A última entrevista com o empresário Zefiro Giassi
Por Joice Quadros
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Em fins de setembro de 2023, o empresário Zefiro Giassi, 90, fundador da rede dos Supermercados Giassi, mantinha uma rotina de chegar ao seu escritório por volta das 08 horas, onde uma agenda organizada pelas suas secretárias o aguardava. Nesse dia, em especial, 27, às 11 horas, participou de uma reunião no gabinete do prefeito de Criciúma, Clésio Salvaro, analisando detalhes do mega-projeto que seria construído pelo Giassi em região nobre de Criciúma. “A caneta ainda está na minha mão”, enfatizou balançando uma caneta amarela no ar, “e minha decisão é investir aqui”, declarou com firmeza na voz. Neste endereço, um amplo espaço na esquina das ruas Araranguá e Anita Garibaldi, em 1947 foi construída a Cerâmica Cesaca, desativada na década de 1990, e este empreendimento com lançamento do Giassi , previsto para breve, está sendo aguardo com interesse pela cidade de Criciúma.
Mas para estar neste horário no seu escritório, seu dia iniciava às 06 horas, “muitas vezes acordo antes do celular despertar”, contou. Passava por uma sessão de nebulização para aliviar um problema pulmonar e ,depois uma hora de exercícios físicos, três vezes por semana com auxílio de um fisioterapeuta, tomava café com Dona Ana, como se referia à sua esposa, com quem casou em 09 de julho de 1955, e tiveram os filhos Rosália, Osni, Maristela, Mariléia e Rogério. Estava pronto, então, para iniciar suas atividades empresariais.
Sempre lhe acompanhando nas atividades do escritório estava seu filho Osni Giassi, mas todos os outros filhos participavam das decisões, quando aconteciam na empresa as reuniões periódicas do Conselho. Ao meio dia voltava em casa para almoçar com Dona Ana, depois um “cochilo” sentado no sofá, que não passava de trinta minutos, vendo notícias na TV, e o retorno para o escritório, permanecendo até às 18 horas. À noite, depois do jantar, acompanhava mais um pouco os noticiários e se dedicava à leitura. Estava lendo “Uma vida com propósito”, de Rick Warren. “Este livro tem 42 capítulos e orienta que a gente leia um por dia e medite sobre o que leu. Estou no capítulo 24”, contou nesse dia 27 de setembro de 2023.
Lembrando sua história, nasceu em 29.06.1933 na localidade de Ponta do Mato, no Morro Branco. “Seguindo pela BR 101 fica uns cinco quilômetros à direita depois da Vila Nova”. Este lugar está sendo preservado até hoje, onde gosta de passear com Dona Ana, e faz parte de seu patrimônio. Na época de seu nascimento, este lugar, de propriedade de seus avós José Giassi e Tereza Stucchi Giassi, estava na área do município de Criciúma, até o desmembramento de Içara, em 20 de dezembro de 1961, quando Içara passou a ser município.
Comum às crianças naquela época, nasceu em casa com auxílio de uma parteira, “na região sempre havia uma parteira”, lembrando que naquele ano, em 1933, foi inaugurado o Hospital São José de Criciúma, que vai entrar para sua história pessoal aos três aninhos de idade.
Zefiro Giassi é o quarto filho de uma família de sete filhos do casal Ângelo Giassi e Fortunata Lúcia Rosso Giassi, mais uma prima adotada, a Ana. Pela ordem nasceram Alzira (in memorian, falecida aos 93 anos de idade), Alírio, Enerino, Zefiro, Adelina, Higino e Maria. “As mães sempre enfaixavam os filhos até um ano e comigo não foi diferente”, contou, lembrando que moravam em uma casa distante uns 300 metros da casa de seus tios e outras casas a um quilômetro aproximado de distância. “Havia muita fraternidade e amizade entre as famílias e as crianças. Aos domingos nos reuníamos com os vizinhos”.
Quando completou três aninhos, em 29.06.1936 , foi a uma festa com seus pais e irmãozinhos. O que era para ser só alegria, um grave acidente com uma faca, enquanto descascavam cana-de açúcar, atingiu sua vista e abalou a família . “No dia seguinte meu pai me levou em Criciúma, no Hospital São José, que estava começando os primeiros atendimentos. Para mim foi uma oportunidade”, comentou com leve sorriso, “porque aos 14 anos meus pais me mandaram estudar porque só enxergava de uma vista e não podia trabalhar na roça. Foi o único dos filhos a iniciar cedo seus estudos.
De sua infância, lembrou das brincadeiras de esconde-esconde e de pescar. A escola mais próxima era no atual bairro HG, iniciais de Hélio Giassi. “Meu pai nasceu no Sangão, próximo ao pontilhão, e depois foram morar na Quarta Linha. Quando meu pai e meu tio casaram, foram morar no Mato Branco, em terrenos que meu avô deu para eles construírem suas casas. Eu preservo esta área até hoje como recordação”.
Para chegar até a escola, eram cinco quilômetros para ir e cinco para voltar. Com 8 anos foi para o primeiro escolar e fazia este trajeto a pé, levando cerca de uma hora caminhando, com seu lanche de batata doce assada na brasa. “Arrancava as batatas e enquanto cozinhavam para tratar os porcos eu já assava a minha para levar para a escola”. Esta rotina foi até os 11 anos, no terceiro e último ano da escola. “Depois fiquei em casa trabalhando com meus irmãos até os 14 anos, quando me privilegiaram para estudar”.
Nesse dia 27 de setembro, às 14 horas, fui recebida em seu escritório para uma entrevista, a última que fiz com o empresário Zefiro Giassi. Passamos quase duas horas conversando e ao sair estava impressionada com sua memória e o quanto estava ágil e ativo, acreditando que esta era uma pessoa que chegaria fácil aos cem anos. Não foi o que aconteceu e neste dia 15 de dezembro estamos nos despedindo de Zefiro Giassi, um dos mais importantes empreendedores de sua época. Sua biografia está contada em livro por Arquimedes Naspolini Filho.
Joice Quadros. Bacharel em Jornalismo (UFRGS), com especializações em Comunicação Empresarial e Meio Ambiente. Professora e Pesquisadora, com obras publicadas. Cadeira 28 da Academia Criciumense de Letras e Membro da Diretoria da Associação de Jornalistas Escritoras do Brasil/Santa Catarina. Nasceu em Santo Ângelo (RS) em 1947.

