Do protagonismo ao esquecimento: a transformação da relação de Criciúma com seu rio

Mesmo 'escondido', principal curso d’água do município possui condições de ser recuperado

Do protagonismo ao esquecimento: a transformação da relação de Criciúma com seu rio
Foto: Fabrício Júnior/Portal Engeplus

Por conta da abundância do capim Cresciúma em seu território, o maior município do Sul de Santa Catarina recebeu o nome de Criciúma. A vegetação Kyruy-Syiuâ, que significa “taquara pequena” em Tupi, não só batizou a cidade, mas também nomeou o principal curso d’água que a corta. A relação histórica do município com o rio, porém, não seguiu com a mesma reverência.

Entre o fim do século XIX e o início do século XX, o rio Criciúma era fundamental para a vida cotidiana e para estabelecer núcleos coloniais majoritariamente europeus. Na água, matava-se a sede de homens e animais, tomava-se banho, pescava-se, lavavam-se roupas. O fluxo da água era utilizado para mover moinhos e colocar em funcionamento engenhos e atafonas que tocavam as primeiras indústrias de manufatura da cidade, além de possibilitar a produção de suprimentos para a subsistência.

A imigração, porém, ao mesmo tempo que impulsionou a economia regional, principalmente com a exploração do carvão, fez a relação entre sociedade e rio ganhar um novo percurso. Com mais atividades econômicas, maior a exploração de áreas ambientais sensíveis, mais amplo o crescimento urbano desordenado e menor importância dada para o rio.

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Mais prédios, menos rio

O aumento do número de edificações avançou sobre o leito do rio e fez com que ele se tornasse o destino inadequado para os esgotos domésticos, para resíduos industriais, para o lixo e para a acidez dos rejeitos de carvão.

É o que narra o livro “Rio Criciúma: o rio que a cidade escondeu”, da geógrafa Rose Maria Adami. Na obra, a pesquisadora conta que na década de 1950 a população e os jornais da época já apontavam que o rio ao ar livre interferia na saúde pública, pelo fato do mau cheiro dos efluentes ali depositados. A sociedade almejava a alteração do trajeto do leito (retirando curvas) e o seu recobrimento.

“A paisagem do rio foi modificada por três processos socioeconômicos bem definidos. Primeiro, o modelo colonizador definia o rio como limitador das propriedades. A partir dele eram feitas as medições das terras que eram desmatadas para agricultura e para dar acesso até na água”, conta Rose. “De 1930 a 1960, vem o fator da exploração do carvão. Os mineradores usavam o rio para a lavagem do carvão. E com o crescimento das vilas dos trabalhadores, veio a questão da falta de saneamento, com depósito de esgoto das casas na água”, emenda a pesquisadora.

O historiador Carlos Renato Carola, corrobora a visão da geógrafa. Para ele, a exploração do mineral deixou heranças ruins para o meio ambiente de Santa Catarina, que impactam a qualidade da fauna, da flora e das águas até os dias atuais. Carola critica a visão de progresso e desenvolvimento dada ao carvão.

Imagem da década de 20 mostra o rio Criciúma à mostra aos fundos do Café São Paulo, a rua Conselheiro João Zanette, na Praça Nereu Ramos - Foto: Coleção Zapelini/Acervo fotográfico/Cedoc Unesc

“O impacto do carvão é destrutivo. O legado de poluição vai perdurar por vários séculos. A dívida desse setor com a nossa região é impagável. No caso do rio Criciúma, à medida que a mineração vai se efetivando, o desprezo pela água também vai sendo construído. Se, no início do século XX, os rios eram importantes para a vida, depois eles passam a perder essa relação de convivência com a população em razão da poluição e, consequentemente, passam a ser vistos como um problema”.

Carlos Renato Carola, historiador

Rose aponta ainda um terceiro momento que impactou a qualidade do mais importante curso d’água de Criciúma, que ela classifica como o avanço acelerado da construção civil. “A partir de 1960 até 2012, quando realizei a pesquisa, mas que permanece até hoje, há o reflexo das construções. As estruturas passaram a ocupar não só as margens, mas o próprio leito do rio. Portanto, não houve respeito nem fiscalização adequados para impedir a ocupação do rio e de seus afluentes”, acrescenta.

Uma esperança que durou pouco

Os arquivos históricos demonstram que houve tentativas de projetos para manter o rio com seu leito preservado e como parte da paisagem criciumense. No entanto, essa intenção durou poucos anos — mais especificamente, o período necessário para a discussão e a publicação das primeiras regras de construção do município.

“O primeiro plano diretor de Criciúma é de 1957 e começou a ser discutido em 1953. Nele, havia um projeto urbanístico que previa a proposta de estabelecer uma avenida urbanizada às margens do rio Criciúma. Essa ideia, que parecia interessante para a convivência com o rio, acabou sendo excluída na aprovação do plano”, recorda Carola.

Foi esse modelo, ainda, que passou a permitir a construção de edifícios mais altos próximos ao rio. “Isso fez a urbanização crescer muito rapidamente no Centro da cidade, criando uma estrutura urbana sobre o rio, o que levou à sua canalização e ao seu ocultamento, como diz o livro da professora Rose”, confirma o historiador.

Esse movimento segue até o presente. Estima-se que aproximadamente 70% do leito do rio esteja hoje canalizado, ou seja, escondido sob prédios, casas, avenidas, ruas e praças da cidade. O que outrora era visto como essencial para o desenvolvimento de Criciúma hoje contrasta com a realidade atual do curso d’água mais importante do município.

Na área central de Criciúma ainda restam poucos trechos do rio a céu aberto. Boa parte do curso foi coberto por ruas, construções e praças. (Foto: Patrick Stüpp/Portal Engeplus)

Tanto que o governo municipal chegou a contratar um estudo para adequar as faixas de preservação ao atual momento do rio. Seguindo a Lei Federal nº 14.285, foi solicitado um levantamento para disciplinar as áreas de preservação permanente (APPs) próximas a cursos d’água em áreas urbanas. A legislação permite flexibilizar os 30 metros da faixa de APP dos rios previstos no Código Florestal. Mediante um estudo socioambiental, os municípios podem ampliar ou reduzir a porção de preservação.

“Com todas essas informações, foi possível definir a nova metragem da faixa de APP, que virou lei no fim de 2024 em Criciúma. As novas construções localizadas próximas às margens do rio Criciúma estão sendo liberadas com base nesse diagnóstico, e não mais no Código Florestal. Para o município, isso gerou segurança jurídica para os técnicos, transferindo a realidade local para a legislação”, explicou Regina Fernandes, analista ambiental do Centro Tecnológico da Satc, instituição contratada para realizar o levantamento socioambiental.

Ao repensar e aprovar os limites entre a urbanização e o curso d’água que corta a cidade chegando ao ponto de possibilitar até mesmo a diminuição das matas ciliares em benefício do progresso, Criciúma demonstra que, até hoje, não se adequou à convivência com seu rio ‘mais famoso’, embora ele permaneça anônimo.

Trecho do rio Criciúma com margem em concreto e construção avançando sobre o leito - Imagem: Diagnóstico Sócioambiental

A cidade cresceu sobre ele, ao lado dele e, pouco a pouco, contra ele. Vieram as canalizações, as retificações e as obras que o emparedaram ou o esconderam sob galerias de concreto. Em vez de integrar o curso d’água ao desenvolvimento urbano, Criciúma escolheu ocultá-lo para beneficiar o avanço populacional.

Os atos, claro, criaram e ainda geram consequências. As escolhas anteriores de concretar as margens e desviar o leito provocaram uma redução de 2,4 quilômetros no comprimento do rio Criciúma, em razão do alinhamento executado entre 1956 e 2006, apontam estudos. As águas seguem poluídas, enquanto a demanda por esse bem natural cresce em todo o mundo.

Com mais cimento e menos terra, ampliou-se a vazão, diminuiu-se a absorção da água no solo, aumentou-se a possibilidade de enchentes e cresceram as áreas de risco. Com o avanço da urbanização, portanto, o rio deixou de ser protagonista e passou a ser tratado como um obstáculo ambiental e social.

Remédio para o descuido

Não é à toa que, no período recente, a preocupação mais vultosa com o rio Criciúma envolve a solução de um dos problemas causados por ele após ter sido modificado pela ação humana. O crescimento desordenado resultou na necessidade de execução da maior obra de macrodrenagem do estado de Santa Catarina: o canal auxiliar ao rio Criciúma. O projeto visou aumentar a vazão do rio, fazendo com que a água não escoe pelas vias e terrenos, mas sim por um canal subterrâneo paralelo ao rio e, em alguns trechos, até pelo próprio leito, auxiliando o escoamento e evitando cheias e alagamentos na cidade.

Entretanto, mesmo que o traçado do rio Criciúma não esteja visível na paisagem, os cursos d’água da bacia ocupam espaço no meio urbano da cidade, apesar de as obras de canalização terem descaracterizado esses cursos. E, “respirando por aparelhos”, o rio Criciúma ainda mantém importância ambiental e reúne condições de, com planejamento, voltar a ser essencial, como na época da colonização do município.

“A cidade nasceu a partir do rio Criciúma. Apesar de as margens estarem sendo ocupadas desde a colonização do município, o rio ainda mantém sua função ecológica, principalmente em suas nascentes, que continuam preservadas. Alguns afluentes possuem águas limpas, e esses locais têm grande importância para o meio ambiente e para a população. Onde há áreas preservadas, o rio contribui para a melhoria da qualidade de vida”.

Regina Fernandes, analista ambiental do Centro Tecnológico da Satc

Resiliência para manter sua importância

É esse o desafio proposto: colocar o rio Criciúma novamente em equilíbrio com a comunidade, assim como era no fim do século XIX. Apesar de parecer utópica, a recuperação do curso d’água que dá nome à cidade é possível. Ele mesmo dá sinais disso.

O estudo elaborado pela Satc demonstra que, mesmo escondido e prejudicado, o rio Criciúma ainda exerce impactos significativos, especialmente sobre os ecossistemas. Durante a coleta de dados, os pesquisadores do diagnóstico socioambiental mais recente concluíram que a urbanização e as atividades humanas causaram danos irreversíveis às APPs, resultando na perda da maior parte de suas características originais. A constatação de que os fragmentos florestais estão altamente alterados destaca a urgência de adotar medidas de conservação e recuperação.

Espécies nativas vivem em matas da Área de Preservação Permanente (APP) do rio Criciúma.(Foto: CTSatc/Divulgação)

O estudo também aponta a presença de 164 espécies da flora na área da bacia do rio Criciúma, incluindo espécies raras ou ameaçadas de extinção. Em relação à fauna, o diagnóstico evidenciou a presença de 113 espécies de aves, 35 de mamíferos e 28 de anfíbios. Quanto ao número de espécies nativas, foram encontradas 36, distribuídas entre mamíferos, aves, répteis e peixes.

Apesar das perdas ambientais acumuladas ao longo de mais de um século, especialistas afirmam que o rio Criciúma ainda guarda potencial de regeneração. Experiências bem-sucedidas em outras cidades brasileiras e do exterior mostram que cursos d’água urbanizados, poluídos ou canalizados podem voltar a integrar a paisagem, melhorar a qualidade de vida e até se tornarem espaços de convivência.

“Países do mundo e até mesmo algumas cidades do Brasil estão repensando a importância de seus rios. Infelizmente, Criciúma ainda segue na contramão desse movimento. Há países que chegaram a desfazer praças, prédios e viadutos para revitalizar rios poluídos. Essas ações alteraram o microclima da região. Portanto, para revitalizar um rio, será preciso realizar obras para desfazer obras, realocar pessoas e transformar essas áreas em locais que a população possa aproveitar".

Rose Maria Adami, geógrafa e pesquisadora

No caso de Criciúma, o fato de o rio ainda preservar trechos saudáveis, sobretudo em suas nascentes, abre caminho para projetos de revitalização que conciliem urbanização, meio ambiente e uso público de forma planejada.

A própria atualização das normas de ocupação às margens do rio, embora questionável, pode ser compreendida como um ponto de partida para reorganizar o espaço urbano e discutir o futuro do curso d’água com base em informações técnicas. Se bem aplicados, esses instrumentos podem ajudar o município a frear o avanço sobre as áreas mais frágeis, valorizar trechos preservados e criar oportunidades para que a população volte a se aproximar e a redescobrir o rio.

Nos pequenos detalhes, o rio mostra sua resiliência e disposição para ser revigorado. (Foto: Fabrício Júnior/Portal Engeplus)

Agentes poluentes

Outra geóloga e professora, coordenadora do curso de Geografia da Unesc, é Yasmine Cunha. Ela lembra que a atividade agrícola e o processo de mineração foram os principais fatores que inicialmente liberaram os primeiros resíduos poluentes nas águas do rio.

No processo de mineração, o principal problema foi a extração de carvão contendo pirita, um mineral presente nas camadas de carvão e em seus rejeitos. Yasmine explica que, na época, não se tinham os cuidados necessários, e a pirita, em contato com as águas do lençol freático nas minas subterrâneas, acidificava essas águas com metais pesados, como ferro e manganês.

Esse escoamento ácido dissolvia ainda outros metais pesados em águas subterrâneas ou superficiais, contaminando os cursos naturais de água, que assumiam uma cor avermelhada ou alaranjada devido à presença do ferro. As águas do beneficiamento do carvão, também acidificadas, contribuíam para esse processo. O solo também era contaminado e, em contato com o ar, a pirita podia entrar em combustão espontânea, liberando ácido sulfídrico, caracterizado pelo odor de “ovo podre”, perceptível a longa distância.

Geóloga e pesquisadora Yasmine Cunha estuda as bacias hidrográficas do Sul de Santa Catarina. (Foto: Patrick Stüpp/Portal Engeplus)

“Já por conta da prática agrícola, o uso de componentes como agrotóxicos e pesticidas foi o principal fator de poluição das águas do rio. Embora a mineração e a agricultura sejam importantes responsáveis pelos resíduos poluentes, as águas do rio Criciúma também foram afetadas por outras ações ao longo dos anos, como a falta de uma rede de saneamento básico, que provocou o despejo de esgotos diretamente no rio; a liberação de efluentes e resíduos industriais; e o despejo de resíduos sólidos, que ainda ocorre nas águas do rio”, diz.

De acordo com a geóloga, existem evidências documentadas de que o rio Criciúma continua poluído e impróprio para uso doméstico, industrial ou recreativo, segundo os critérios oficiais de qualidade da água. No entanto, nenhuma pesquisa estima a porcentagem de poluição, pois a contaminação de um rio é multidimensional, envolvendo fatores químicos, microbiológicos, físico-químicos, impactos da drenagem ácida de minas, esgoto e efluentes industriais. “O que se observa é que as partes consideradas mais preservadas estão localizadas nas áreas mais altas de Criciúma, como nas áreas verdes do Morro Cechinel e do Morro do Céu, onde se encontram algumas de suas nascentes”, completa.

Historicamente, ‘um lugar de despejo’

Historicamente, o trecho urbano central do rio Criciúma concentrava as questões mais agravantes, como esgoto doméstico e industrial, canalização, drenagem deficiente, ausência de mata ciliar, presença de metais e resíduos pesados. Todavia, a professora ressalta que a qualidade de água no rio Criciúma é variável dependendo do ponto ou do seu trecho. Até mesmo um monitoramento visual da degradação é dificultado pela canalização e recobrimento de muitos trechos.

Além desta localidade, também tiveram suas águas, solo e ar poluídos os seguintes bairros: Rio Maina, Naspolini, Próspera, Pio Côrrea, Mina Brasil, São Defende, São Roque, Boa Vista e Renascer. De modo geral, todos foram afetados pela mineração, principalmente devido ao despejo de rejeitos de carvão. Geladeiras, móveis, garrafas e embalagens vazias também são resíduos sólidos poluentes que podem ser encontrados nas águas do rio Criciúma.

“Historicamente, o rio Criciúma era considerado um lugar de despejo, já que as pessoas acreditavam na seguinte afirmação: ‘a água do rio leva’. Atualmente, a população tem cuidado maior, graças às ações de educação ambiental nas escolas, instituições e órgãos responsáveis. Entretanto, muitos desses resíduos sólidos despejados antigamente demoravam a se deteriorar, afetando as águas do recurso hídrico durante anos. A expansão urbana nas áreas de nascentes também é preocupante, incluindo topos de morro e encostas. De modo geral, se essas áreas forem suprimidas, não conseguiremos salvar mais nosso rio”, frisa a professora e coordenadora do curso de Geografia da Unesc.

Edifício Millenium, um dos locais de referência que indica o trajeto do rio Criciúma. O curso passa aos fundos do terreno da construção. (Foto: Patrick Stüpp/Portal Engeplus)

Uma rede de poluição é construída

Yasmine também reforça que a poluição não se restringe apenas ao rio Criciúma, mas afeta toda a sua bacia hidrográfica. Em seu trajeto, o recurso ambiental deságua no rio Sangão, que, por sua vez, deságua no rio Mãe Luzia e, posteriormente, chega ao rio Araranguá. Por conta disso, toda uma rede de poluição se forma, alcançando até os oceanos, que encerram o percurso dos rios e de seus afluentes. No entanto, a geóloga afirma que ações já estão sendo realizadas para minimizar o aumento da poluição.

Algumas dessas ações incluem a exigência de um sistema de esgotamento sanitário adequado nas residências, a fiscalização de efluentes e resíduos pelo Instituto do Meio Ambiente (IMA) nas indústrias e outras atividades, além da Ação Civil Pública do Carvão, voltada à recuperação das áreas degradadas pela mineração de carvão, com o objetivo de reduzir os impactos provocados por essa atividade.

“Um dos pontos a ser destacado é: por que a população renega o rio Criciúma? Acredito que, atualmente, chegamos ao ponto em que as pessoas praticamente se esquecem do rio, principalmente por conta do seu grau de poluição. A paisagem poluída incomoda, assim como o odor e o risco sanitário. As coisas boas foram esquecidas, e as lembranças mais marcantes são de acontecimentos negativos. Perdemos a paisagem que poderíamos ter, com um rio de águas de boa qualidade embelezando Criciúma. Além da paisagem, também perdemos um importante uso desse recurso hídrico, pois não podemos captar suas águas para abastecimento".

Yasmine Cunha, geóloga e professora coordenadora do curso de Geografia da Unesc

Trajeto do rio é tema de análises e discussões

Por mais que seja um recurso ambiental conhecido há décadas no município, determinados assuntos que envolvem o rio Criciúma seguem rodeados por dúvidas. O local exato do início do seu trajeto, por exemplo, é um desses temas que continuam envoltos de análises e discussões, principalmente no âmbito acadêmico e literário. Atualmente, essa discussão envolve dois locais, considerados oficiais para o início do percurso do rio Criciúma.

O tema foi destacado pelo geólogo da Prefeitura de Criciúma e professor da Universidade do Extremo Sul Catarinense (Unesc), Maurício de Menezes. Ele explicou que, segundo autores da literatura, um dos pontos considerados como início do trajeto do rio Criciúma fica no bairro Cruzeiro do Sul, na área posterior ao Criciúma Clube (apenas como referência), em uma nascente localizada no Morro Cechinel.

Nascentes do rio Criciúma ainda preservam águas límpidas. (Foto: Fabrício Júnior/Portal Engeplus)

“Todavia, outros estudiosos ressaltam que o começo do trajeto do rio fica na rua Felipe Schmidt, bem na área central. Nessa região, em um posto de gasolina ao lado do supermercado Angeloni (apenas como referência), encontram-se os três principais afluentes do rio Criciúma, ou seja, os braços que formam esse recurso ambiental. Esses afluentes estão localizados na região do Hospital São João Batista, do Criciúma Clube e, por fim, no bairro Mina Brasil”, ressalta.

O geólogo explicou à reportagem especial do Portal Engeplus que, nesses três pontos do município, existem nascentes naturais situadas na região onde hoje está o supermercado Angeloni. Assim, devido a essa divergência sobre o local exato de início do trajeto do rio, Menezes destacou que o comprimento total do rio Criciúma pode apresentar dois valores distintos de extensão.

“Se considerarmos como início do trajeto a nascente do Morro Cechinel, aos fundos do Criciúma Clube, o rio Criciúma tem aproximadamente 8,1 quilômetros de comprimento. Todavia, se for considerado o começo do percurso na região de encontro dos três principais afluentes do rio Criciúma, o número já se torna diferente. Nesse caso, o comprimento do rio será de 6,3 quilômetros”, enfatiza.

Ponto entre as ruas Coronel Pedro Benedet e Marechal Deodoro, no Centro de Criciúma, considerado o início do rio.(Foto: Patrick Stüpp/Portal Engeplus)

Domínio das águas e bacias hidrográficas

Embora existam divergências quanto ao início do percurso do rio Criciúma, seu trajeto engloba 13 bairros: Cruzeiro do Sul, Lote Seis, Centro, Operária Nova, Santa Bárbara, Santo Antônio, Pinheirinho, Paraíso, Vila Floresta, Boa Vista, Tereza Cristina, São Francisco e Santa Augusta. O geólogo e professor da Unesc pontuou que o ponto de deságue do recurso ambiental ocorre no rio Sangão, no limite entre os bairros São Francisco e Santa Augusta.

“Quando falamos do rio Criciúma, é importante lembrarmos que não existe apenas o seu trajeto principal, mas também seus afluentes, responsáveis por formar uma bacia hidrográfica. No geral, a natureza não trabalha isoladamente; os recursos hídricos são classificados e organizados em uma hierarquia: bacias hidrográficas, sub-bacias hidrográficas e microbacias hidrográficas”, frisa.

Já em relação ao domínio do rio Criciúma, a legislação estabelece, com base no primeiro artigo da Lei Federal 9.433, que trata da Política Nacional de Recursos Hídricos, que as águas são de domínio público. Entretanto, Menezes ressaltou que a regulamentação dos recursos hídricos localizados entre municípios ou bairros é de responsabilidade do governo estadual, que em Santa Catarina é exercida pela Secretaria de Meio Ambiente e Economia Verde (Semae), enquanto o licenciamento ambiental é feito pelo Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina (IMA). Em contrapartida, os rios que fazem limites entre estados e países são de responsabilidade do governo federal.

Efeitos do processo de urbanização

Desde o período da colonização, quando foi descoberto, o rio Criciúma vem sofrendo alterações, principalmente em relação ao percurso que realizava antigamente no município. O professor da Universidade do Extremo Sul Catarinense comentou que, há décadas, o rio possuía mais curvas. Atualmente, porém, realiza trajetos mais retilíneos, em virtude das alterações e modificações provocadas por dois fatores: o uso rural e o processo de urbanização da cidade.

“Nas áreas rurais, era interessante que o rio tivesse uma margem mais concentrada do que espalhada, para captação de água, hidratação dos animais, irrigação e lavagem de roupas. Com isso, começaram as primeiras modificações. Posteriormente, com o crescimento dos centros urbanos, as pessoas passaram a ocupar mais espaços para moradias. Ao invés de permitir que as águas fizessem curvas naturais no terreno, os moradores cortavam o fluxo do rio, direcionando a água para os lados a partir das construções”, afirma.

Geólogo Maurício de Menezes realiza constantes incursões pelo rio Criciúma para estudar o curso d'água. (Foto: Patrick Stüpp/Portal Engeplus)

Assim como a mudança de trajeto, Menezes pontua que a quantidade de nascentes do rio Criciúma também foram afetadas e suprimidas pelo processo de urbanização e mineração. Porém, nascentes naturais ainda são encontradas no município e estão localizadas principalmente nas regiões do Morro Cechinel e Morro do Céu. Ao todo, de acordo com o geólogo, dez nascentes do rio Criciúma estão catalogadas e podem ser encontradas nos seguintes bairros: Comerciário, Cruzeiro do Sul, Fábio Silva, Mina Brasil, Operária Nova, Santa Catarina, Santo Antônio e São Cristóvão.

Em virtude das alterações no trajeto do rio Criciúma, Menezes também destacou os prejuízos e as consequências decorrentes da modificação das curvas naturais dos recursos hídricos. Segundo ele, as obras realizadas na área central mudaram significativamente o comportamento do rio e acabaram trazendo prejuízos econômicos ao município, além de afetarem moradores e comerciantes.

Ao perder seu fluxo natural e adquirir um percurso mais acelerado, o rio passou a transbordar com maior frequência, provocando alagamentos e danos materiais. Ainda assim, Menezes ressaltou que os problemas de inundação foram reduzidos após a construção do Canal Auxiliar, executado durante o governo do ex-prefeito de Criciúma, Clésio Salvaro.

Iniciada em 2009, a construção do Canal Auxiliar do rio Criciúma, na região central do município, foi recebida com esperança, principalmente pelos comerciantes, que por diversas vezes sofreram prejuízos devido às chuvas que atingiam a cidade. A ideia de conter as enchentes que afetavam os lojistas saiu do papel e foi executada na primeira gestão de Salvaro como prefeito.

A primeira etapa do Canal Auxiliar do rio Criciúma, entregue em 6 de janeiro de 2012, teve uma extensão de 1,7 mil metros. Além da implantação do canal, foram construídas quatro pontes e realizado o desassoreamento do rio entre a avenida Centenário e a rua Araranguá.

Na segunda etapa, em 2017, a obra cobriu 780 metros do rio entre as ruas Vitório Serafim e Ângelo Peruchi, no bairro Santa Bárbara. Já na terceira etapa, concluída em 2024, os trabalhos contemplaram o trecho da rua Arthur Pescador, também no bairro Santa Bárbara, onde a antiga ponte foi demolida para a instalação das aduelas do canal.

Salvaro recorda que, especialmente na região central, houve receio durante o período das obras, mas que o trabalho trouxe paz e tranquilidade aos comerciantes. O ex-prefeito cita ainda que regiões como a da rua Seis de Janeiro voltaram a ganhar vida.

“Posso dizer que a obra do Canal Auxiliar fez com que a cidade voltasse a valer muito mais. A obra valorizou, precificou e elevou a régua bastante. Criciúma, depois do Canal Auxiliar, vale muito mais”, analisa.

Após 16 anos do início dos trabalhos, Salvaro acredita que a decisão foi acertada. O ex-prefeito destaca o carinho que recebe da população e, principalmente, dos comerciantes da região central, em razão da ação realizada que evitou enchentes, e afirma não se arrepender de nada que foi feito em relação ao canal.

A ótica de quem vivenciou enchentes e teve prejuízos

Cenas de enchentes foram vistas diversas vezes por Almiro Euzébio, que comanda a ‘Banca do Miro’ há mais de 45 anos. Com uma vista frontal para a rua Seis de Janeiro, Miro já presenciou incontáveis alagamentos, com seus vizinhos de comércio sendo extremamente afetados pelo volume de água. E as lembranças ainda seguem vivas em sua memória.

“Antes do Canal Auxiliar, qualquer chuva forte no final da tarde, durante o verão, causava alagamentos na rua Seis de Janeiro em apenas 30 ou 40 minutos. Depois dessa obra, que trouxe melhorias, não vimos mais esse problema".

Almiro Euzébio, comerciante da Praça Nereu Ramos

Portal Engeplus · Miro recorda de enchente em Criciúma

O prejuízo causado por enchentes também marcou a história de Milene Miranda, proprietária de uma farmácia há 23 anos. Antes das obras do Canal Auxiliar, a rotina durante o verão causava preocupação devido às condições climáticas.

“Toda vez que começava a chover, era desesperador. Em questão de minutos, tudo ficava alagado, e mesmo com barras de contenção nas portas a água ultrapassava e não havia o que fazer; era sempre um caos. À noite, todo mundo vinha para o Centro, pois já sabíamos que ia alagar, e recolhíamos as mercadorias, mas, mesmo assim, todo o comércio do calçadão era afetado”, lembra.

Comerciantes retiram água do rio Criciúma que invadiu lanchonete durante uma das enchentes. (Foto: Arquivo Pessoal)

O retrato acima mostra como ficava a lanchonete Ugione, também na rua Seis de Janeiro, em dias de chuva, antes das obras do Canal Auxiliar. Há 40 anos no mesmo ponto, Antônio Nelson Ugione também enfrentou o desprazer de perder mercadorias devido às enchentes registradas em Criciúma.

“Para nós, foi uma época muito difícil. Quando chegava o verão e o meteorologista avisava sobre um temporal, já era um terror. Cada chuva que caía alagava tudo; perdíamos todas as mercadorias, pois os clientes também não podiam vir fazer o lanche. Tivemos muitas dificuldades; todo mês eram cinco ou seis enchentes”, detalha. O empresário também guarda uma lembrança particular de um episódio que lhe trouxe grandes prejuízos.

Portal Engeplus · Nelson lembra o dia em que a água invadiu a lanchonete no Centro de Criciúma

Já Silvia Regina Spillere, de 60 anos, mora na rua Emílio Hülse, no bairro Santa Bárbara há 20 anos, e diferente dos comerciantes da área central, ainda enfrenta problemas com o rio Criciúma.

Hoje, sua casa não conta mais com muros, pois desde 2020 começaram a desmoronar. Além disso, ela e sua mãe, de 98 anos, convivem diariamente com o cheiro ruim e também com animais que invadem o terreno.

“Minha casa tem muitas rachaduras, e o muro, assim como o próprio terreno, está desmoronando. Fomos informados há anos de que seria realizada a canalização, mas isso nunca aconteceu; seguimos aguardando”.

Silvia Regina Spillere, moradora do bairro Santa Bárbara que ainda sofre com os efeitos da urbanização sobre o rio Criciúma

Uma nova etapa

Com as obras finalizadas e uma quarta etapa em vista, Criciúma agora sonha em poder dar vida novamente ao rio que carrega o nome da cidade. Salvaro acredita que isso é possível e que, para tanto, é necessária a conscientização de todos.

“O rio Criciúma foi o início da nossa cidade. Foi ele que proporcionou o desenvolvimento. Ele é parte importante da nossa história. Fazer com que ele tenha vida novamente é um compromisso de todos nós, não somente do poder público, mas de cada cidadão”, afirma.

A importância e a recuperação do rio Criciúma

Mesmo com áreas degradadas e a presença tímida de vida em boa parte do trecho do rio Criciúma, o coordenador do Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais da Unesc, Carlyle Torres Bezerra de Menezes, acredita na recuperação total. “Ele não está morto. Está até na UTI, por conta da forma como o maltratamos por décadas”, destaca.

O professor explica que a esperança na recuperação do rio Criciúma se dá pela preservação de suas nascentes, localizadas no Morro Cechinel e no Morro do Céu. Segundo Menezes, a preocupação com o futuro aumenta devido às construções em áreas que deveriam permanecer preservadas.

“Infelizmente, estamos vendo agora condomínios, construções e loteamentos avançando em áreas próximas às nascentes. Recentemente, também tivemos um retrocesso muito grande em termos de políticas públicas de conservação da natureza: a extinção do Parque Ecológico do Morro do Céu. Ali também há nascentes do rio Criciúma".

Carlyle Torres Bezerra de Menezes, coordenador do Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais da Unesc.

O profissional defende que o município trabalhe com a intenção de recuperar o rio em sua totalidade e busque oportunizar vida em toda a sua extensão. Segundo o docente, a presença de vegetação, arborização e vida animal trará um impacto positivo no desenvolvimento da cidade.

“Nós realizamos um estudo, inclusive em parceria com o município, com o apoio da antiga Fundação Municipal do Meio Ambiente (Famcri), há quatro anos. Foi um estudo muito interessante, mostrando as possibilidades que temos de revitalizar o rio, mas, infelizmente, esse projeto não teve continuidade. A ideia era detalhar como está a situação atual”, recorda.

Por fim, Menezes explica a importância que o rio Criciúma tem e pode ter ainda mais para a cidade, caso seja totalmente revitalizado.

O futuro do rio Criciúma em debate

Em Santa Catarina, a gestão dos recursos hídricos é tarefa da Secretaria de Estado do Meio Ambiente e da Economia Verde (Semae). Em uma discussão coletiva, contando com a participação dos comitês de bacias hidrográficas, formados pelo poder público, usuários de água e entidades civis organizadas, o governo discute e elabora o plano de recursos hídricos.

O modelo utilizado em todo o Brasil define metas que visam à melhoria das condições de qualidade e quantidade de água e à garantia dos usos múltiplos e da segurança hídrica na bacia. É esse, atualmente, o caminho que está sendo percorrido para definir qual será o uso e a qualidade da água do rio Criciúma no futuro.

Isso porque o curso d’água faz parte da bacia hidrográfica do rio Araranguá e, até o início de 2027, a Semae e o Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Araranguá e Afluentes do Mampituba pretendem finalizar o enquadramento dos recursos hídricos da bacia. O documento será o norteador das medidas a serem adotadas para alcançar o objetivo traçado em reuniões que determinarão a condição das águas na área estudada.

“No enquadramento, os membros do comitê de bacia discutem como os rios estão atualmente e como pretendem que eles estejam daqui a alguns anos. Para isso, é definido um estudo de ações para alcançar esses objetivos”, explica Vinícius Constante, gerente de Saneamento e Gestão de Recursos Hídricos da Semae.

No caso da bacia do rio Araranguá, onde está inserido o rio Criciúma, será de responsabilidade da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), em um acordo de cooperação com a Semae, a condução de uma proposta de enquadramento.

Classificação inadequada

O Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) possui cinco classificações dos rios de acordo com a qualidade de suas águas. Com base no diagnóstico elaborado durante o processo de enquadramento é possível determinar qual uso adequado para o rio.

As águas doces são classificadas em:

Classe especial - águas destinadas:

a) ao abastecimento para consumo humano, com desinfecção;

b) à preservação do equilíbrio natural das comunidades aquáticas;

c) à preservação dos ambientes aquáticos em unidades de conservação de proteção integral.

Classe 1- águas que podem ser destinadas:

a) ao abastecimento para consumo humano, após tratamento simplificado;

b) à proteção das comunidades aquáticas;

c) à recreação de contato primário, tais como natação, esqui aquático e mergulho, conforme Resolução CONAMA no 274, de 2000;

d) à irrigação de hortaliças que são consumidas cruas e de frutas que se desenvolvam rentes ao solo e que sejam ingeridas cruas sem remoção de película;

e) à proteção das comunidades aquáticas em Terras Indígenas.

Classe 2 - águas que podem ser destinadas:

a) ao abastecimento para consumo humano, após tratamento convencional;

b) à proteção das comunidades aquáticas;

c) à recreação de contato primário, tais como natação, esqui aquático e mergulho, conforme Resolução CONAMA no 274, de 2000;

d) à irrigação de hortaliças, plantas frutíferas e de parques, jardins, campos de esporte e lazer, com os quais o público possa vir a ter contato direto;

e) à aqüicultura e à atividade de pesca.

Classe 3 - águas que podem ser destinadas:

a) ao abastecimento para consumo humano, após tratamento convencional ou avançado;

b) à irrigação de culturas arbóreas, cerealíferas e forrageiras;

c) à pesca amadora;

d) à recreação de contato secundário;

e) à dessedentação de animais.

Classe 4 - águas que podem ser destinadas:

a) à navegação;

b) à harmonia paisagística.


Ainda de acordo com o conselho, os cursos d’água que ainda não foram diagnosticados são identificados como rios de classe dois, que podem ser destinados ao abastecimento humano (após tratamento), à proteção das comunidades aquáticas, à realização de atividades de recreação e práticas esportivas, à irrigação de plantas e à aquicultura e pesca.

Mas não é necessário ter um profundo conhecimento ambiental para chegar à conclusão de que a atual classificação do rio Criciúma não está adequada à sua realidade. Seu estado de poluição se aproxima das condições de um rio de classe quatro, com águas destinadas apenas à navegação e como parte da paisagem.

“Em Santa Catarina, são 16 comitês de bacia, e apenas a bacia do rio Itajaí está com o enquadramento aprovado. Lá, eles definiram um horizonte de 20 anos para melhorar a qualidade da água dos rios. No caso do rio Criciúma, esse desafio talvez seja mais longo, porque a região tem uma característica única: o impacto da extração do carvão nas águas da bacia”, ressalta Constante.

Definir o uso do rio Criciúma no futuro é um dos desafios propostos para que ele volte a ser valorizado. (Foto: Patrick Stüpp/Portal Engeplus)

A água ácida do carvão, como fator poluente do rio Criciúma, acredita o gerente da Semae, deve ampliar o tempo necessário para a realização das ações de longo prazo. “Não sei se é possível recuperar o rio para uma classe dois. Se conseguir chegar à categoria três, já é um bom avanço. Nessa condição, já permitiria vários usos para a água. Mas a ambição dessas metas será determinada pelos estudos a serem realizados”, projeta Constante.

Ações para diminuir a poluição

A Prefeitura de Criciúma estará, certamente, inserida nas discussões do enquadramento dos rios da bacia. O município reconhece que, no momento, não existe um amplo plano de ação elaborado para tratar da despoluição ou da melhoria das condições da água do rio Criciúma.

Em paralelo a isso, a Diretoria de Meio Ambiente de Criciúma (DMACRI) mantém atividades para amenizar os impactos ambientais e sociais causados pela poluição do rio. Fazem parte do calendário do departamento os trabalhos de educação ambiental nas escolas, o plantio de árvores nas APPs do rio e as ações de limpeza e desassoreamento do leito.

Há ainda uma parceria com a Casan para a execução do projeto Trato por Criciúma, que fiscaliza casas e comércios que possam lançar efluentes no rio. Quando é identificada uma irregularidade, o responsável é notificado e pode ser autuado.

Porém, analisa a diretora da DMACRI, Anequésselen Bitencourt Fortunato, o principal desafio é a conscientização. “Existem descartes irregulares de lixo e de efluentes. Não é incomum encontrarmos computadores, fogões, sofás e até veículos inteiros no rio”, lembra.

Trecho do rio Criciúma com margem e fundo em concreto.(Foto: CTSatc/Divulgação)

Em regiões de maior vulnerabilidade social é onde se encontram os trechos mais críticos, avalia a diretora. Além dos descartes irregulares, nessas áreas ocorre a invasão de APPs para construções que, mais tarde, também lançarão efluentes e resíduos no rio.

“Temos uma equipe de fiscais na Diretoria de Meio Ambiente e, quando recebemos denúncias, vamos até o local e fiscalizamos. A parte de lançamento de esgoto também é acompanhada pela Vigilância Sanitária do município”, detalha.

As iniciativas da prefeitura contribuem para inibir atitudes que agravam as condições do principal curso d’água do município, mas estão longe de serem a solução para os problemas. Mesmo assim, discretos reflexos, vez ou outra, são perceptíveis pelos ambientalistas.

“Nós já vimos peixes recentemente no rio Criciúma. Fazia décadas que não víamos mais. Nos últimos anos já tivemos algumas incidências. Isso atribuímos a uma série de ações conjuntas realizadas por vários setores da Prefeitura de Criciúma”, afirma. Os últimos registros de peixes foram feitos em 2020 e 2022.

Anequésselen entende que uma ação mais enérgica para mudar o aspecto do rio passa pelo controle do lançamento de esgoto. “Não havendo mais isso, teremos a despoluição com maior celeridade”, frisa.

O trabalho técnico, por si só, não garante a recuperação total do rio. O maior desafio para a prefeitura é fazer com que a população mantenha a conscientização e não infrinja as normas ambientais, evitando práticas que comprometam os singelos esforços realizados.

“Não basta que a população esteja conscientizada e faça a sua parte. Também é um desafio para o município ter fôlego para conseguir realizar essas ações de forma contínua”, pontua. De janeiro de 2025 até 25 de novembro, foram registradas, no total, 56 notificações por deposição irregular de resíduos e intervenção em APP.

Falta de recursos dificulta avanços

Embora não haja um projeto específico a ser desenvolvido em relação ao rio Criciúma, a professora Eliandra Gomes Marques, doutoranda em Ciências Ambientais pela Unesc e presidente do Comitê de Bacia do Rio Araranguá e Afluentes Catarinenses do Rio Mampituba, elencou algumas possibilidades pensando na recuperação dos rios, entre eles o rio Criciúma. Ela explicou, porém, que o assunto é desafiador e que a falta de recursos é um entrave para o Comitê.

“Até poderíamos fazer um projeto, mesmo com esse recurso escasso indireto, podemos fazer, mas ele precisa ser uma demanda também”, comenta. Segundo Eliandra, são poucas as demandas que chegam de prefeituras ao Comitê. “Temos um entendimento de que há um desconhecimento do papel do Comitê em relação a isso, porque ele pode ajudar a elaborar o projeto e a executá-lo, mas precisa ser uma demanda que chegue à diretoria e que ela encaminhe para a plenária”, explica.

Eliandra disse que é necessário pensar no que mais pode ser feito no rio Criciúma. “Eu acho que é um trabalho realmente complexo, mas que precisa ser feito. Uma hora teremos que sentar, conversar, trazer tudo que achamos negativo e ver como vamos buscar uma solução para isso”, destaca.

A presidente do Comitê enfatizou que os problemas carregados pelos rios vão passando de um para o outro, até chegar ao rio Araranguá, envolvendo toda a região. Ela acredita que a estratégia precisa ser pensada com a aproximação dos municípios e dos envolvidos na área, como uma demanda importante para o desenvolvimento regional. A presidente falou ainda sobre o papel do Comitê em relação aos rios e como ele poderia exercer essa função se houvesse recursos mobilizados para uma solução.

Portal Engeplus · Eliandra Gomes Marques fala sobre o Comitê de Bacia do rio Araranguá

A profissional apontou ainda que a melhor solução para arrecadar recursos seria por meio da cobrança da água, que neste caso, não inclui o consumo doméstico comum, mas sim, os usuários que fazem o uso significativo, como os grandes empreendimentos. “Santa Catarina já está fazendo um estudo de metodologia para pensar cada região. Cada comitê de bacia irá pensar a sua metodologia e o seu valor. Faremos um seminário no início do ano que vem, pensando nessa questão”, ressalta.

A cobrança da água é um dos seis instrumentos oficiais de gestão dos recursos hídricos definidos pela Lei das Águas, que é o nome pelo qual ficou conhecida a Lei nº 9.433, de 8 de janeiro de 1997, que institui a Política Nacional de Recursos Hídricos (PNRH) e cria o Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos (SINGREH).

Portal Engeplus · Cobrança de água em SC

A lei que regulamenta todo o processo também dá legitimidade aos comitês de bacias. “Se todos os instrumentos [previstos na lei] estivessem funcionando corretamente, nós estaríamos bem. O detalhe é que, em Santa Catarina, o sistema de outorga [autorização oficial para usar a água] está fragilizado. Temos muitos pedidos represados”, afirma.

No fim, a implementação da cobrança pelo uso da água surge como uma possível solução para financiar o projeto do rio Criciúma, mas a recuperação, por ora, continuará dependendo de ações contínuas e, principalmente, da conscientização coletiva.

Recursos e vontade política

Por ser responsável pelas gestões dos recursos hídricos, cabe ao Estado também a responsabilidade de sugerir e encabeçar iniciativas que possam apontar para um horizonte otimista quando o assunto é falar das recuperações dos rios.

“É preciso despertar nos gestores públicos a ideia de revitalização do rio, destamponando ele e convencendo a população da importância disso. A imagem que os criciumenses tem do rio que traz o nome do município é do esgoto. Então é preciso que se crie essa vontade geral do rio voltar a fazer parte do cenário da cidade. E, a partir disso, priorizar investimentos para realização de ações para recuperação da qualidade dessa água”, comenta a geógrafa Rose Adami.

O desafio, claro, não é simples. Os investimentos são vultuosos, mas há caminhos possíveis para alcançá-los. “Os recursos existem para serem captados. O que precisa ser feito são projetos consistentes. O dinheiro que o governo estadual possui disponível é para os diagnósticos e estudos. No caso de obras, as fontes seriam federais e até internacionais. Existem linhas de crédito exclusivas para tecnologias verdes, e a renaturalização dos rios se enquadra nisso. É preciso ter vontade de projetar e executar”, diz Vinícius Constante, gerente de Saneamento e Gestão de Recursos Hídricos da Semae.

Ocupação urbana e desafios arquitetônicos às margens do rio Criciúma

Ao mesmo tempo em que se planeja o futuro da qualidade da água do rio Criciúma, é preciso pensar no convívio urbano com o curso d’água, já que boa parte do seu trajeto está na área central do município.

Projetar imóveis próximos ao rio Criciúma envolve desafios que vão muito além da engenharia e da arquitetura. Para o arquiteto Jeferson Aléssio, os principais obstáculos não são estruturais, mas legais. “Os maiores desafios estão relacionados a questões como Áreas de Preservação Permanente (APP), faixas sanitárias e outras restrições legais”, explica.

A ocupação das margens do rio, segundo ele, exerce uma influência profunda no planejamento urbano de Criciúma. “As cidades precisam lidar com desafios ambientais, de segurança e socioeconômicos, que definem o zoneamento, as políticas de infraestrutura e o uso do solo. Essa influência se manifesta em três grandes áreas: criação de zonas de restrição, projetos de infraestrutura hídrica e ações de regularização fundiária”, detalha.

Antes de aprovar qualquer construção próxima ao rio, o arquiteto destaca a necessidade de seguir critérios técnicos rigorosos. “Devem ser respeitadas as diretrizes do Plano Diretor, somadas à legislação referente às APPs e às faixas não edificantes”, afirma. “O maior perigo é o de inundações. Diferentemente de rios como o Tubarão ou o Araranguá, o rio Criciúma não tem grandes barrancos passíveis de desmoronamento, mas o aumento do nível da água em períodos chuvosos ainda representa um risco real”, completa.

Rio Criciúma percorre em seu leito natural em terreno de casa. (Foto: CTSatc/Divulgação)

A legislação municipal e estadual define claramente como devem ser conduzidas as construções nas margens do rio. Em áreas urbanas consolidadas (AUCS), devem ser respeitadas as faixas de preservação estabelecidas pela Lei Municipal nº 8.644/2024, embasada no diagnóstico feito pela Satc, que também rege a regularização de imóveis existentes. Já em áreas rurais ou em situações não previstas na lei municipal, aplica-se o Código Florestal (Lei nº 12.651/2012), que exige uma faixa mínima de APP de 30 metros.

No entanto, Aléssio aponta limitações na interpretação dessas normas. “Para muitos, as APPs são espaços intransponíveis, que deveriam ser cercados e isolados. Mas em outros lugares, vemos projetos inteligentes de urbanização, como parques lineares, que integram o ser humano à natureza, promovendo preservação e lazer ao mesmo tempo. Infelizmente, isso ainda não é permitido em Criciúma”, afirma.

O processo de licenciamento segue o mesmo protocolo de qualquer obra, mas, internamente, os projetos passam por análise de setores especializados que emitem pareceres específicos sobre o rio. “Na análise de novos projetos, sim, há rigor suficiente, pois todos os setores relacionados ao rio são ouvidos. No caso de obras existentes, não sei exatamente como funciona a fiscalização”, comenta.

Sobre o futuro da ocupação urbana nas margens do rio Criciúma, Aléssio vê um cenário de tensão entre riscos históricos e tendências de sustentabilidade. “O grande desafio é migrar da visão de ‘rio-esgoto’ ou ‘rio-barreira’ para uma perspectiva de ‘rio-eixo de desenvolvimento sustentável e lazer’. É uma mudança que depende da requalificação urbana e da conscientização coletiva”, pontua.

Saudades do rio Criciúma… limpo

Apesar de todas as discussões técnicas, projeções e desafios que cercam o futuro do rio Criciúma, ainda existem memórias que insistem em manter viva a lembrança de quando suas águas eram parte do cotidiano. Entre essas histórias está a da Apolônia da Silva, de 80 anos, que, assim como muitas das primeiras famílias que viviam às margens do rio, enxergava nele não um problema a ser resolvido, mas uma presença essencial de fonte de vida, convivência e sustento.

Apolônia ainda recorda dos tempos em que o rio Criciúma mantinha suas águas limpas para uso das atividades do cotidiano.(Foto: Rafaela Custódio/Portal Engeplus)

Hoje, mesmo diante do estado em que o rio se encontra, permanece um sentimento de saudade daquele tempo em que ele acompanhava o ritmo da cidade com mais generosidade do que turbulência. E é nessa mistura de lembrança e esperança que o rio Criciúma segue correndo: marcado pelo passado, desafiado pelo presente e ainda sonhando, silenciosamente, por um futuro em que possa voltar a ser, de alguma forma, o rio de antes.

O rio Criciúma, hoje pouco lembrado por muitos moradores, já foi por muito tempo fonte de renda e parte essencial da rotina de diversas famílias do município, como a de Apolônia. Ainda adolescente, ela e os quatro irmãos buscavam água para o consumo de casa, enquanto sua mãe, Adelina Tassi da Silva, usava o rio para lavar roupas atividade da qual tirava parte do sustento da família.

“Morávamos próximo ao Morro Cechinel e caminhávamos cerca de 300 metros até chegar ao rio. Mas a fonte ficava mais acima, então precisávamos subir mais um trecho para alcançá-la. Era uma nascente; havia outra fonte onde pegávamos água para beber, cozinhar, para tudo. Sair com baldes de ferro e voltar com eles cheios fazia parte do nosso dia a dia".

Apolônia da Silva, moradora de Criciúma que chegou a utilizar a água do rio Criciúma quando ela ainda era limpa

Apolônia lembra não apenas das idas com os irmãos em busca de água, mas também dos muitos momentos vividos às margens do rio Criciúma.

Portal Engeplus · Apolônia da Silva fala sobre sua experiência com o rio Criciúma

A moradora de Criciúma afirma que, na época, a água era tão limpa que não era necessário fervê-la ou adicionar qualquer produto. “Não tinha nenhum bichinho, não tinha nada. Era limpa. Algo de que me lembro muito bem é que pegávamos o coração dos cachos de banana e usávamos para tomar água; dava um sabor diferente e ficava muito gostoso”, conta.

A idosa, que atualmente mora no bairro Wosocris, passou a adolescência vivendo próximo ao Morro Cechinel. “Morei lá até os meus 24 anos. Quando criança e adolescente, eu sempre ia ao rio Criciúma buscar água e ajudar minha mãe, assim como meus irmãos. Aos 17 anos comecei a trabalhar no Hospital São José e deixei de ir tanto ao rio, mas ainda me lembro perfeitamente dos momentos que vivi na fonte e no rio”, afirma.

Apolônia garante que seu pai, Antônio Rosalino da Silva, foi quem fez o encanamento da casa da família. Com isso, ela e os irmãos deixaram de precisar buscar água no rio. “Recordo que os canos eram enormes. Ele os instalou naquela fonte onde buscávamos água e levou tudo até nossa residência. Depois disso, não precisávamos mais buscar água. Mas minha mãe continuou lavando roupa no local. Antes dos meus 30 anos, minha família vendeu as terras e deixamos o lugar”, frisa.

Boas lembranças sobre o rio

A idosa guarda boas lembranças do rio e do período em que sua família morava próxima a ele, chegando inclusive a se emocionar ao recordar aqueles momentos.

Portal Engeplus · Apolônia da Silva recorda dos momentos com os irmãos no rio Criciúma

Ao ser questionada sobre a poluição do rio Criciúma em alguns trechos, Apolônia demonstrou tristeza e relembrou que, em sua época, o rio não era sujo. “Fico muito chateada, porque naquela época não tinha esgoto correndo para os rios. Usávamos patente, e ficava em outros locais, distantes da casa. Eram outros tempos, e isso é importante dizer também. Mas saber que meus netos e bisnetos não conheceram o rio Criciúma como conheci é triste”, observa.

Apolônia também destacou a importância da educação das novas gerações. “A culpa é nossa. O povo joga todo tipo de sujeira nos rios. Ninguém cuida do que realmente é nosso. Tem tanta coisa que pode ser reciclada, e muitos não reciclam”, comenta.

Portal Engeplus · Apolônia da Silva lamenta a poluição do rio Criciúma

Hoje, o rio Criciúma já não corre com a mesma pureza de outros tempos. Poluído em muitos trechos, ele contrasta com o passado, quando suas águas saciavam a sede das famílias, serviam de sustento para lavadeiras e garantiam renda a quem dependia diretamente dele. O rio, que um dia foi apoio, caminho e fonte de sobrevivência, também foi cenário de enchentes e desafios, marcas que ajudaram a moldar Criciúma e sua economia.

Ainda assim, mesmo transformado, ele permanece como parte viva da história da cidade. Entre lembranças de um passado mais límpido e a esperança de um futuro mais cuidadoso, o rio segue correndo, lembrando que a identidade de um povo também nasce das águas que o atravessam.

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