Raízes da Amazônia: açaí transforma vidas e movimenta negócios em Criciúma

Fruto preserva memórias e gera renda para moradores do Sul catarinense

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Raízes da Amazônia: açaí transforma vidas e movimenta negócios em Criciúma
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Para muitos catarinenses, açaí é sinônimo de sobremesa: gelado, servido com leite em pó, frutas e outros acompanhamentos doces. Para Adilton Ribeiro Gomes, natural de Curralinho (PA), é comida de almoço e jantar. Na mesa da família, o fruto divide espaço com charque, camarão, farinha e até mortadela frita. Há cinco anos vivendo em Criciúma, ele mantém no Sul um costume que também atravessou o país com milhares de nortistas.

Assim como o paraense, cada vez mais pessoas têm encontrado em Criciúma um novo lugar para viver. Segundo o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), aproximadamente 3,1 mil moradores da cidade nasceram na região Norte, o equivalente a 1,46% da população. Em 2010, eram apenas 510, número que cresceu mais de 500% em 12 anos.

Com eles, a cidade recebeu novos costumes, sabores e tradições. Mas como um fruto tão ligado à cultura nortista criou raízes a milhares de quilômetros da Amazônia? Entre histórias de quem percorreu o país em busca de uma nova vida e de quem enxergou no açaí uma oportunidade de negócio, o Portal Engeplus explorou os caminhos que ajudam a explicar como o chamado “ouro preto” ganhou espaço em Criciúma.

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Açaí faz parte da cultura de Gomes e de milhares de nortistas pelo Brasil.(Foto: João Gabriel da Rocha | Portal Engeplus)

Paraense reencontra tradição da colheita do açaí

Pai, açougueiro e coletor, a história de Gomes em Criciúma começou em 2021. Naquele ano, ele percebeu que era hora de deixar a cidade onde nasceu para buscar uma vida melhor ao lado da esposa e dos filhos. “Trabalhávamos com pesca e açaí, mas lá não tinha nenhuma empresa grande. A gente não tinha carteira assinada, não tinha os direitos que aqui a gente tem”, explica.

Em busca de um recomeço, a família vendeu a casa, a moto e outros bens antes de seguir rumo a Santa Catarina, onde já vivia uma irmã de Gomes. Em Criciúma, o paraense encontrou algo familiar ao observar quintais, terrenos e áreas de mata: palmeiras carregadas de açaí.

Isso trouxe de volta um hábito que havia ficado no Pará. Gomes passou a percorrer a cidade de bicicleta e subir nas árvores para colher os frutos e alimentar a família. A tarefa não foi um desafio, já que ele aprendeu a fazer isso ainda garoto, quando ajudava os pais. “Nosso trabalho lá era isso. A minha mãe tem uma área de terra muito grande com plantio de açaí. Desde moleque, com 6 ou 7 anos, eu já subia para apanhar”, relembra.

Paraense aprendeu a subir em árvores ainda criança, quando ajudava os pais.(Foto: João Gabriel da Rocha | Portal Engeplus)

Com o tempo, Gomes criou uma rede de conhecidos, e os moradores passaram a permitir que ele entrasse nos terrenos para fazer a colheita. “Vou pegando um pouquinho em um lugar, um pouquinho no outro. Eles mesmos passaram a avisar: ‘Seu Adilton, tem açaí maduro aqui’. Aí vou lá e pego”, conta.

Com uma peconha, espécie de cinto utilizado para subir em árvores, presa aos pés, o coletor sobe nas palmeiras e retira os cachos de açaí. Já no chão, separa os frutos e os guarda em lonas. Depois, sobe na bicicleta e segue para casa, onde transforma o açaí em alimento para a família.

João Gabriel da Rocha | Portal Engeplus

Em casa, começa uma nova etapa. Gomes retira as impurezas e lava os frutos, que seguem para uma máquina responsável por separar a polpa. “Tem todo um processo de higienização. A gente limpa, lava, coloca na água quente e depois lava na água fria. Daí é que a gente vai bater”, detalha.

O trabalho mantém uma tradição que começou na infância e que hoje continua com a família, mesmo a milhares de quilômetros do Pará. “Lá, para nós, o açaí é o ouro preto. Tem que ter no almoço e na janta do paraense. Depois que peguei conhecimento aqui, não faltou mais em casa. A gente come direto com charque, camarão, farinha e mortadela”, conta.

A esposa, Darlene, é operadora de caixa. Entre os filhos, um trabalha com pintura, outro com lanches e outra como repositora. Cinco anos depois, a família encontrou as oportunidades que buscava, sem deixar para trás algo que sempre esteve presente em sua história. “Na época, não tinha como oferecer uma coisa melhor para eles. Graças a Deus, está dando certo. Tivemos oportunidades e fomos adquirindo conhecimento no município”, pontua.

Agora, Gomes planeja aproveitar as férias para voltar ao Pará pela primeira vez em cinco anos e reencontrar a mãe, ainda em setembro. “Estamos com saudade. Vamos rever a família e os amigos e apanhar um açaízinho para não perder o costume”, acrescenta.

‘Vai sem medo’: uma aposta que nasceu em meio à pandemia

E se o açaí abriu portas para quem veio do Norte, como Gomes, o fruto também mudou os rumos de quem fez o caminho contrário. O gaúcho Elton Nogueira se mudou de Osório (RS) para Criciúma em 2020, acompanhado da esposa, Cristiana, e da filha, de apenas 1 ano e 2 meses. Além da mudança de cidade, ele apostava que conseguiria transformar o açaí em um negócio. Tudo isso em meio à pandemia de Covid-19. Qual era a chance de dar certo?

Nogueira conheceu o açaí da Polpa Norte quando ainda mantinha uma sorveteria no Rio Grande do Sul. Apaixonado pela cremosidade do produto, decidiu incluí-lo no cardápio, e a novidade fez sucesso entre os clientes. “Foi um estrondo. Começou a tomar uma proporção de venda muito grande. Pensei: ‘Bah, preciso montar uma distribuidora desse produto’”, relata.

Movido pelo espírito empreendedor, Nogueira foi questionado sobre em quanto tempo conseguiria montar uma estrutura em Criciúma. A resposta foi direta: um mês. “Foi o que fiz em 2020. Viemos para cá, achamos esse pavilhão e alugamos”, lembra. Assim, nasceu a distribuidora Prime Nutri.

Equipa da Prime Nutri, composta por Cristiane (esquerda), Cristiana (centro) e Elton (direita)(Foto: João Gabriel da Rocha | Portal Engeplus)

Aos poucos, o negócio cresceu

Um mês depois do primeiro pedido, veio a pandemia de Covid-19. Se a incerteza sobre o futuro já era grande, ficou ainda maior. Mas nada disso fez Nogueira e Cristiana deixarem de acreditar. “Ficamos três meses no vermelho, tirando de um fundo pessoal para pagar as contas. Mas ela sempre ficou do meu lado, me apoiando em tudo. Largou pai, mãe e todos que moram lá no Rio Grande do Sul. Viemos para cá acreditando no potencial da Polpa Norte”, relembra.

No quarto mês, sobraram R$ 900 de lucro. No mês seguinte, o resultado melhorou. Aos poucos, o negócio começou a crescer, e o investimento também aumentou. “Tivemos que sair da câmara fria. Depois, ela também ficou pequena. Fomos melhorando devagarinho e nos tornando conhecidos mês a mês”, destaca.

As mensagens começaram a chegar: “Quero trabalhar com o produto de vocês”, “Vou abrir um delivery na minha garagem”, “Vou vender com um trailer, uma carrocinha”. Eram frases que passaram a fazer parte da rotina. O produto que transformou a vida da família também passou a movimentar pequenos negócios em diferentes municípios do Sul catarinense, como Ermo, Meleiro e Siderópolis.

Açaí da Polpa Norte abastece negócios de vários municípios do Sul catarinense.(Foto: João Gabriel da Rocha | Portal Engeplus)

O caminho da distribuição do açaí

De acordo com a Secretaria de Desenvolvimento Agropecuário e da Pesca do Pará (Sedap), o Pará produziu aproximadamente 1,6 milhão de toneladas de açaí em 2022, o equivalente a 93,87% da produção nacional.

É de lá que também vem a matéria-prima utilizada pela Polpa Norte. Comprado em toneladas, o fruto sai de Benevides (PA) e atravessa o país até chegar a Japurá, no interior do Paraná, onde é processado e transformado em uma espécie de sorbet. Depois, segue para Criciúma, onde entra em outra etapa do processo.

“A gente tem uma rede de clientes que chama pelo WhatsApp. Ou um representante na rua que tira o pedido e manda para nós. Faturamos a nota e separamos o produto aqui na câmara fria congelada”, explica.

Embalado em caixas, produto da Polpa Norte sai do Pará e passa pelo Paraná até chegar em Criciúma.(Foto: João Gabriel da Rocha | Portal Engeplus)

Hoje, o principal cliente da Prime Nutri é o setor de food service: açaíterias, sorveterias e outros estabelecimentos que compram o açaí para revendê-lo ao consumidor final. “A gente também vende colher, granola, copos e descartáveis para quem monta açaís no copo. Separamos os secos dos congelados. Fazemos os pedidos hoje e, no outro dia, saímos para fazer as entregas. Os entregadores vão até cada cliente. Uns compram no boleto, outros no Pix. Sempre vendemos para outras empresas”, acrescenta.

Por trás dos resultados e das caixas congeladas, Nogueira destaca que o principal pilar sempre foi a confiança compartilhada com a família, especialmente com Cristiana. “O projeto é meu e coloquei todos ‘no mato’ junto. Falamos: vai dar certo, vamos vencer. Por isso, eu digo: se você acredita em um produto, vai sem medo. Nada é fácil, mas, se tu ficar esperando, realmente não vai acontecer nada. Não desista de si mesmo. Se tu fizer certo, vai dar certo”, afirma.

De mãe solo a empreendedora: a criação do Sabor Paraense

O mesmo fruto colhido por Gomes e que movimenta os negócios da Prime Nutri também ajuda a manter vivo um pedaço do Pará em Criciúma. Desde 2016, o Sabor Paraense reúne nortistas de toda a região que buscam reviver memórias e se reconectar com suas terras natais por meio da comida.

Essa história começou com Jaqueline Silva dos Santos. De uma família humilde de Igarapé-Açu (PA), ela morava em uma casa de barro com telhado de palha. Mudou-se para Belém, onde começou a trabalhar cedo em casas de família. Aos 18 anos, tornou-se mãe solo de uma menina.

Diante da falta de oportunidades, recebeu, por meio de um primo que morava na região, uma proposta para trabalhar em uma empresa de Criciúma. “Vim para cá justamente para uma mudança de vida. Para ela e para nós”, relata.

A garota que acompanhou Jaqueline naquela mudança cresceu junto com a história que a mãe começou a construir em Criciúma. Hoje. aos 19 anos, Eloá Agatha Silva de Santos fala sobre a coragem da Jaqueline ao deixar o Pará em busca de uma nova vida para as duas.

Já com carteira assinada, Jaqueline teve a ideia de criar a loja. Ela começou nas ruas, vendendo bolos e costeletas de caranguejo, até encontrar um espaço fixo onde pudesse reunir diferentes comidas típicas do Pará.

Assim, surgiu o Sabor Paraense, onde o açaí é servido com camarão e farinha de tapioca. “Tudo gira em torno do açaí. Ele é nosso feijão e o carro-chefe da loja. O paraense não se sente completo sem açaí e farinha”, relata.

Além do açaí, creme de cupuaçu, tacacá, vatapá e outros pratos tradicionais fazem parte do cardápio. Muito além da gastronomia, o espaço ajuda moradores a se reconectarem com suas origens, como explica Jaqueline.

Essa memória afetiva também alimenta a vontade das trabalhadoras de continuar o trabalho diariamente. “Eles agradecem: ‘Obrigado por me terem feito voltar ao nosso ‘Parázão’. A gente se sente grata por isso, por estar passando essa experiência para eles’”, acrescenta.

Com clientes de diferentes cidades do Sul catarinense, o Sabor Paraense ainda sonha em crescer e levar esses sabores para cada vez mais pessoas. “Queremos estar presentes em outros lugares. Muitos comentam: ‘Quero uma loja aqui na minha cidade, acompanho vocês’. Vem gente de Tubarão, Cocal do Sul, Urussanga. Nossa, para a gente isso é maravilhoso”, conclui Jaqueline.

Eloá Agatha e Jaqueline na loja Sabor Paraense, em Criciúma.(Foto: João Gabriel da Rocha | Portal Engeplus)

As raízes amazônicas do açaí

Hoje consumido em copos e tigelas, o pequeno fruto roxo surgiu muito antes das sorveterias, academias e redes sociais. Estudos apontam que, ao longo de milhares de anos, os açaizais foram base de sobrevivência para populações ameríndias, que manejavam e consumiam o fruto antes mesmo da chegada dos europeus à Amazônia.

“O açaí teve e ainda tem uma importância muito maior do que imaginam. Em muitas comunidades, o açaí não é sobremesa ou lanche. É parte da refeição e uma importante fonte de energia. Ele está ligado à segurança alimentar e ao cotidiano das famílias da região”, explica o professor Guilherme Alves Elias, pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais (PPGCA) e curador do Herbário Pe. Dr. Raulino Reitz.

Lenda de Iaçá

Essa importância aparece inclusive nas histórias transmitidas de geração em geração. Uma das mais conhecidas é a lenda de Iaçá, associada à origem do fruto. A narrativa conta que uma comunidade indígena enfrentava um grave período de escassez de alimentos. Diante disso, o chefe da tribo teria determinado o sacrifício de crianças recém-nascidas para conter o crescimento da população.

Iaçá, filha do chefe, havia dado à luz uma menina, que também precisou ser sacrificada. “Segundo a lenda, Iaçá passou a sofrer profundamente pela perda da filha. Certa noite, teria visto a criança próxima a uma palmeira. Ao tentar abraçá-la, a visão desapareceu. No dia seguinte, Iaçá foi encontrada morta, olhando para os pequenos frutos escuros da palmeira”, conta Elias.

Os frutos encontrados na palmeira foram recolhidos e passaram a ser utilizados como alimento, ajudando a acabar com a fome da comunidade. “O chefe deu o nome de açaí ao fruto (Iaçá ao contrário), em homenagem à filha. É uma história muito bonita e fortemente associada à cultura regional”, explica.

Lenda de Iaçá explica a origem do nome açaí.(Foto: João Gabriel da Rocha | Portal Engeplus)

Da Amazônia para todo o Brasil

Conforme Elias, o açaí começou a ultrapassar as fronteiras da região amazônica a partir das décadas de 1970 e 1980. Na época, a migração de moradores das áreas rurais para os centros urbanos ajudou a levar o fruto para novos espaços. Já a grande transformação veio na década de 1990, impulsionada pela expansão da tecnologia.

“Como o fruto e a polpa do açaí frescos são muito perecíveis, isso dificultava o transporte por grandes distâncias. O congelamento permitiu que o produto chegasse ao Sudeste e, depois, a outras regiões do país. No Rio de Janeiro, ele encontrou um novo mercado entre praticantes de atividade física, frequentadores de academias e das praias. Nesse processo, o açaí passou a ser misturado com xarope de guaraná, frutas, granola e outros ingredientes. Mais tarde, essa imagem de alimento energético contribuiu para sua expansão internacional, como um superalimento”.
Professor Guilherme Alves Elias.

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Para ele, esse crescimento transformou a história do açaí, mas não apagou a relação cultural do fruto com a Amazônia. “O açaí está ligado à paisagem, ao trabalho, à economia familiar e à transmissão de conhecimentos entre gerações. Tanto que o açaí aparece em festas, músicas, poemas, manifestações artísticas e diferentes representações da Amazônia”, frisa.

Linha do tempo mostra processo de evolução do açaí ao longo dos anos.(Foto: João Gabriel da Rocha | Portal Engeplus)

Açaí fortalece o mercado do Sul de Santa Catarina

A viagem do açaí pelo Brasil criou uma nova cadeia econômica. No Sul de Santa Catarina, o produto gera empregos e abre espaço para pequenos negócios, além de se tornar um elo entre moradores e suas terras natais.

Segundo o economista Ênio Coan, esse “boom” citado pelo professor se deve, em grande parte, ao crescimento da geração fitness, que ajudou a colocar o alimento em evidência. “Ele se espalhou de maneira natural pelo Brasil, acompanhando a onda dos produtos voltados à saúde. A curiosidade dos moradores pelo produto fez o açaí ganhar destaque, mesmo sem ter uma organização por trás, representada pelo Estado do Pará, por exemplo”, frisa.

Além do fator saúde, a própria cor roxa do pequeno fruto contribuiu para sua popularização, como explica Coan. “É uma cor muito chamativa e interessante para efeito de marketing. É até meio engraçado, mas faz parte de todo o conjunto que o açaí representa”, pontua.

De acordo com o economista, apesar de muitas vezes ser colocado lado a lado com o sorvete, o açaí não chega para disputar espaço, mas para agregar ao setor, que cresce especialmente nos meses mais quentes. “Vemos lojas específicas de venda de açaí das mais diversas formas. O setor de sorveteria ganhou um novo produto, um aliado muito importante nessas áreas de lanchonete”, explica.

Açaí não disputa espaço, mas agrega ao setor da sorveteria, afirma economista.(Foto: João Gabriel da Rocha | Portal Engeplus)

Preço e futuro do açaí na mesa dos consumidores

Até chegar ao Sul do Brasil, o açaí percorre milhares de quilômetros e passa por diferentes etapas, o que ajuda a explicar o preço do produto, segundo Coan. “É um produto que não tem mecanismo de cultivo. Tem todo o processo de colheita, tem que subir no pé. Precisa de pessoas especializadas para colher e depois fazer o processo de transformação em suco”, pontua.

Apesar disso, o economista avalia que o preço não é considerado alto diante de todo o processo envolvido. “Ele não é exageradamente caro se levar em consideração que é um produto da natureza. Representa algo produzido naturalmente, sem plantio. É colhido na natureza e é importante para o agronegócio de todo o Brasil”, salienta.

Mais espaço na mesa

Conforme Coan, o açaí tem um ótimo valor agregado na região e ainda há muito espaço para crescer no mercado. Mesmo no Sul, o produto pode ganhar novas formas de consumo e ocupar um espaço ainda maior nas refeições.

“Claro que aqui não tem comparação com o Norte falando de importância para a economia. Lá ele está na mesa, com farofas e tudo isso. Aqui ainda não, mas vai, sem dúvida, se tornar. Vai substituir muito alguns tipos de produtos que acompanham as refeições, como algumas espécies de farofas junto às carnes. É um processo complexo”, garante.

Açaí deve ganhar ainda mais espaço na mesa dos consumidores, projeta economista.(Foto: João Gabriel da Rocha | Portal Engeplus)

Fruto reúne energia e nutrientes importantes para o organismo, explica nutricionista

Não é à toa que o açaí se popularizou por todo o Brasil. Seja como sobremesa ou na refeição dos nortistas, o fruto também se destaca por fazer parte da alimentação de diferentes grupos, desde bodybuilders (atletas focados no fisiculturismo) até pessoas que buscam emagrecer.

De acordo com a nutricionista Karolaine Duminelli, o açaí é rico em antioxidantes com ação anti-inflamatória, além de possuir um leque completo de vitaminas e minerais. “Estudos mostram que ele contribui para a proteção cerebral e cardiovascular, com polifenóis e antocianinas, vitamina E, magnésio, cálcio, potássio, gorduras boas, entre outros”, lista.

Apesar de o açaí ser colocado lado a lado com o sorvete, a nutricionista explica que existem diferenças importantes entre os dois. “O açaí é feito de forma natural e contribui demais para a energia corporal. Já o sorvete é um produto à base de creme de leite, rico em açúcares e gorduras, que não tem nenhum benefício para o corpo”, alerta.

Porém, ela destaca que nem todo açaí encontrado nas sorveterias chega ao consumidor em sua forma pura. Para alcançar o sabor doce e a textura cremosa, o fruto geralmente é combinado com outros ingredientes. “As versões encontradas são misturas de açaí com açúcar, emulsificantes e conservantes, totalmente diferentes do açaí puro”, explica.

Açaí também é consumido com frutas e outros acompanhamentos.(Foto: Magnific | Ilustrativa)

Afinal, como consumir açaí de forma saudável?

Karolaine explica que o açaí pode ser consumido antes ou depois dos treinos, por ser um alimento energético. Contudo, a quantidade depende dos objetivos e das necessidades nutricionais de cada pessoa. “O açaí puro só encontramos em polpa congelada ou no creme puro, geralmente no Norte do país. Tem aspecto arenoso e sabor forte, totalmente diferente do que comemos aqui, que é uma mistura que o transforma em um produto industrializado”, analisa.

Para quem busca emagrecer, por exemplo, a nutricionista sugere misturar o fruto com outros alimentos naturais, potencializando o ganho de energia e os benefícios à saúde. “Eu compraria a polpa de açaí pura e bateria em casa com uma banana madura, alguns morangos e leite. Faria um smoothie delicioso, nutritivo e saudável”, indica Karolaine.

Nutricionista recomenda smoothies de açaí com frutas, como banana e morango.(Foto: João Gabriel da Rocha | Portal Engeplus)

‘Lembro da casa da minha avó’: açaí reconecta moradora às origens

Entre tantas formas de consumir açaí, há quem prefira aquela que aprendeu desde criança. Em Belém (PA), Emily Souza cresceu esperando diariamente a chegada do pai em casa, que trabalhava como entregador de açaí. A mãe era doméstica e a família, humilde. Todos os dias, os irmãos disputavam para saber quem seria o primeiro a encher a tigela.

Emily começou a trabalhar aos 14 anos para conquistar independência financeira e poder comprar as próprias coisas. O tio produzia e vendia sucos naturais, e foi com ele que ela encontrou uma forma de ganhar o próprio dinheiro. “Suco de manga, acerola, cupuaçu, suco de baruci. As pessoas iam comprar e eu atendia”, relembra.

Aos 19 anos, Emily conheceu um rapaz que morava em Criciúma. Diante das dificuldades para encontrar um trabalho formal no Pará, decidiu atravessar o país em busca de uma mudança de vida. “Lá dificilmente se encontra um trabalho de carteira assinada, que vai te dar benefícios. A diferença daqui para lá é muito grande”, destaca.

Emily se mudou do Pará para Criciúma em 2024.(Foto: João Gabriel da Rocha | Portal Engeplus)

‘Bate uma saudade’

Em 2024, Emily chegou a Criciúma. Enquanto se adaptava às novas pessoas, ao clima diferente e ao trabalho, também precisou se acostumar com uma nova forma de consumir açaí. “Aqui é muito estranho. Misturam um monte de coisa que lá não se vê, como granola, leite condensado e Nutella”, comenta.

Acostumada a ver o açaí ao lado de arroz, feijão e peixe, Emily consumia o fruto todos os dias, hábito que ficou para trás após a mudança para o Sul. “Já provei, mas é totalmente diferente. Mesmo assim, bate uma saudade. Lembro da casa da minha avó. Meu avô batia o açaí e já íamos para o almoço com nossa tigelinha”, relata.

Os caminhos pelo Brasil até Criciúma.(Foto: João Gabriel da Rocha | Portal Engeplus)

Hoje, Emily trabalha em uma empresa de tecnologia e mora com o primo, que veio para Santa Catarina após a última viagem dela ao Pará, em março. O pai também deixou o estado e agora trabalha com móveis planejados em Bento Gonçalves (RS), enquanto a mãe segue no Pará. “Estou aumentando a população paraense aqui em Santa Catarina. Espero que minha mãe seja a próxima”, diz.

Desde que se mudou, a moradora voltou três vezes à terra natal e já planeja a próxima viagem, para sentir novamente o gosto da infância e revisitar as risadas no quintal de casa. “Se eu pudesse, estava lá todo fim de semana, mas é muito longe. Para tomar um açaí de verdade, tem que estar no Pará”, finaliza.

Assim como Emily e Gomes, milhares de pessoas deixam suas cidades de origem e encontram em Criciúma um lugar para trabalhar, buscar oportunidades e construir uma nova vida. Seja como alimento, negócio ou memória afetiva, o açaí criou raízes longe da Amazônia e conquistou espaço na mesa dos moradores.

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