'CompanhIA' nos estudos: professores usam inteligência artificial para estimular raciocínio lógico e crítico
Utilizadas com sabedoria, ferramentas deixam de ser vilãs e viram aliadas dos estudantes

ChatGPT, Gemini, Copilot, Midjourney, Perplexity eram palavras pouco conhecidas até os últimos anos. Recentemente, passaram a ser termos comuns em conversas do cotidiano. São nomes das mais populares ferramentas de inteligência artificial que se tornaram companhia constante de pessoas no trabalho, nos estudos e em atos do cotidiano.
A inteligência artificial, ou apenas IA, como é chamada, é um campo de estudos da ciência da computação que visa treinar máquinas e equipamentos para aprender a executar tarefas que até então dependiam da inteligência humana. A tecnologia reúne, avalia, reorganiza, interpreta e apresenta dados que auxiliam na tomada de decisão. Apesar de sua popularização recente, o conceito é desenvolvido no meio acadêmico desde a década de 50.
“O poder computacional, ou seja, a capacidade dos computadores de ler dados, passou a acompanhar o ritmo da evolução da IA. Eles processam a informação de várias fontes e entregam ao usuário quase instantaneamente. Até então não tínhamos máquinas com capacidade de analisar esses dados com tanta velocidade e isso foi superado, tornando as ferramentas de IA mais acessíveis”, explica Anderson Farias, professor e coordenador dos cursos de Engenharia de Software e Inteligência Artificial da Satc.
Essas tecnologias são abastecidas por diferentes fontes de conteúdo, que podem ser públicos ou privados, por meio de compras de bancos de dados com textos, imagens, vídeos, áudios. As ferramentas são programadas para ler um amplo pacote de informações e apresentar os resultados ao usuário, conforme a sua necessidade.
Os softwares mais famosos e os causadores da disseminação da inteligência artificial, são as IAs do tipo chat, criadas pelas grandes empresas de tecnologia do mundo. Comportando-se como humanos, as máquinas interagem com os internautas e, por meio de comandos, os chamados prompts, são capazes de criar textos, gerar imagens e responder perguntas sobre qualquer tema em minutos.

Alerta para o uso consciente
Apesar de serem consideradas revolucionárias, o uso indiscriminado das ferramentas exige cautela. É que, ao se alimentarem com dados abertos na rede de computadores, os softwares nem sempre apresentam resultados com fontes confiáveis. Dessa forma, o que parecia uma solução prática pode se tornar um problema caso não haja cuidado.
“Nem sempre a inteligência artificial vai entregar uma informação assertiva, pois pode usar dados genéricos. A fonte de pesquisa dessas IAs talvez não sejam apenas sites ou bancos de dados seguros e pode ser que estejamos nos alimentando de um conteúdo que não tenha comprovação científica”, reforça Farias.
O crescimento acelerado no número de usuários de ferramentas de inteligência artificial também faz com que as gigantes de tecnologia do mundo corram atrás da máquina para conseguir demonstrar resultados confiáveis.
“IAs têm período de treinamento. Se a gente pedir um dado mais recente, por exemplo, pode ser que ela não consiga entregar. É recomendável a validação das fontes de dados. É preciso tomar cuidado com as informações que são entregues e fazer sempre uma análise mais apurada”, acrescenta o professor.

A IA na sala de aula
Conviver com as IAs é o desafio moderno da educação. Por ser de fácil acesso e democrática, disponível para qualquer pessoa com acesso à internet, a inteligência artifical chegou nas escolas e se transformou em companheira de estudantes e educadores. Eficiente para apresentar respostas rápidas de pesquisas, ela virou um dos buscadores preferidos dos alunos. Ainda é capaz de resolver exercícios, revisar e sugerir melhorias de conteúdos e oferecer respostas em linguagem natural, a partir de simples instruções.
A TIC Educação, pesquisa sobre uso das tecnologias de informação e comunicação nas escolas brasileiras mostrou o uso expressivo de aplicações de IA em sala de aula. Entre os alunos que usam a internet nos Ensinos Fundamental e Médio, mais de um terço (37%) declarou ter utilizado ferramentas de IA em pesquisas e atividades escolares.
Esse uso já está particularmente disseminado entre estudantes do Ensino Médio. Conforme o levantamento, 70% deles afirmaram já ter utilizado ferramentas de IA generativa para realizar suas tarefas da escola. Entre os alunos dos anos finais do Ensino Fundamental, o percentual é de aproximadamente 40% enquanto entre os alunos dos anos iniciais, atinge 15%. A pesquisa é assinada pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br) e foi publicada em setembro de 2025, com informações referentes ao ano de 2024.
Os dados apontam que a inteligência artificial está presente na rotina também dos professores, com 43% dos docentes do Ensino Fundamental e Médio confirmando que recorreram à tecnologia nos 12 meses anteriores à pesquisa para a preparação de conteúdos didáticos, o que corresponde a cerca de 1 milhão de professores em todo o país. Esse uso é mais frequente entre docentes do Ensino Médio, mais jovens (até 30 anos), homens, atuantes na rede privada e em zonas urbanas.
Uso inevitável
A TIC Educação evidencia que a utilização de IA é quase inevitável. Não à toa o Conselho Nacional de Educação do Brasil (CNE) está discutindo regras para a utilização das ferramentas em unidades de ensino básico e superior. O documento vem sendo discutido pelo Ministério da Educação (MEC), Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) e especialistas na área.
O modelo indica que o avanço da tecnologia faz parte do cotidiano nas escolas e que o uso de IA deve ser integrado ao currículo escolar. A provocação está em transformar a ferramenta em suporte e não substituta do aluno ou do professor.

Para Anderson Farias, a inteligência artificial no ensino veio para ficar e para exigir dos educadores metologias mais criteriosas para avaliações dos alunos. “Uma das preocupações não é apenas com o uso dos nossos alunos, mas a forma que vamos passar a avaliar esses estudantes. Perguntas com respostas diretas, por exemplo, não fazem mais sentido nas avaliações, já que a IA vai entregar isso de maneira muito rápida”, salienta.
Ele enxerga a produtividade como principal benefício da inteligência artificial. Exemplos são softwares programados para organizar informações e entregar apresentações de conteúdo. “O professor não pode mais avaliar pela construção do trabalho, mas pelo teor, conteúdo, linha de pesquisa e argumentação. O principal aspecto positivo da IA é que conseguimos produzir mais e em menos tempo e menos esforço. Agora a informação está instantânea, mas precisa repensar os critérios de validação e avaliação dos trabalhos apresentados”, complementa.
Estímulo para pensar
Diante desse cenário, a proposta dos professores é assumir o protagonismo na mediação do uso da IA, orientando os estudantes para que a utilizem como ferramenta de apoio e não como atalho. O desafio está em estimular o pensamento crítico, a checagem de fontes e a construção autoral do conhecimento, transformando a tecnologia em aliada do aprendizado.
Cabe ao educador propor atividades que incentivem a análise, a comparação de informações e a reflexão sobre as respostas geradas. Se não há como impedir, o jeito é estimular o uso com responsabilidade para as ferramentas serem promotoras de conhecimento sem respostas prontas.
Foi com essa didática que Macsuel De Bona, professor e facilitador de tecnologias inovadoras e criativas no Bairro da Juventude, em Criciúma, adotou o uso da inteligência artificial em suas aulas. O educador desenvolveu o projeto ‘Casa Inteligente’, uma iniciativa que aposta no uso crítico e consciente da tecnologia entre os estudantes de cursos profissionalizantes.
“Além de professor, também sou estudante e utilizo ferramentas de inteligência artificial para auxiliar na organização de ideias. Contudo, notei que meus alunos não utilizavam a ferramenta da melhor forma possível, deixando de lado suas ideias criativas e individuais. Assim surgiu a proposta por trás do meu projeto: mostrar que a IA veio para otimizar o nosso trabalho e não ser uma substituta do pensamento humano”, explica De Bona.
O projeto é realizado com aproximadamente 150 estudantes do Bairro. A proposta é aplicada dentro da disciplina de Ética, Cidadania e Meio Ambiente. Na prática, os alunos foram instigados a desenvolverem animações e conteúdos digitais utilizando as ferramentas de inteligência artificial disponíveis, a partir dos problemas reais no contexto do Bairro da Juventude.

Diferente das lixeiras de coleta seletivas comuns, o Bairro da Juventude possui um modelo adaptado para as atividades realizadas na instituição. O depósito é separado em três recipientes destinados para o descarte exclusivo de papel, de materiais recicláveis e de resíduos orgânicos. Uma das atividades propostas pelo professor, foi que os alunos criassem um audivisual ensinando a todos que circulam pelo local sobre a maneira certa de separar o lixo.
Por se tratar de um formato exclusivo para o Bairro, a tarefa proposta forçou os estudantes a desenvolverem a criatividade e abastecer a inteligência artificial com informações específicas da instituição que não estão em abundância na internet. Dessa forma, somente com o estímulo da mente humana, a IA conseguiu alcançar o resultado esperado.
“A primeira versão do ‘Casa Inteligente’ consistia em os estudantes desenvolverem vídeos de até quatro minutos falando sobre um Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS). No entanto, com o assunto é rico de informações na internet, os estudantes desenvolviam as atividades deixando de lado a criatividade, sendo o foco contrário da iniciativa. Chegamos a ter resultados bacanas, mas decidimos aprimorá-lo. Diante disso, trouxemos demandas do Bairro da Juventude”, conta.
Com início em 2025, a iniciativa já vem colhendo bons resultados pelos corredores da instituição de ensino. O educador ressalta que os estudantes contemplados com o projeto estão enxergando o uso da inteligência artificial com outros olhos, tornando-se cidadãos mais críticos e éticos com uso das ferramentas on-line. Parte das animações chegaram, até mesmo, a ser avaliadas por equipes ligadas à sustentabilidade e gestão institucional, que identificaram potencial para uso dos materiais em ações internas de conscientização e comunicação.
A IA como aliada
Com os resultados obtidos, De Bona admite que não consegue mais separar o uso da inteligência artificial na área da educação. Com base em percepções, o professor frisa que o uso dessas ferramentas estão se popularizando cada vez mais e não devem ser reprimidas nas escolas entre professores e estudantes. “Se estamos utilizando, como vamos falar para nossos estudantes não utilizarem? É um movimento que tem crescido e não tem como voltar atrás”, pontua.

Entretanto, para o uso da inteligência artificial ser benéfico, o professor afirma que é necessário os usuários sempre estimularem seus potenciais criativos e individuais. Dessa forma, antes de utilizarem as tecnologias, é importante os estudantes desenvolverem uma ideia inicial, que valoriza seu pensamento crítico e inovador, sendo o principal desafio do projeto ‘Casa Inteligente’. De acordo com De Bona, as ferramentas não devem ser utilizadas para a criação de ideias, já que fornece somente dados que possuem acesso, não sendo a proposta do projeto.
“Como serei criativo se estou me baseando em algo que já existe? A dica é acreditar na sua criatividade e potencial. Todavia, não podemos fechar nossos olhos e querer reprimir o uso do Chat GPT ou do Gemini. Essas tecnologias estão vindo para nos auxiliarem. O que antes era considerado desgastante e cansativo, agora pode ser otimizado com a inteligência artificial. Na minha opinião, a tecnologia não deve ser vista como vilã, mas como algo que pode nos auxiliar a ter mais qualidade de vida”, destaca.
Reconhecimento estadual
Além dos bons resultados nas salas de aula do Bairro da Juventude, o projeto do docente também foi reconhecido no Prêmio Educador Transformador, uma premiação desenvolvida pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). Inscrito na categoria Metodologias Ativas, o ‘Casa Inteligente’ foi uma das iniciativas pré-selecionadas para a etapa estadual, com outros projetos educativos de Santa Catarina.

“Ser reconhecido por algo que fazemos é sempre um sentimento bacana. Mas eu não lido com isso como se fosse uma competição, pois também quero ver outras iniciativas inspiradoras ganharem espaço. Seja selecionado ou não, meu maior desejo é continuar inspirando novos profissionais, assim como as ideias de outras pessoas também me inspiram. Estamos todos no mesmo time, jogando e batalhando pela educação, onde mostra que o conhecimento pode salvar vidas”, concluiu.
Prazer, Bob!
Em Balneário Rincão, também no Sul de Santa Catarina, a inteligência artificial foi usada ludicamente na sala de aula de uma escola municipal. A ideia foi de Reginaldo Antônio Joaquim, professor de Educação Física do Centro de Educação Infantil (CEI) Sonho Infantil.
Embora seja professor de Educação Física, Joaquim encontrou uma forma de ensinar Matemática de um jeito leve e descontraído para 20 estudantes da Educação Infantil de 4 e 5 anos. O educador foi o criador do Bob, um robô amigável feito de papelões e outros materiais recicláveis, e batizado de “Amigo da Matemática”.

O projeto foi criado em 2025 e, assim como a ação ‘Cidades Inteligentes’ do Bairro da Juventude, também foi uma das iniciativas pré-selecionadas na categoria estadual para o Prêmio Educador Transformador. Com o uso da plataforma Gemini, o robô executa áudios interativos e se comunica diretamente com as crianças, proporcionando um jogo de desafios matemáticos.
“Meu foco principalmente foi mostrar que a Matemática não pode ser considerada um ‘bicho de sete cabeças’. Basicamente, os estudantes da Educação Infantil precisam de um estímulo visual. Com isso, criei o robô para ensinar conceitos básicos da disciplina, como soma, formas geométricas, adição e subtração de uma forma lúdica”, explicou.
Desafios e aprendizados
Apesar de ser considerada uma brincadeira, a interação dos estudantes com o Bob também envolve conceitos pedagógicos. No processo, os alunos participam de quatro desafios baseados na coragem, formas geométricas, adição e subtração. Tudo é feito de forma divertida, participativa e também adequada à faixa etária de cada aluno. Veja como a atividade funciona:
A formação em Educação Física, contudo, fez o professor utilizar conceitos da sua capacitação para o ensino da Matemática. No projeto, o docente aplicou conceitos presentes nas práticas corporais e nos jogos estratégicos, adaptando-os ao ensino da Matemática e promovendo aprendizagem ativa e significativa. Toda interação é feita por meio de prompts de comando, responsáveis por simular uma voz robótica que interage com as crianças.
“O projeto foi estruturado com base em princípios dos jogos de mesa, que envolve estratégia, regras, tomadas de decisão e resolução de problemas. Porém, com o avanço frequente da inteligência artificial, o Bob, Robô Amigo da Matemática, está sempre em constante atualização e em desenvolvimento contínuo na dinâmica de jogo e vínculo com nossos estudantes”, informou.

Depois da ideia inicial, Bob levou somente uma semana para ser criado. Com a ajuda de outra educadora, Joaquim deu vida para um projeto que pode ser único no Brasil. Em pesquisas, o professor encontrou apenas na Coreia do Sul uma atividade semelhante. Com o robô montado, o docente levou aproximadamente quatro meses para formular os comandos necessários para colocar o projeto em prática na escola.
“No momento, o Bob fica somente no Centro de Educação Infantil Sonho Infantil. Porém, quero expandir para outras instituições de ensino de Balneário Rincão ou de outros municípios. Entretanto, o projeto precisa primeiro atingir um grau máximo de maturidade e eficiência. Estou consolidando a metodologia e otimizando cada detalhe, para que, no futuro, ele chegue a outros colegas e alunos de forma impecável”, ressalta.

Alunos aprovam
Joaquim reforça que a inteligência artificial deve ser uma aliada, inclusive dentro das salas de aula. Uma ferramenta que, com o uso feito com ética, pode facilitar e otimizar o processo de aprendizado. Benefícios esses que podem ser vistos na estudante Ana Isis Silva Flor, de 5 anos. O projeto promoveu benefícios e criou um vínculo de amizade entre a estudante e o robô. “Achei muito legal e divertido brincar com o Bob”, diz.
A iniciativa evidencia como a inteligência artificial está cada vez mais presente na rotina e como a interação com essa tecnologia se torna, aos poucos, inevitável. Afinal, até pouco tempo, você imaginaria concluir a leitura de uma matéria recebendo uma mensagem de um robô criado por esse recurso?



































