A grana que aduba a grama
Por Willi Backes
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Há muitas décadas o futebol profissional se tornou um negócio - recentemente, um grande negócio - porém ainda com gestão associativa amadora, com raras e cumpridas obrigações remuneratórias trabalhistas, fiscais e tributárias.
Se é um negócio, imagine uma empresa com atividade qualquer, assim como o futebol profissional, que a cada final de mês tem a responsabilidade de remunerar seus colaboradores e demais custos decorrentes da sua atividade, pagar valores que vão de 200 mil, um milhão, cinco milhões, dez milhões e até ou mais de 20 milhões de reais mensais, sob gestão na maioria por amadores ou iniciantes, abnegados torcedores ou voluntários para gestão temporária.
Inicialmente, após baixa receita, aparentam atrasos dos compromissos financeiros, depois chega a inadimplência, depois as renegociações, depois o calote e por fim, impedimento da atividade.
SOCIEDADE ANÔNIMA MAIS DO QUE VISÍVEL
A organização do futebol profissional através dos clubes, entidades de direito privado, teve no final de 2021, acordada e publicada legislação com a denominação de SAF – Sociedade Anônima do Futebol, que determina regramento para inserção de recursos nas gestões da atividade esportiva.
Apesar das perceptíveis boas intenções do novo ordenamento jurídico, várias deduções são imediatamente possíveis de serem visualizadas, a começar pela própria denominação de “Sociedade Anônima do Futebol”. No mundo econômico do futebol, o que mais se busca é exatamente o contrário. Busca-se através dos investimentos alcançar a promoção pública das marcas patrocinadoras, exposição pessoal e muita, muita rentabilidade a curto e médio prazo.
Em curtíssimo prazo, os investimentos racionais e especulativos, pela imposição dos investidores nada anônimos, dominarão as entidades organizadoras do futebol, federações e confederações.
POBRES CLUBES DE FUTEBOL NO BRASIL
Apesar de nem todos os detalhes serem públicos, o que é admissível, os contratos recém acordados entre clubes brasileiros e investidores, revelam o quanto são pobres, mendigos na área, as entidades praticantes do futebol.
O Cruzeiro das Minas Gerais capturou Ronaldo “Fenômeno” Nazário, ponta-de-lança de investidores, agora sócio majoritário e mandachuva do clube. O Botafogo do Rio de Janeiro, se entregou ao ex-skatista profissional americano John Charles Textor, investidor no ramo de tecnologia, cinema e dos esportes, é sócio do RWD Molenbeek da Bélgica. O Clube de Regatas Vasco da Gama, também do Rio de Janeiro, está por finalizar sociedade com a 777 Partners, de Miami EUA, também investidor no futebol do Genova da Itália e Sevilla na Espanha.
Especula-se que nesses três exemplos, os valores investidos a longo prazo pelos novos sócios, vão de 400 à 800 milhões de reais, o que nem é similar aos débitos vencidos nas próprias entidades esportivas. Evidentemente a avaliação é preliminar, já que nem todos os dados são de conhecimento público.
Entretanto, o que é público e notório, é o quanto são rasteiras as avaliações do “quanto vale um clube de futebol no Brasil”. Se consideradas os valores das transações no futebol europeu, uma “compra” de jogador mediano/bom por lá, vale mais que um clube centenário brasileiro: Vasco da Gama (21/08/1898), Botafogo (12/08/1904) e Cruzeiro (02/01/1921). A soma dos três clubes, dá para tentar contratar o Lionel Messi ou Kylian Mbappé Lotin com contratos de trabalho em vigor, os dois do PSG, isso que jogador de futebol, por melhor que seja, tem prazo de validade.
AS LIGAS QUE DARÃO LIGAS E ORDENS
Estão em pleno andamento as conversações para formação de “Ligas de Clubes” com a prática do futebol no Brasil. Evidentemente os mais interessados que a pauta ande e se concretize, são os clubes que agora estão admitindo formas associativas ou de arrendamento com e para investidores. Ninguém com sã consciência investe em causas dúbias, desorganizadas, projetos deficitários. Aqui e acolá, quem passa a ter a vara, o metro e o método do comando, é a grana, os investidores e seus investimentos.
Para exemplificar o extremo do valor da grana/dinheiro, o futebol profissional nos Estados Unidos da América do Norte é organizado em Ligas, com vagas literalmente compradas/pagas. Lá, não há acesso e/ou descenso considerando a performance técnica futebolística.
DEDUÇÕES ÓBVIAS
1 – O futebol profissional nas próximas temporadas passará a ser mais organizado e rentável.
2 – Inicialmente a captação dos investimentos através da SAV serão entregues por clubes informalmente falidos para ávidos investidores que procuram pechinchas.
3 – Prioritariamente as entidades esportivas prospectadas serão aquelas com expressiva e grande apelo e apoio popular, objetivando retorno financeiro imediato. Dinheiro para “fundo perdido” apenas se “lavanderia”.
4 – A relação trabalhista entre o novo gestor, professores/treinadores e os jogadores praticantes, serão reavaliados nas condições e menor impacto orçamentário. Quem é dono do dinheiro sabe exatamente o quanto ele custa.
5 – A pretensão e necessidade de conquistar resultados técnicos e financeiros imediatos, incentivará o repatriamento imediato de jogadores brasileiros que atuam pelo mundo do futebol. O futebol brasileiro novamente, como a duas ou três décadas passados, terá dezenas de jogadores atuando por aqui, vindos do futebol sul americano.
6 – A competição para conquista de títulos expressivos, nacionais e internacionais, ficará resumido a um grupo não maior que 15 clubes brasileiros.
7 – Aos pequenos e médios clubes restará “produzir e educar” pretendentes, infantis, juvenis e juniores, para a prática do futebol e futuro balcão de negócios.
Foto – Evolução da Bola de Futebol, nas Copas do Mundo.



