Do trânsito ao comando militar: mulheres que fazem a diferença no serviço público

Mulheres que atuam no trânsito, na saúde e na segurança pública contam suas trajetórias

Do trânsito ao comando militar: mulheres que fazem a diferença no serviço público
Foto: Fabrício Junior/Portal Engeplus

Em profissões que exigem coragem, liderança e dedicação à comunidade, mulheres têm ocupado cada vez mais espaço no serviço público. Seja organizando o trânsito, promovendo a saúde nas comunidades, comandando tropas ou liderando instituições militares, elas enfrentam desafios diários e ajudam a transformar a realidade da população. No Dia Internacional da Mulher, o Portal Engeplus conta quatro histórias de profissionais que atuam em diferentes frentes do serviço público e mostram como determinação e compromisso têm ampliado a presença feminina em áreas historicamente dominadas por homens.

Daiane Sabino Delfino, de 43 anos, é agente de trânsito em Criciúma há 21 anos. A carreira não iniciou por acaso, ela sempre sonhou em atuar nas ruas. “Em 2002, aos 20 anos, eu cursava o Técnico em Trânsito na Universidade do Extremo Sul Catarinense (Unesc). Havia acabado de concluir o ensino médio, mas já tinha convicção de que queria continuar estudando e construir uma carreira sólida. Sempre soube que desejava me realizar profissionalmente, seja no setor público ou privado, antes de constituir uma família. Esse propósito sempre foi claro para mim e guiou minhas escolhas desde muito jovem”, conta.

Ela iniciou a carreira como agente de trânsito quando foi chamada no concurso realizado em 2002 pela então CriciúmaTrans. “Ao assumir o cargo, passamos por três meses de preparação. Somente após esse período iniciamos as atividades práticas nas ruas e foi ali, no dia a dia da função, que comecei a me apaixonar pela profissão”, detalha.

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Daiane Sabino Delfino atua como agente de trânsito há mais de 21 anos. (Foto: Fabrício Júnior/Portal Engeplus)

Daiane conta que no início a sua jornada foi difícil, pois possuía apenas uma folga durante a semana, atuando na escala 6x1. “Não tínhamos viatura nem sistema de comunicação, e a própria CriciúmaTrans ainda estava em fase de estruturação. Além da fiscalização de veículos, também atuávamos no controle de horários e rotas do transporte coletivo. Muitos colegas desistiram em razão da carga horária e das dificuldades de trabalhar nas ruas”, lembra.

Atualmente, ela trabalha na Diretoria de Trânsito e Transporte (DTT) de Criciúma. “Hoje essa realidade mudou. “Antigamente precisávamos explicar ao cidadão que tínhamos competência legal para atuar no trânsito. Hoje essa realidade mudou significativamente e a maioria da população já reconhece o nosso trabalho”, revela.

A agente de trânsito conta que por ser mulher percebe que condutores tentam prolongar conversas, como por exemplo, ao solicitar a liberação de trânsito em uma via que esteja bloqueada. “Em certos momentos, insistem além do necessário e, por vezes, tentam exercer algum tipo de intimidação. No entanto, quando percebem que a decisão será mantida com firmeza e profissionalismo, acabam seguindo seu trajeto normalmente. Durante as abordagens, também é possível notar uma postura diferente quando a agente de trânsito é mulher. Alguns tentam questionar ou intimidar mais do que fariam diante de um colega homem”, conta.

Daiane garante ser realizada atuando como agente de trânsito. (Foto: Fabrício Júnior/Portal Engeplus)

Situação marcante

Trabalhando há mais de 20 anos como agente de trânsito, Daiane revela que viveu momentos negativos na profissão. “Atualmente, enxergo como parte do processo de amadurecimento profissional. Hoje, esse colega não atua mais no trânsito. Na nossa função, todos os agentes sempre tiveram as mesmas oportunidades de participar de cursos e especializações, independentemente de gênero. Em determinado período, utilizávamos uma Fiat Ducato como viatura e, por possuir mais de oito lugares, ela só poderia ser conduzida por quem tivesse Carteira Nacional de Habilitação (CNH) acima da categoria B. Eu possuía a habilitação exigida e, por isso, fui designada para atuar nessa viatura. Na época, fui escalada para trabalhar com um colega que, após algum tempo, solicitou a troca de dupla, pois relatou sentir-se desconfortável pelo fato de eu poder conduzir o veículo e ele não”, comenta.

‘Encaro meu trabalho com profissionalismo’

Ao ser questionada como lida com a pressão e a responsabilidade no trânsito diariamente, Daiane ressalta que assim como tantas outras mulheres concilia múltiplas responsabilidades diariamente. “Ao vestir o uniforme procuro assumir minha função com total consciência do compromisso que ela representa. Encaro meu trabalho com profissionalismo, coerência e bom senso, buscando, na medida do possível, separar as questões pessoais da responsabilidade que carrego nas ruas. Sei que estou lidando com o patrimônio das pessoas quando atendo um sinistro de trânsito, e que estou lidando com vidas quando trabalho em uma travessia. Por isso, procuro me concentrar ao máximo, agir com equilíbrio e tratar todos com respeito e educação, mesmo quando, fora dali, minha vida também enfrenta desafios”, garante.

Daiane ressalta que a presença feminina é fundamental na fiscalização e na organização do trânsito, assim como em todos os segmentos profissionais. “A mulher traz consigo uma essência naturalmente organizadora, um olhar atento aos detalhes, sensibilidade para perceber situações de risco e uma visão estratégica que contribui muito para a construção de soluções mais equilibradas. Na fiscalização, muitas vezes conseguimos conduzir as abordagens com firmeza e, ao mesmo tempo, com delicadeza. O diálogo costuma ser um grande aliado, especialmente na orientação aos condutores e, principalmente, às condutoras, que muitas vezes se sentem mais acolhidas ao serem atendidas por uma agente mulher. Isso não significa fragilidade, mas sim a capacidade de unir autoridade e empatia na medida certa”, observa.

Momento marcante

A profissional revelou um momento marcante de sua carreira, fato que aconteceu em 2025. “Estava em ronda na avenida Centenário quando presenciei um acidente. Estávamos em três agentes e, como seguíamos no sentido contrário, fizemos o retorno para prestar atendimento. Um veículo havia colidido contra um ônibus. Ao nos aproximarmos, percebemos que dentro do carro havia uma família. Uma das passageiras estava em trabalho de parto, com contrações, a caminho do Hospital Materno-Infantil Santa Catarina. O pai, que conduzia o veículo, acabou se atrapalhando ao tentar acessar a rua do hospital, não visualizou o ônibus e, ao converter à esquerda, ocorreu a colisão. Para mim, o primeiro passo sempre são as pessoas. Ao perceber que ela estava em contração, imediatamente, como mãe, me conectei àquela mulher e ao bebê que estava prestes a nascer. Acionei o socorro e permaneci ao lado dela, segurando sua mão e tentando transmitir calma até a chegada da equipe de atendimento. Todos nós estávamos preocupados, mas senti que, naquele momento, a presença de uma mulher ao lado dela fazia diferença”, lembra.

Daiane é formada em Técnico em Trânsito pela Unesc. (Foto: Fabrício Júnior/Engeplus)

Daiane conta que tentou procurar acolher, tranquilizar e cuidar da família até que ela fosse conduzida para atendimento. “Depois que a situação foi controlada e todos estavam bem, reunimos os pertences dela e do bebê e os levamos até a maternidade. Nunca vou me esquecer desse acidente. Foi um momento que reforçou, para mim, que nossa função vai muito além da fiscalização, é sobre cuidar de vidas, agir com humanidade e estar presente quando as pessoas mais precisam”, acrescenta.

Ao ser questionada sobre igualdade na profissão, Daiane revelou que na Diretoria de Trânsito e Transportes existem pontos positivos, diferentes de outros lugares. “Em relação à remuneração, direitos e oportunidades de capacitação, todos são tratados de forma

igualitária. Homens e mulheres têm acesso às mesmas condições, aos mesmos cursos e às mesmas possibilidades de crescimento. Nesse aspecto, nosso setor demonstra equilíbrio e justiça. Isso não significa que não existam desafios. Quando falamos em cargos de gestão, por exemplo, a presença feminina ainda é menor. Em mais de 20 anos de atuação no trânsito municipal, tivemos apenas duas mulheres ocupando funções de chefia. Acredito que essa é uma construção que acontece de forma gradual, minha visão é que esta administração tem uma visão ampla em relação a gênero para ocupação de cargo de chefia. Cada vez mais mulheres estão preparadas, capacitadas e demonstram liderança, estratégia e responsabilidade para assumir esses espaços. Tenho convicção de que, com o tempo, essa representatividade tende a crescer, sempre com base na competência, no mérito e no compromisso com o serviço público”, observa.

Dia de reflexão

Para Daiane, o Dia Internacional das Mulheres é um momento de reflexão sobre o papel que exercemos na sociedade e sobre a responsabilidade que carregamos em nossas atitudes, especialmente pensando nas gerações futuras. “É um dia de lembrarmos das mulheres que vieram antes de nós e que, com coragem, enfrentaram grandes injustiças para que hoje pudéssemos usufruir dos direitos e conquistas sociais que temos. Mais do que uma data comemorativa, este dia representa a memória, reconhecimento e compromisso de continuar avançando, honrando o legado dessas mulheres e construindo um futuro ainda mais justo para as próximas gerações”, frisa.

“Independentemente da sua escolha de vida, inclusive se decidir se dedicar integralmente ao lar, estude e sonhe. Tire os sonhos do campo dos pensamentos e transforme-os em projetos concretos de vida. Planeje, busque capacitação, prepare-se e acredite no seu potencial. Vale a pena”, pontua.

De agente para agente

Se nas ruas o trabalho é garantir a organização e a segurança no trânsito, nas comunidades a missão é outra: cuidar da saúde e estar próxima da população. É nesse cenário que atua a agente comunitária Juliana Joaquim Pesenti, de 36 anos, responsável por acompanhar de perto a realidade das famílias e orientar sobre prevenção e qualidade de vida.

Juliana em frente à Unidade Básica de Saúde onde trabalha. (Foto: Especial/Engeplus)

A vontade de ajudar as pessoas sempre esteve presente na vida dela. A criciumense encontrou na profissão de agente comunitária de saúde uma forma de estar mais próxima da sua vontade de colaborar com o próximo.

Exercendo a profissão há cinco anos, Juliana atua em uma rotina de proximidade com a comunidade e é responsável pelo elo do serviço público com a população. “ A rotina é como ser ponte viva entre a casa e o cuidado. Eu caminho pelas ruas, mas também pelos bastidores da vida das pessoas. É uma mistura de organização e escuta”, destaca.

A agente, que trabalha na Unidade Básica de Saúde (UBS) do bairro Maria Céu, também é responsável pelo acompanhamento e zelo com gestantes, verifica o cartão de vacina das crianças da comunidade, além de monitorar hipertensos e diabéticos. O trabalho também observa condições de moradia e saneamento e orienta sobre a prevenção de doenças.

Com todas as funções, Juliana reforça o carinho pela profissão e o prazer em atuar como agente comunitária de saúde. “Fazer a diferença na vida das famílias, ter mais vínculo com a comunidade, mas o que também me motiva muito é ver o impacto que alcanço na vida das pessoas. É gratificante perceber o reconhecimento da comunidade em relação ao nosso trabalho”.

A luta da mulher

Em contato constante com a população, Juliana ressalta a importância da luta das mulheres por direitos iguais e por quebras de paradigmas construídos ao longo da história. “Sabemos que é uma luta incessante e interminável em todos os aspectos da vida e que muitas mulheres sofrem silenciosas. A desigualdade está no trabalho, no combate à violência física e doméstica, na educação e na saúde. É uma luta diária, e nós mulheres não podemos desistir de lutar pela igualdade”, afirma.

A agente acredita que o Dia Internacional da Mulher serve como um incentivo às lutas por direitos iguais e deixa um recado para todas as mulheres. “Que o dia 8 de março seja um momento de reconhecimento, respeito e reflexão. Que cada mulher seja valorizada pelo que é. Que sua voz seja ouvida e que você conquiste o seu espaço para mostrar quem você é. Mulheres vocês são inspiração, resistência e amor. Feliz dia da mulher”, destaca.

Por fim, a criciumense faz questão de agradecer por tudo o que já viveu na profissão e por ter alcançado sonhos pessoais e profissionais, como o de poder ajudar as pessoas por meio de sua função. “Hoje sou muito grata pelo que tenho tanto na vida pessoal quanto na profissional. Só peço a Deus que me dê bastante saúde pra cuidar do meu filho e da minha família”, finaliza.

Em 100 anos, a primeira mulher

A presença feminina no serviço público também se destaca em cargos de comando. A Delegacia da Capitania dos Portos em Laguna, da Marinha do Brasil, mostra que a liderança das mulheres também navega em águas antes dominadas por homens.

Mesmo com o espaço conquistado pelas mulheres, a presença delas em algumas funções é inédita. Fundada em 1920, foi somente em 2026, mais de 100 anos depois, que a Delegacia da Capitania dos Portos em Laguna, unidade da Marinha do Brasil no Sul de Santa Catarina, passou a ser comandada por uma militar.

No dia 29 de janeiro, a capitão de corveta Amanda Frascino Paranhos assumiu o cargo depois de 17 anos na instituição. Ela iniciou sua trajetória nas Forças Armadas em 2009, como oficial temporária da Marinha no Rio de Janeiro. Em 2013, passou no concurso para oficial de carreira e depois do curso de formação foi servir no Centro de Instrução Almirante Braz de Aguiar, no Pará, onde ficou cinco anos.

A capitão durante a solenidade de assunção ao cargo de delegada. (Foto: Elvis Palma/Delegacia da Capitania dos Portos de Laguna/Divulgação)

Retornou ao Rio de Janeiro para atuar na Diretoria de Portos e Costas por mais cinco anos. Antes de ser delegada da unidade militar em Laguna, ainda voltou para o Centro de Instrução Almirante Alexandrino, sua primeira organização no estado fluminense ainda no tempo de oficial temporária.

“A minha decisão de ingressar na carreira militar foi motivada pelo desejo de servir ao país em uma instituição sólida, que reúne valores como disciplina, responsabilidade e compromisso com a sociedade. A Marinha do Brasil, em particular, sempre me chamou atenção pela sua importância estratégica para o país e pela diversidade de áreas de atuação. Além disso, a minha formação inicial é Pedagogia, e ter a oportunidade de exercer a minha profissão em uma instituição com valores que se coadunam com os meus, foi o grande motivador”, conta Amanda.

Marinha pioneira na inclusão de mulheres

Com quase duas décadas na Marinha do Brasil, esta é a primeira vez que ela lidera uma unidade da instituição. Para Amanda, o período entre o ingresso na carreira e a sua nomeação como delegada não está ligado ao gênero. A militar avalia ainda que sua trajetória lhe fez superar desafios, mas nenhum deles pelo fato de ser mulher.

“Não enfrentei nenhuma situação mais desafiadora pelo fato de ser mulher. Ao longo da carreira, o mais importante sempre foi demonstrar profissionalismo, preparo e compromisso com a missão. A posição de comando naturalmente traz desafios, porque envolve liderança de equipes, tomada de decisões e grande responsabilidade institucional. Esses desafios fazem parte da própria função e são enfrentados com base na experiência, no diálogo e no conhecimento e respeito às normas”, pontua.

Amanda Frascino Paranhos comanda unidade responsável por 40 municípios (Foto: Delegacia da Capitania dos Portos de Laguna/Divulgação)

Ao mesmo tempo, a capitão reconhece que as mulheres das Forças Armadas, especialmente na Marinha do Brasil, estão ganhando mais espaços e alcançando postos de destaque. Para ela, a instituição demonstra evolução ao confiar às militares as funções de liderança.

“A Marinha foi a primeira das forças armadas do Brasil a integrar mulheres em suas fileiras. Ao longo dos anos, as mulheres passaram a ocupar diferentes funções e níveis de responsabilidade, o que reflete um processo de evolução institucional natural, marcado pelo pioneirismo. Hoje há maior visibilidade da contribuição feminina em áreas técnicas, administrativas e operacionais, sempre com base na formação e na competência profissional”, analisou.

E foi apostando na capacitação que ela se preparou para chegar ao posto onde está hoje. Além de pedagoga, Amanda é turismóloga, com mestrado em Turismo, no qual desenvolveu sua pesquisa voltada ao currículo de formação do condutor de turismo náutico. O tema está relacionado ao desenvolvimento sustentável das regiões costeiras, à qualificação profissional das atividades ligadas ao mar e à autoridade marítima.

“Ao ingressar na carreira militar, o principal objetivo é sempre servir bem à instituição e cumprir as funções atribuídas com dedicação. As oportunidades de liderança surgem como consequência da experiência acumulada, da maturidade profissional e da confiança institucional. Assumir a direção da Delegacia da Capitania dos Portos em Laguna é uma grande honra e, ao mesmo tempo, uma grande responsabilidade”, destaca.



“Mais do que um marco individual”

Nascida no Rio de Janeiro, a militar passou por unidades da Marinha no estado fluminense e no Pará antes de chegar em Santa Catarina. (Fotos: Arquivo pessoal e Delegacia da Capitania dos Portos de Laguna/Divulgação)

Na Delegacia da Capitania dos Portos em Laguna, ela é responsável por 60 militares que atuam em 41 municípios do Litoral Sul de Santa Catarina. A unidade é a autoridade marítima na região, tendo como atribuições resguardar a segurança da navegação, a vida humana no mar, a prevenção da poluição hídrica, a promoção do ensino profissional marítimo, além de manter relação com comunidades costeiras.

Amanda se diz orgulhosa de ser a primeira mulher a liderar a delegacia. Mais do que um reconhecimento profissional, o seu pioneirismo lhe confere o dever de cumprir a missão com o comprometimento exigido pela Marinha do Brasil.

“Recebo essa missão com muito orgulho, mas também com grande senso de responsabilidade. Mais do que um marco individual, vejo esse momento como parte de um processo de evolução institucional da Marinha do Brasil, que valoriza a formação, o mérito e a capacidade profissional. É uma oportunidade de contribuir para o fortalecimento da instituição e de servir a sociedade no Sul catarinense”, comenta.

Uma mulher, uma militar, uma capitão de corveta, uma delegada, uma pedagoga, uma turismóloga, uma líder. Amanda exerce todas essas atividades no dia a dia profissional dividindo espaço com outro encargo tão importante quanto: o de ser mãe.

Casada e com dois filhos de 7 e 10 anos, a militar também conta com o apoio de quem divide a vida para conseguir conciliar suas obrigações. “Não posso dizer que é uma tarefa simples, mas tenho o apoio necessário da minha família, especialmente do meu marido. Posso cumprir as minhas responsabilidades profissionais com a tranquilidade de que os meus filhos estão em um lar seguro e equilibrado, mesmo com a minha ausência em alguns momentos”, falou.

Amanda conta com o apoio familiar para exercer a jornada militar sem deixar as responsabilidades maternas. (Foto: Arquivo pessoal/Divulgação)

O fato de uma mulher comandar a Delegacia da Capitania dos Portos em Laguna com certeza não gera contentamento apenas para os que ela ama, mas também serve de exemplo para quem deseja seguir os mesmos passos. Amanda sabe que o feito carrega um significado que vai além da trajetória individual.

“Naturalmente, momentos como esse podem ter um significado simbólico para outras profissionais que estão construindo suas trajetórias dentro da instituição. Espero que minha experiência possa mostrar que, com dedicação, preparo e comprometimento, é possível alcançar diferentes posições dentro da carreira militar”, avalia.

A capitão acredita que o caminho para liderar equipes é construído ao longo do tempo, com experiência, dedicação e compromisso com o trabalho. O respeito e a credibilidade, segundo ela, são resultados de uma jornada marcada pela responsabilidade e pelo exemplo no ambiente profissional.

Uma mulher à frente da Polícia Militar Ambiental

O protagonismo feminino também está representado na atuação da Polícia Militar Ambiental (PMA) de Maracajá. Natural de Joinville, Brianna Tosetto de Souza é a comandante do 2° Pelotão da 1° Companhia do 1° Batalhão da Polícia Militar Ambiental. Formada em Direito pela Universidade do Vale do Itajaí (Univali), a oficial de 39 anos é a primeira mulher a assumir o comando da unidade em que atua.

Brianna contou que já atuou frente ao comando de duas unidades da Polícia Militar Ambiental, nos municípios de Balneário Camboriú e Maracajá. Em ambas as unidades, a oficial conquistou o feito de ser a primeira mulher a estar à frente do comando. Atualmente, a comandante reside em Araranguá e é casada com outro policial há 14 anos, com quem tem um filho de 6 anos.

Brianna e sua família. (Foto: Divulgação)

“Honestamente, o meu sentimento tratou muito mais da minha capacidade. Se eu era capaz de fazer um bom trabalho, de conseguir gerir pessoas da melhor forma, de proteger o meio ambiente diante das ferramentas a mim dispostas e se eu conseguiria ser justa com meus comandados e ser eficiente aos olhos dos meus comandantes. No geral, tive um sentimento grande de conquistas desde que ingressei na Polícia Militar Ambiental”, conta.

Sentimento de realização profissional

A comandante vive e respira a área policial desde 2008, quando entrou como soldado da Polícia Militar (PM). Posteriormente, seu ano de ingresso como comandante foi em 2017, quando encerrou o curso de formação de oficiais da Polícia Militar de Santa Catarina (PMSC). No comando da Polícia Militar Ambiental, sua função envolve gerenciamento, organização, promover operações, procurar formas mais eficazes de utilizar os recursos disponíveis para a proteção do meio ambiente e articular parcerias.

Brianna já atuou como comandante da Polícia Militar Ambiental também em Balneário Camboriú. (Foto: Divulgação)

“Sempre fui defensora da proteção do meio ambiente. Assim, quando percebi a possibilidade de trabalhar na minha corporação na proteção do meio ambiente, vi que tinha me encontrado. Primeiro fui trabalhar na Polícia Militar Ambiental como soldado, na unidade de Blumenau. Fiquei por dois anos e depois retornei como comandante de Balneário Camboriú e, sucessivamente, na unidade de Maracajá”, relembra.

Diante da paixão em proteger o meio ambiente, o sentimento de realização profissional é uma das principais características que representam a trajetória da comandante à frente do comando da Polícia Militar Ambiental. Seja na soltura de aves ou na preservação de áreas degradadas, Brianna frisou que cada missão cumprida ao lado da sua equipe é um estímulo para sempre buscar coragem para concluir seus objetivos.

“Sempre tive orgulho de ser respeitada pelas minhas capacidades e não pela distinção de gênero na minha corporação. Então, posso dizer que sou privilegiada nesse aspecto, já que sempre obtive, mesmo em uma instituição em que a maioria são homens. Frente ao comando, já tive meus desafios. Entretanto, nunca percebi que fossem ligados à qualidade de ser mulher. Diante disso, nunca sofri nenhum preconceito na profissão somente por ser uma policial feminina”, ressalta.

Inspirações que rompem barreiras na profissão

Embora nunca tenha sofrido nenhuma prática de preconceito, a oficial relembrou as dificuldades durante as abordagens nos serviços ostensivos na época em que atuava na Polícia Militar. Brianna afirmou que os infratores tinham resistência para cumprir determinações de uma policial mulher. Todavia, a comandante destacou que, se for o desejo da mulher ser policial, este sonho deve ser oportunizado, assim como é para os homens.

Comandante Brianna e policiais que atuam na Polícia Militar Ambiental. (Foto: Divulgação)

“Contudo, a mulher precisa estar ciente da função que desempenhará. Além disso, é preciso querer muito, pois a vida do policial militar que está em atividade não é nada fácil. Porém, mulheres assim sempre serão de extrema importância para a área policial, já que precisamos de profissionais com tamanha disposição. Com isso, devido a minha jornada, preciso agradecer a Deus e a minha família. Acredito que a frustração é um dos piores sentimentos que alguém pode ter consigo e eu não o tenho”, pondera.

A comandante vive e respira a área policial desde 2008. (Foto: Divulgação)

Por fim, a oficial destacou a importância da data do Dia Internacional da Mulher e revelou as suas principais inspirações na carreira policial. A comandante destacou que é inspirada por policiais militares mulheres mais antigas, principalmente as que tiveram que enfrentar desafios e obtiveram grandes conquistas.

“O Dia Internacional da Mulher não se trata de uma data para fragilizar um gênero, mas enaltecer os obstáculos superados pelas mulheres que os homens não precisam transpor. Enfim, gostaria de dizer que todas as mulheres são plenamente capazes de conseguirem o que quiserem. Também quero desejar que sejam determinadas e que, sim, o mundo não é justo. Mas não podemos parar de tentar e superar as diferenças que encontramos pelo caminho”, pontua.

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