Ciência da Computação, passou a trabalhar como desenvolvedor e, curiosamente, seu caminho profissional voltou a cruzar com o setor do fumo quando começou a atuar em uma empresa que desenvolvia equipamentos para a indústria.

Foi justamente a experiência com tecnologia aplicada a processos industriais que ajudou a construir a visão que mais tarde seria utilizada na Procer. Ao observar a diferença entre o nível tecnológico existente em determinados setores e a realidade da armazenagem de grãos, os futuros empreendedores identificaram uma oportunidade para desenvolver soluções voltadas à automação e ao controle dos processos.

Tecnologia para reduzir perdas na armazenagem

O primeiro desafio da Procer foi desenvolver uma solução capaz de acompanhar as condições dos grãos armazenados. A proposta envolvia mais do que simplesmente medir a temperatura dentro dos silos. O sistema passou a reunir informações sobre temperatura, umidade e condições climáticas, utilizando algoritmos para determinar os melhores momentos para realizar determinadas ações.

Tarcísio explica que os grãos continuam apresentando processos naturais durante a armazenagem e que fatores como excesso de umidade e aumento da temperatura podem provocar uma série de problemas. A tecnologia desenvolvida pela empresa busca automatizar decisões que anteriormente dependiam de acompanhamento manual e da experiência dos operadores.

Os primeiros clientes da empresa foram produtores e empresas da região Sul de Santa Catarina, entre eles negócios localizados em Turvo. Inicialmente voltada principalmente ao arroz, a tecnologia também encontrou espaço em outras culturas, como a soja. Nesse caso, um dos desafios identificados foi evitar a secagem excessiva dos grãos, mantendo os padrões de umidade exigidos pelo mercado e reduzindo perdas.

Dois anos sem salário e a construção do negócio

A fase inicial da Procer foi marcada por dificuldades. Sem uma estrutura consolidada e ainda buscando validar a tecnologia no mercado, os sócios precisaram assumir diferentes funções dentro da empresa. Tarcísio e Murilo participavam do desenvolvimento dos produtos, enquanto os três também realizavam instalações e outras atividades necessárias para manter o negócio funcionando.

Durante dois anos, os fundadores ficaram sem receber salário. A situação exigiu apoio das famílias e a adaptação a uma realidade financeira completamente diferente daquela que tinham antes de deixar seus empregos. Para Tarcísio, a permanência no projeto esteve relacionada à convicção de que o trabalho poderia gerar um impacto maior do que apenas retorno financeiro.

Com o crescimento da empresa, a estrutura também mudou. O negócio que inicialmente levantava dúvidas sobre sua capacidade de sustentar os três fundadores passou a contar com aproximadamente 210 colaboradores e a instalar equipamentos entre 100 e 200 silos mensalmente, segundo o empresário.

Hoje, 25% dos grãos do Brasil passam pela Procer

O crescimento da Procer ganhou escala nacional. De acordo com Tarcísio Selinger, cerca de 25% da armazenagem de grãos no Brasil passa atualmente por sensores desenvolvidos pela empresa. O país produz aproximadamente 400 milhões de toneladas por ano, número que dimensiona a presença da tecnologia criada em Santa Catarina dentro do agronegócio brasileiro.

Um dos impactos apontados pelo empresário está relacionado ao consumo de energia. Ao identificar o momento adequado para ligar ou desligar equipamentos utilizados no processo de armazenagem, os sistemas podem reduzir desperdícios. Selinger afirma que a economia gerada pelo conjunto das operações atendidas pela empresa seria suficiente, em comparação, para iluminar uma cidade do porte de Criciúma.

Mesmo com a participação expressiva no mercado nacional, o empresário acredita que ainda existe espaço para crescimento. O Brasil possui uma produção agrícola superior à capacidade de armazenagem disponível, e parte significativa dos grãos ainda enfrenta limitações relacionadas à infraestrutura e à tecnologia utilizada no período pós-colheita.

A chegada da Kepler Weber e uma nova fase

O crescimento acelerado da Procer também chamou a atenção da Kepler Weber, uma das principais empresas do segmento de armazenagem de grãos. Segundo Tarcísio, o grupo inicialmente passou a observar o avanço da companhia catarinense e, posteriormente, iniciou conversas que resultariam em uma proposta de aquisição.

Os fundadores, que até então tinham pouca experiência com processos de compra e venda de empresas, passaram mais de um ano discutindo a operação com advogados e especialistas. A negociação envolveu a aquisição de 100% da empresa, com uma estrutura de transição e permanência dos fundadores no negócio durante um período de cinco anos.

A entrada em um grupo maior trouxe também uma nova realidade de governança. A Procer passou a ter um conselho de administração e uma estrutura mais formal de prestação de contas. Para Tarcísio, uma das principais preocupações era a possibilidade de perder autonomia, mas o modelo estabelecido manteve espaço para que a equipe continuasse conduzindo o dia a dia da operação.

“O antigo é honrado e o novo é bem-vindo”

Um dos conceitos que passou a orientar a cultura da empresa é a frase: “O antigo é honrado e o novo é bem-vindo”. Para Tarcísio, o princípio representa a necessidade de reconhecer tudo o que foi construído ao longo da trajetória, sem transformar o passado em um obstáculo para as mudanças necessárias ao crescimento.

A reflexão também teve impacto pessoal. Como fundador e desenvolvedor das primeiras versões dos sistemas utilizados pela empresa, ele precisou aprender a se afastar gradualmente do trabalho operacional e permitir que novas equipes assumissem funções que antes dependiam diretamente dele.

Segundo o empresário, essa mudança de mentalidade foi necessária para que a empresa pudesse avançar para um novo patamar. Processos, tecnologias e pessoas que ajudaram a construir a companhia continuam sendo reconhecidos, mas a evolução exige abertura para novas formas de trabalhar e para profissionais capazes de contribuir com diferentes competências.

Inteligência artificial passa a ser prioridade

A nova fase profissional de Tarcísio está diretamente ligada à inteligência artificial. A Procer passou a incluir a tecnologia entre suas prioridades estratégicas e o empresário assumiu uma função voltada especificamente ao desenvolvimento de iniciativas na área, atuando como Chief AI Officer, posição responsável por liderar as estratégias relacionadas à inteligência artificial.

Antes de levar os projetos para dentro da empresa, Tarcísio decidiu estudar o tema de forma prática. Montou uma estrutura própria e passou a desenvolver agentes capazes de realizar pesquisas, analisar informações e acompanhar diferentes temas. Um dos primeiros projetos pessoais foi um sistema chamado por ele de “Baby Curator”, criado após o nascimento do filho para auxiliar na busca e organização de informações sobre desenvolvimento infantil.

A experiência serviu como laboratório para compreender o funcionamento de modelos de linguagem e sistemas baseados em agentes. Posteriormente, passou a aplicar os mesmos conceitos em tarefas relacionadas ao mercado, como monitoramento de concorrentes e geração de relatórios. Segundo Tarcísio, atividades que anteriormente poderiam levar meses ou até um ano para serem desenvolvidas passaram a ser executadas em períodos muito menores.

Tecnologia criada em Santa Catarina com presença internacional

Apesar do crescimento e da expansão para outros mercados, a produção e o desenvolvimento da Procer continuam concentrados na região. A empresa atua em países da América Latina e já desenvolveu operações em cerca de 20 países, mas a estratégia, segundo o empresário, é continuar fortalecendo a estrutura antes de ampliar ainda mais a presença internacional.

A companhia utiliza processos de automação e princípios de Lean Manufacturing para organizar sua produção. Parte dos componentes eletrônicos é produzida com processos robotizados, enquanto o desenvolvimento tecnológico e a integração dos sistemas permanecem ligados à estrutura construída pela empresa ao longo dos últimos anos.

Da experiência de uma família ligada à agricultura em Içara à liderança de uma empresa que atende uma parcela significativa da armazenagem de grãos do país, a trajetória de Tarcísio Selinger reúne empreendedorismo, tecnologia e transformação. Agora, com a inteligência artificial no centro da nova fase, o fundador da Procer aposta novamente na capacidade de adaptação para definir os próximos capítulos da empresa.

Mano Dal Ponte apresenta na Engeplus o uMANOs Talk Show

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