Do medo à denúncia: os caminhos que levam proteção às vítimas de violência doméstica

Saiba os sinais e onde buscar ajuda antes que a violência doméstica chegue ao extremo

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Do medo à denúncia: os caminhos que levam proteção às vítimas de violência doméstica
Foto: Rafaela Custódio | Portal Engeplus

“Uma vida toda pela frente”. “Tão nova”. “Uma menina jovem e inteligente”. São frases frequentemente repetidas após casos de feminicídios, como os de Bárbara da Silveira Bagé, Grasiela de Candido, Viviany Silva de Souza e de tantas outras mulheres mortas por quem um dia disseram amar.

Talvez você já tenha falado, escutado ou lido palavras como essas. Mas, para essas mulheres, as histórias foram interrompidas. Seus nomes passam a integrar uma estatística que cresce dia após dia em Santa Catarina: a da violência doméstica e dos feminicídios.

Elas continuam sendo lembradas pelas famílias, pelos amigos e pelas forças de segurança pública. Mas a pergunta permanece: como interromper o ciclo da violência antes que ele chegue ao extremo? Quando é o momento de buscar ajuda? Onde pedir socorro? Como identificar os sinais de um relacionamento abusivo? E, principalmente, quais caminhos estão disponíveis para quem precisa de apoio?

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A partir de agora, o Portal Engeplus apresenta os meios de buscar ajuda e os serviços disponíveis para mulheres que enfrentam situações de violência doméstica, em um momento que pode ser decisivo para preservar uma vida.

Violência doméstica deixa marcas que nem sempre são visíveis. (Foto: Rafaela Custódio | Portal Engeplus)

Quando o medo passa a fazer parte da rotina

Em cativeiro. Não de forma literal. Mas era assim que Maria* sentia viver nos anos em que passou ao lado do ex-companheiro. As cicatrizes no rosto e a gaze ao redor dos dedos da mão não deixam esquecer o que aconteceu. São feridas físicas que representam a dor profunda de viver por anos em um relacionamento em que se é insultada, diminuída e agredida.

O cenário é pior quando se está longe da família, quando se abandona toda uma vida na África, lugares e pessoas conhecidas, para morar em uma terra estrangeira, onde a pessoa é seu único alicerce. Ou, pelo menos, deveria ser. Com filhos. Sozinha. As promessas de um futuro melhor, mais oportunidades e mudanças no comportamento questionável jamais se cumpriram.

Embora agosto tenha sido considerado o mês de conscientização sobre os crimes de violência doméstica, o período encerrou com dados preocupantes sobre o número de feminicídios registrados em Santa Catarina e acendeu um alerta sobre as formas de proteção às mulheres. Com base nos dados da Secretaria de Estado da Segurança Pública, ao longo deste mês, o estado somou mais seis feminicídios.

Desse número, quatro aconteceram em cidades do Sul catarinense, sendo duas somente no município de Criciúma. Os dados do órgão apontam que, desde janeiro de 2026, foram registradas 38 vítimas de feminicídio, sendo nove ocorrências na região. O número representa um aumento de 26,7% no número de mortes em relação ao mesmo período de 2025.

O medo

A violência cresceu e foi normalizada antes de chegar à agressão física mais grave. Segundo Maria*, houve sinais desde o início, mas, por considerá-los pequenos, ela decidiu ignorá-los. Com quase 30 anos, veio para o Brasil viver com o companheiro. Antes da mudança, a agressão era verbal. Porém, logo nos primeiros meses de convivência, os comportamentos agressivos começaram a aparecer e, após seis meses, vieram os espancamentos. Três anos se passaram até que ela conseguisse pedir ajuda.

“Eu estava com medo. Fiquei anos com ele por medo de denunciar. Medo de não conseguir sustentar meus filhos. Ele costumava falar que, se eu saísse de casa, perderia as crianças. Isso aumentava meu medo, sabia que eu não viveria longe delas. Quando tive a medida protetiva, também senti medo de colocá-lo para fora de casa e recuei”, relata.

Vítima denunciou o ex-companheiro após um episódio de agressão física em que teve os dedos da mão quebrados. (Foto: Ariadne Marcelino | Portal Engeplus)

Antes disso, era rotineiro Maria ter planos pessoais e profissionais desestimulados pelo companheiro. Ela conta que, quando chegou ao Brasil, deixou para trás os estudos que fazia em seu país e tentou retomar a faculdade, mas não encontrou apoio. Pelo contrário, ele desvalorizava seus sonhos e dizia que deveria buscar coisas “pequenas” para fazer, em vez de sonhar “grande”. Mesmo com a insistência para realizar seus planejamentos, a falta de suporte criou barreiras que a impediram de seguir em frente.

Contudo, determinados fatores acenderam um alerta e a motivaram a procurar a polícia. Ela conta que a sensação de não se sentir em casa foi um dos primeiros sinais, mas, principalmente, as agressões que os filhos passaram a sofrer também. O desejo de que as crianças crescessem em um lar bom e seguro foi maior do que aquilo que ela vinha suportando. Agressões, humilhações e ameaças diárias durante meses. O momento decisivo para a denúncia aconteceu após um episódio de agressão física no fim de julho, quando o ex-companheiro quebrou-lhe os dedos da mão.

“É necessário ser forte para tomar essa decisão. Você não sabe quanto tempo Deus deu para você viver, então precisa decidir ir para a frente. Não é fácil, mas é melhor decidir ir para a frente. Todo começo é difícil, mas você precisa decidir começar hoje. No começo, vários sinais te mostram, mas você diz para si mesma que vai passar, na frente vai dar certo, ele vai mudar… Ele não muda. E você não pode mudar uma pessoa. Se insistir em tentar mudar ele, você pode perder a sua vida”, reflete.

O caso de Maria chegou à delegacia e uma medida protetiva foi concedida. Ela conta que chegou a recuar por medo e pensou em cancelar o pedido, mas foi orientada de que havia outras formas de proteção. Decidida a recomeçar, seguiu as orientações recebidas. Hoje, ela mora em uma casa de acolhimento com outras mulheres que viveram situações parecidas. Diz que voltou a se sentir segura. Mais forte. E livre.

“Eu não sabia que existia essa possibilidade para proteger uma mulher na dificuldade. Aqui me sinto em casa, todos vivem como se fosse uma família. Com essa força, eu sei que vai dar tudo certo. E meu sonho é grande. Estou sonhando em estudar e ajudar as mulheres que passam por esse mesmo problema que eu estou passando. Mais para frente, é isso que eu quero fazer: ajudar as mulheres”, encerra.

A história acima é a de uma mulher que conseguiu romper o ciclo de violência doméstica. No entanto, a realidade foi diferente para Bárbara da Silveira Bagé (Balneário Rincão), Jádna Custódio Ferreira Vieira (Araranguá), Tateana Marcos Medeiros (Braço do Norte), Eduarda Perovano Salvaro (Criciúma), Grasiela de Candido (Criciúma), Luana Mendes Darella (Criciúma), Neide Pavan Vieira (Criciúma), Joviana Evelyn Iankovski (Sangão) e Viviany Silva de Souza (Imbituba), que foram vítimas de feminicídio em cidades do Sul catarinense somente em 2026.

Da esquerda para a direita: Bárbara, Jádna e Tateana | Segundo fileira: Eduarda, Grasiela e Luana | Terceira fileira: Neide, Joviana e Viviany Silva de Souza. (Foto: Divulgação | Portal Engeplus)

Espaço seguro e acolhedor

Em Criciúma, a rede de assistência às mulheres vítimas de violência doméstica é ampliada com a Casa de Acolhimento. Como última instância, o espaço é voltado para vítimas com risco de morte, que não possuem subsídio ou um familiar e conhecido próximo ao qual ela possa recorrer. A casa foi inaugurada em 27 de julho de 2026 e, desde então, quatro mulheres já foram acolhidas.

De acordo com a secretária municipal de Assistência Social, Dudi Sônego, anteriormente o município oferecia acolhimento nesses casos de forma improvisada, em quartos de hotel. A equipe técnica do Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas) fazia os encaminhamentos necessários, mas, depois, a mulher permanecia no hotel com os filhos, sem a estrutura de uma equipe instalada no mesmo espaço.

“O ideal seria não precisar desse serviço, mas sabemos que essa não é a nossa realidade. Com a Casa de Acolhimento temos todo um diferencial de atendimento. É diferente de um hotel. Aqui é uma casa, as crianças têm espaço para correr e brincar, as mulheres têm o seu banheiro e uma cozinha. E elas têm um tempo com a equipe técnica, que também atua em plantões. Neste espaço mais acolhedor e protetivo, elas se sentem mais seguras e à vontade para conversar. É diferenciado”, conta.

Secretária Municipal de Assistência Social de Criciúma, Dudi Sônego. (Foto: Rafaela Custódio | Portal Engeplus)

Segundo Dudi, o objetivo não é apenas garantir proteção durante o período de acolhimento, mas criar condições para que a mulher consiga sair dele. As crianças continuam estudando e recebem acompanhamento protetivo pela equipe de Assistência Social. As mulheres podem receber apoio na busca de emprego, elaboração de currículo e acesso a programas de moradia, como o aluguel social, além de encaminhamentos para atendimento psicológico e de saúde geral. A ideia é que a casa funcione como um ponto de partida para a reconstrução da vida e não como destino permanente.

“Não há um tempo médio de permanência. Cada mulher fica o tempo necessário para que consiga, de fato, sair e recomeçar a vida com segurança, confiança e força para seguir lá fora. Atuando diretamente com elas, identificamos que os principais desafios nesse recomeço são a dependência financeira e o medo de não conseguir sustentar e cuidar dos filhos sem o companheiro. Tudo isso é trabalhado aqui para mostrar que elas conseguem ter um recomeço”, destaca.

Portal Engeplus · Rede de proteção às vítimas de violência doméstica vai além

Já o desafio da Assistência Social é fazer com que essa rede de proteção seja conhecida antes que a violência chegue ao extremo. Dudi chama a atenção para um dado observado no acompanhamento dos casos: nem todas as mulheres que sofrem violência chegam aos serviços públicos. Segundo ela, um caso recente de feminicídio registrado em Criciúma não havia passado pelo Creas.

“O problema é muito maior do que a gente imagina. Enquanto a mulher está em acompanhamento e conhecemos a situação dela, conseguimos evitar que algo aconteça ou, se ela precisa sair de casa, garantir um abrigo. Mas muitas situações de feminicídio nem passam pelo nosso serviço. Por isso, é importante que elas conheçam a rede de apoio que está à disposição delas”, frisa.

As diferentes faces do crime

Características e como diferenciá-las.(Foto: Rafaela Custódio | Portal Engeplus)

Uma das principais vertentes de atuação em crimes dessa categoria é mostrar que as vítimas são, de fato, vítimas e que estão vivenciando um ciclo vicioso de violência. Somente entre os meses de janeiro e agosto, os dados da Polícia Militar (PM) já somam 517 casos de violência doméstica registrados em 2026, em Criciúma. Em comparação ao ano passado, o comandante do 9º Batalhão de Polícia Militar (BPM), tenente-coronel Mário Luiz da Silva, aponta que não houve acréscimo nem redução no número de crimes no município.

“Quando falamos de violência doméstica, não podemos nos restringir a pensar somente no feminicídio. A violência começa muito antes do feminicídio. Inicia-se com a violência psicológica: é o xingamento, a perseguição, o ciúme exacerbado, as ofensas e as gritarias. E há um escalonamento até chegar ao feminicídio. Nenhuma violência doméstica, nenhuma, começa com o ato de feminicídio. O feminicídio é considerado o desfecho fatal. Tudo começa de forma antecedente”, afirmou.

Sancionada em 7 de agosto de 2006, a Lei Maria da Penha cria mecanismos para prevenir e coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher. A violência doméstica e familiar é caracterizada em seis diferentes tipos: física, psicológica, moral, patrimonial, sexual e, por último e mais recente, vicária (confira os detalhes na imagem ao lado esquerdo).

Dentre todas as formas de violência e as vertentes de atuação disponíveis, Silva ressalta que a maior dificuldade e o principal desafio são romper o ciclo de violência em que a mulher está inserida, o que exige um trabalho contínuo com as vítimas. Segundo o comandante do 9º BPM, o primeiro ponto é realizar um processo de conscientização. O segundo é proteger a vítima. E, com isso, como terceiro passo, retirá-la do ciclo de violência, caso não consiga sair sozinha.

“Nós temos a primeira frente de atuação, que é a repressiva. É aquela frente emergencial, em que a mulher que está sendo vítima de violência doméstica liga para a emergência (190) ou aciona o botão de pânico da Polícia Militar. Essa é a nossa principal forma de atuação no dia a dia, a forma mais clássica. Nosso foco é ir resgatá-la, tirá-la dessa situação de risco, protegê-la para que o crime não se consuma ou, se o crime já se consumou, prender o agressor e retirá-la daquele contexto de crise”, informa.

Das medidas protetivas ao botão de pânico

Porém, como funciona o acionamento do botão de pânico? O comandante explica que, para as mulheres terem acesso à plataforma, é necessário ter a seu favor medidas protetivas de urgência, que são deferidas pelo magistrado quando elas estão em uma situação de violência doméstica. Basicamente, as vítimas procuram o Poder Judiciário e pedem para que sejam fixadas as medidas.

“Após serem deferidas, o Poder Judiciário encaminha essa informação para a Polícia Militar, já que temos um link de atuação com a Rede Catarina. A partir deste momento, as vítimas são inseridas neste programa e, diante disso, passam a ser visitadas por nossos policiais militares, onde são acompanhadas até quando desejarem. Entretanto, a depender do nível de gravidade da situação, entre a vítima e o agressor, é disponibilizado o Botão de Pânico. Ou seja, a plataforma não é para qualquer caso. No momento, aproximadamente 530 mulheres utilizaram a plataforma de segurança”, ressalta.

Antes de ter acesso a plataforma, é necessário fazer o download do aplicativo PMSC Cidadão, disponível para Android e IOS. Em uma situação de pânico diante de um agressor, a vítima acionará o botão, que vai disparar um sinal para a viatura da Polícia Militar mais próxima do local do crime. Os policiais militares receberão o aviso pelo tablet da viatura e se deslocarão o mais rápido possível para oferecer assistência.

Botão de pânico é uma das formas de prevenção à violência doméstica. (Foto: Secom | Arquivo | Divulgação)
Programa foi criado em 2017 em Criciúma. (Foto: PM | Divulgação)

Rede Catarina, um case de sucesso em Criciúma

Além do ‘Botão de Pânico’, outra vertente de atuação da Polícia Militar é o programa Rede Catarina. Criada em 2017, mais de 3 mil mulheres já foram atendidas em mais de dez anos de atuação em Criciúma. Hoje, aproximadamente mil mulheres estão sendo acolhidas pelo projeto no município. O foco do programa, conforme o tenente-coronel, é um trabalho informativo para a vítima, onde se destaca o contexto de violência doméstica e as formas de prevenção disponíveis.

“Em outras palavras, é uma atividade preventiva para evitar que a violência doméstica aconteça. Hoje, o programa Rede Catarina opera com dois policiais militares, onde um dos atuantes é uma policial militar feminina, já que faz parte do nosso protocolo de atuação. Estamos há quase uma década atuando aqui na cidade de Criciúma e milhares de mulheres já passaram e foram assistidas por este programa. Com isso, indubitavelmente, determinados feminicídios deixaram de acontecer por conta dessa atuação”, frisa.

No geral, o Programa Rede Catarina dispõe de várias frentes de ações em Criciúma. A dupla de policiais militares desenvolve encontros com as vítimas, palestras com os agressores, explicações sobre violência nas escolas e também em empresas e grupos que solicitam a atuação do projeto. “Diante disso, atuamos de forma multifacetada com o escopo único de realizar, trazer e promover a proteção da mulher”, pontua.

Apuração dos crimes

Delegada Ana Elisa Vargas de Souza. (Foto: Rafaela Custódio | Portal Engeplus)

Após o atendimento da Polícia Militar, entra a atuação da Polícia Civil, que age principalmente na investigação dos crimes. A finalidade é buscar responsabilizar o agressor, apurando as circunstâncias e autoria do crime. Conforme a delegada titular da Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (Deam), Ana Elisa Vargas de Souza, a Polícia Civil recebeu em Criciúma o registro de mais de 1,1 mil boletins de ocorrência de crimes de violência doméstica somente em 2026.

“Quando acontece uma situação de emergência, a Polícia Militar deve ser acionada pelo 190. Porém, nesses casos, as vítimas podem ir diretamente na delegacia e fazer o registro de um boletim de ocorrência ou fazer o registro de maneira virtual. Entretanto, isso não significa que todos os registros de boletins de ocorrência que recebemos neste ano estão em processo de investigação, pois antes de tudo é feito uma análise”, conta.

Devido a esses crimes, a Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher executa um atendimento mais direcionado à proteção às vítimas. Anteriormente, os atendimentos eram feitos pela Delegacia de Proteção à Criança, ao Adolescente, à Mulher e ao Idoso (Dpcami). Contudo, após uma divisão formalizada em março de 2026, os atendimentos às mulheres e às crianças, adolescentes e idosos foram individualizadas em suas diferentes delegacias em Criciúma. Para a delegada, é uma forma de dar uma resposta maior à sociedade.

Polícia Civil atua no processo de investigação dos crimes e responsabilização dos agressores. (Foto: Rafaela Custódio | Portal Engeplus)

Conscientização das mulheres

Em decorrência do Agosto Lilás, mês de conscientização ao combate aos crimes de violência doméstica, Ana Elisa também enfatizou que é uma conscientização que não deve ocorrer somente no mês de agosto, mas ao longo de todo ano, devido à gravidade e aumento dos crimes. A Polícia Civil, por exemplo, ao longo do último mês desenvolveu campanhas em Criciúma e região, realizando palestras e entrega de panfletos com o foco de proporcionar orientações às vítimas e os métodos de denúncias.

O papel da OAB

OAB por Elas é desenvolvida desde 2018. (Foto: Rafaela Custódio | Portal Engeplus)

Além das forças de segurança, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) também desempenha funções importantes no combate aos crimes de violência doméstica. Iniciado em 2018 no município de Balneário Camboriú, um projeto vem levando atendimento especializado, com práticas de orientações e deferimento de medidas protetivas de urgência para as vítimas em Santa Catarina. Intitulada OAB Por Elas, a iniciativa tem 40 salas espalhadas pelas 54 subseções do estado.

Em Criciúma não é diferente, o projeto também é desenvolvido na Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam), em parceria com a Polícia Civil. Conforme a vice-presidente da OAB Subseção Criciúma, Janaína Alfredo da Rosa, todo atendimento humanizado é feito em uma sala especializada no local, principalmente para as vítimas não precisarem aguardar o atendimento de outras ocorrências para solicitarem ajuda. São dez plantonistas, advogadas e especializadas no atendimento à vítimas de crimes de violência doméstica.

“Todo atendimento é feito de forma voluntária, já que temos uma preocupação gigantesca com os números de feminicídios registrados no município de Criciúma. Recentemente, completamos o quarto feminicídio em 2026 na cidade e precisamos trabalhar para que este número não aumente cada vez mais. Todo atendimento feito pelo OAB Por Elas pode ser realizado antes ou depois do boletim de ocorrência. O plantão ocorre de segunda a quinta-feira, das 13 às 17 horas”, explica.

Janaína Alfredo da Rosa, vice-presidenta da OAB Subseção Criciúma. (Foto: Rafaela Custódio | Portal Engeplus)

Um forma de orientação

Conforme os dados da Ordem dos Advogados do Brasil, somente em Criciúma o projeto atendeu aproximadamente 135 mulheres, onde 32 tiveram medidas protetivas de urgência decretadas somente no primeiro semestre de 2026. Já no segundo semestre, entre 20 de julho até 20 de agosto, foram 15 mulheres atendidas, onde sete vítimas tiveram medidas protetivas de urgência deferidas. Embora uma das principais funções seja a busca pela medida, Janaina enfatiza que a OAB por Elas é uma forma de orientação.

“É difícil para uma vítima de violência doméstica sair de casa e pedir uma medida protetiva de urgência. Diante disso, precisamos desenvolver um atendimento especializado para darmos toda orientação. Posteriormente, a plantonista também acompanhada toda a medida e oferece o telefone da OAB Por Elas (48) 3437-0241 para dar mais segurança à vítima. No geral, a medida protetiva não tem prazo, permanece enquanto a mulher se sinta ameaçada”, explana.

As plantonistas também tiram dúvidas sobre questões familiares entre vítima e companheiro e explicam mais sobre as diferentes formas de prevenção e proteção às mulheres, estabelecidas na Lei Maria da Penha. Uma delas, conforme a vice-presidente, é a Lei Municipal Parada Segura de 2016, que oferece um tratamento especializado para mulheres que utilizam o transporte público entre às 22 e 5 horas. Veja como funciona o projeto:

Apesar das vítimas serem o principal foco, um serviço educacional para prevenir atos de violência também é levado para o público masculino, como é o caso das ações desenvolvidas pelo OAB vai a Escola. Por meio deste projeto, é realizado um trabalho com os estudantes para prevenir possíveis agressões futuras e mudar a realidade de determinadas famílias desde as séries iniciais, já que, em caso de agressões, há penalidades severas para os autores. Confira as principais:

Núcleo de Atendimento às Vítimas

Projeto iniciou em Criciúma há dois anos. (Foto: Rafaela Custódio | Portal Engeplus)

Com o projeto Núcleo de Atendimento às Vítimas (NAVIT), o Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) também faz parte desta rede de proteção. Embora tenha iniciado somente em Florianópolis, o projeto se regionalizou e passou a ser desenvolvido em Criciúma há dois anos. O foco da iniciativa é garantir apoio humanizado, informação, orientação jurídica, proteção, acesso à Justiça e encaminhamento para atendimento psicossocial e de saúde.

A ideia do NAVIT nasceu da junção de determinadas forças de Justiça de Florianópolis. A partir disso, foram criados e implementados outros 11 núcleos para atender toda região de Santa Catarina. Em Criciúma, o projeto conta com uma sala localizada no Fórum, nas dependências do Ministério Público (MP). Porém, a iniciativa não é somente destinada para vítimas de violência doméstica, mas crimes em geral, com o foco principal em vítimas de crimes violentos.

O NAVIT não tem a finalidade de prestar serviços, mas de firmar parcerias. Com isso, serve como um grande interlocutor para direcionar para quem poderá fazê-lo. No entanto, a ideia do Núcleo de Atendimento às Vítimas não é sobrepor qualquer serviço que já esteja sendo efetivado no município. Conforme o promotor de Justiça e coordenador do NAVIT Sul, Samuel Dal Farra Naspolini, a iniciativa é considerada um movimento nacional incentivado pelo Conselho Nacional do Ministério Público e começou a criar núcleos em Santa Catarina, a partir de 2020.

“Vítimas especialmente vulneráveis ou por questão de renda, por questão de idade, questões pessoais, esse vai ser o nosso foco inicial. Pela experiência do NAVIT na capital catarinense, o maior número de atendimentos, de fato, está na violência doméstica e, por isso, eu sou o promotor da violência doméstica aqui na comarca, essa aproximação é natural. Mas não apenas isso, vítimas de outros crimes podem procurar também o apoio do NAVIT, por exemplo, para obter informações, para obter dados a respeito do seu processo. O foco são as vítimas de crimes violentos e que precisam, pela sua condição pessoal, de um apoio especial”, comenta.

Promotor de Justiça, Samuel Dal Farra Naspolini é o coordenador do NAVIT Sul. (Foto: Rafaela Custódio | Portal Engeplus)

Qual o momento de buscar ajuda?

Um dos principais desafios para as mulheres que estão inseridas em um ciclo de violência doméstica é saber qual o momento ideal para procurar ajuda, seja de familiares ou de profissionais especializados. Pós-graduado em Psicologia Clínica e especialista em Terapia Sistêmica, o psicólogo Cleyton Demétrio declara que é necessário um alerta por parte das vítimas já nos primeiros sinais de violências, como física, psicológica ou patrimonial.

“A ajuda psicológica, familiar ou jurídica deve acontecer quando a vítima identificar que exista por parte do seu parceiro um inclinação ao controle excessivo. Por exemplo, um comportamento que não é saudável, seja de oprimir ou subjugá-la. Caso isso aconteça, é o momento de ter uma preocupação maior para evitar que este ciclo de violência cresça para uma vias de fato, sendo um passo pequeno para o feminicídio”, aponta.

No entanto, a maior dificuldade está em a vítima perceber essa inserção em um ciclo de violência. Demétrio aponta que isso aconteceu devido a dificuldade de compreensão em relação ao comportamento do companheiro, devido a episódios de carinho e afeto e até demonstrações de arrependimento após um ato de violência. Devido à falta de compreensão, o psicólogo afirma que a vítima enxerga como um comportamento aceitável.

“São diferentes comportamentos que podemos identificar quando as vítimas estão inseridas em um ciclo de violência. Diferente da física, onde podemos ver os hematomas, é comum que as pessoas comecem a se afastar das suas relações, como amizades e colegas de trabalhos, além de cancelar compromissos sociais e de lazer por conta do controle do companheiro. Além disso, é comum que se tornem hipervigilantes e ansiosas, onde estão com medo de algo ruim acontecer o tempo todo”, lembra.

Ajuda, proteção e apoio

Em primeiro momento, o psicólogo detalha que as mulheres não buscam ajuda por estar em uma situação de violência doméstica. Os primeiros sinais são voltados para questões como instabilidade emocional, ansiedade e baixa autoestima. Diante disso, em relação a esses tipos de comportamentos, o alerta de pessoas e apoio próximas, além de profissionais capacitados, também é essencial. Entretanto, como oferecer ajuda? Demétrio estabelece determinadas maneiras de mostrar formas de preocupação e cuidados de maneira cautelosa. Ouça:

Portal Engeplus · Psicólogo elenca formas de suporte às vítimas de violência doméstica

O psicólogo também enfatiza que é importante ficar atento às pessoas que apresentam tristeza recorrente, medo de estar em ambientes públicos, cuidam da maneira de falar e das roupas que vão usar, além de apresentarem um comportamento diferente na frente de outras pessoas. Esses podem ser sinais de que existe algum tipo de controle. “Posteriormente, caso exista algo mais grave, os hematomas costumam aparecer com determinado argumento justificando”, reforça.

Em caso de ocorrência, procure os canais de ajuda. Quando a situação é uma emergência, a Polícia Militar pode ser acionada por meio do 190. Boletins de ocorrência podem ser registrados diretamente na delegacia ou no formato on-line. Outra possibilidade é a denúncia anônima, que pode ser feita pelos canais oficiais Disque 100 ou 181, da Polícia Civil.

*O nome utilizado na matéria é fictício para preservar a segurança e a proteção da vítima.

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