Energia solar vira ferramenta educativa, abastece escolas e impulsiona o aprendizado em Criciúma

Investimento feito pelo município gera economia, sustentabilidade e impacto na educação

Energia solar vira ferramenta educativa, abastece escolas e impulsiona o aprendizado em Criciúma
Foto: Lucas Renan Domingos/Portal Engeplus

Um dia eles já foram o auge da inovação. Hoje, passaram a ser parte comum dos cenários urbanos e rurais. Experimente observar uma cidade do alto. Com certeza você vai encontrar com facilidade um painel fotovoltaico. O crescimento desse modelo de geração de energia é evidente e comprovado com números.

O relatório da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar) aponta que, no Brasil, desde 2012, foram investidos R$ 272,4 bilhões em sistemas que possuem como fonte a radiação solar, o que fez a tecnologia se consolidar como a segunda maior em capacidade de geração no país.

Fazendo um recorte recente, os gráficos evidenciam uma curva exponencial no uso de painéis solares no Brasil a partir de 2020. Naquele ano, a potência instalada era de 8,4 gigawatts (GW) e, em 2025, este valor é de 60,7 GW, ficando atrás somente das hidrelétricas (110,1 GW). São Paulo é quem lidera o ranking dos estados brasileiros de geração distribuída fotovoltaica, correspondendo por 14,1% da capacidade do país. Minas Gerais (12,7%), Paraná (9,1%), Rio Grande do Sul (8,2%) e Mato Grosso (6,5%) fecham o top five.

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Usinas solares são projetadas para o melhor aproveitamento dos raios UV ao longo do dia - Foto: Lucas Renan Domingos

Analisando a classe de consumo, as residências correspondem a maior fatia em capacidade de geração de energia em território nacional, com potência instalada de 42,7 GW. Estruturas comerciais e de serviço aparecem em segundo (12,1 GW), propriedades rurais em terceiro (5,7 GW), indústrias em quarto (3,1 GW), poder público em quinto (489,4 MW), serviço público em quinto (51,8 MW) e iluminação pública (9,6 MW).

É no grupo do poder público que Criciúma se destaca. Conforme o levantamento da Absolar, Santa Catarina aparece na 11ª colocação dos estados brasileiros de geração distribuída fotovoltaica, contribuindo com 3,5% do setor. E o maior município da região Sul catarinense tem contribuição nessa estatística.

Dos mais de 180 prédios públicos da Prefeitura de Criciúma, pouco mais de 30% são abastecidos por energia gerada por meio da captação da radiação ultravioleta (UV). “Isso contribuiu significativamente para a redução de gastos públicos, com uma economia mensal de aproximadamente R$ 100 mil”, garante o secretário de Governança de Criciúma, Tiago Pavan.

A economia segue sendo o principal atrativo do uso dos painéis solares. Quem instala os módulos, pode injetar o excedente da energia produzida e não utilizada na rede. Em troca, recebe créditos para abater o custo do consumo quando o sol se põe. Outro ponto positivo do sistema é a sustentabilidade. No Brasil, calcula a Absolar, a geração de energia utilizando o sol evitou que mais de 89,6 milhões de toneladas de gás carbônico (CO²) fossem emitidas desde 2012.

Além dos resultados econômicos e ambientais, a administração municipal de Criciúma buscou outro objetivo ao aplicar recursos na tecnologia: o impacto educacional. Há pouco mais de um ano, em agosto de 2024, a prefeitura inaugurou a Fazenda Solar Nikola Tesla. Com um investimento de R$ 6,5 milhões, o município realizou a instalação de 2,2 mil módulos fotovoltaicos em uma área de 14 mil metros quadrados, com uma capacidade de geração de 1,2 MW.

Os mais de 2,2 mil módulos solares da Fazenda Solar Nikola Tesla - Foto: Decom Criciúma/Divulgação

A arquitetura e os elementos expostos tornam o local um endereço turístico. Mas foi a educação o pilar do projeto desde a sua concepção. É que a porcentagem dos prédios públicos de Criciúma que usam energia solar é formada pelas 62 escolas da rede de ensino municipal, todas se beneficiando do que é gerado na Fazenda Solar Nikola Tesla.

“A nossa ideia inicial era levar esta proposta para todos os prédios do município, mas a gente não tinha um espaço para montar uma usina com esta capacidade e nem um estudo que pudesse quantificar isso. Por outro lado, na Secretaria de Educação já possuia um levantamento prévio do uso dos painéis solares em suas estruturas. Em um primeiro momento, pensou-se em usar os telhados das escolas, mas atrapalharia a manutenção e daí veio a ideia de buscar um local adequado para a fazenda”, lembra Pavan.

Luz no conhecimento

A área escolhida para executar o projeto foi o distrito de Rio Maina, ao lado de um dos pontos turísticos de Criciúma, o Parque dos Imigrantes. A energia gerada é injetada na rede da Celesc, sendo posteriormente distribuída entre as escolas, por meio do porte individual de cada unidade, promovendo um abastecimento sustentável e uma gestão de energia limpa e renovável.

Abastecer as unidades de ensino não foi a única consequência para a educação. Ao lado do espaço destinado aos módulos fotovoltaicos, a Prefeitura de Criciúma ergueu o Memorial Nikola Tesla. O local é uma homenagem ao inventor, cientista e engenheiro eletro-mecânico nascido em Smiljan, território do Império Austro-Húngaro, atual Croácia.

Tesla é conhecido por suas contribuições para o desenvolvimento da Corrente Alternada (CA), sistema utilizado até hoje para a transmissão de energia de longa distância. Entre as suas invenções estão o motor de indução (utilizado em indústrias), o controle remoto e a transmissão via rádio, sistemas de comunicação sem fio e precursores de outras tecnologias que surgiriam no futuro, como bluetooth e wi-fi.

O memorial é o núcleo de disseminação do conhecimento proporcionado pelo investimento na fazenda solar. Pelo local passaram mais de 3,3 mil pessoas desde a inauguração. Ali estão expostos experimentos científicos como a bobina de Tesla, globos de plasma e o gerador de Van Graaff. Os equipamentos contribuem para uma imersão no conhecimento e no efeito da energia no corpo humano e no desenvolvimento da sociedade.

“Os visitantes aprendem os conceitos de energia por indução, eletricidade estática e conseguem perceber, por meio de um mapa, a diferença da capacidade de transmissão entre a corrente alternada, defendida por Tesla, e a corrente contínua, popularizada por Thomas Edison para uso comercial. Edison e Tesla chegaram a travar uma briga conhecida como a ‘Guerra das Correntes’. Tiveram uma discussão feia. Mas o fato é que ambos os sistemas são importantes e possuem aplicações diferentes”, ressalta Gabryel Dal Zotto, guia da Fazenda Solar Nikola Tesla.

Não é à toa que os principais visitantes são os estudantes, vindos de Criciúma e região. No município sede, a visitação vai além de um passeio escolar. A Secretaria de Educação incentiva os professores que incluam o roteiro nas atividades disciplinares, a fim de aprimorar os conhecimentos apresentados em sala de aula.

“Criciúma vem se destacando pelo pioneirismo de criar espaços públicos que não são somente locais turísticos, mas equipamentos que estimulem o conhecimento, a ciência. A Secretaria de Educação solicita que as escolas e professores coloquem em seus calendários de atividades roteiros que promovam a curiosidade e a pesquisa dos nossos alunos”, ressalta a secretária de Educação de Criciúma, Geovana Zanette.

O memorial está inserido em um modelo educacional formado por outros equipamentos turísticos. Na roda da atafona, no Parque dos Imigrantes, os alunos aprendem a calcular o pi (?), constante matemática que representa a razão entre a circunferência de um círculo e seu diâmetro. Na Mina de Visitação Octavio Fontana, eles conhecem a história do município. No Parque Albert Einstein, se aprofundam em atividades de astronomia e outros princípios da física.

“Durante o roteiro na Fazenda Solar Nikola Tesla, além de todo o conhecimento sobre física, eletricidade, há outro componente pedagógico: o da sustentabilidade. Criciúma desenvolveu sua economia na exploração do carvão. Na época, a forma da extração acabou deixando passivos ambientais, e os painéis solares e o memorial foram construídos sobre uma área que antes era depósito de rejeitos. Isso demonstra o apelo com a preocupação ambiental, dando uma nova vida para um terreno que era degradado”, acrescenta Jamile Torquato, também guia.

Alunos da escola Antonio Milanez Netto observam atentamente as explicações sobre uma das criações de Nikola Tesla - Foto: Lucas Renan Domingos/Portal Engeplus.

Eficiência energética

Estima-se que, com a economia gerada, o investimento feito para a instalação dos módulos solares seja “recuperado” pela Prefeitura de Criciúma em aproximadamente quatro anos. Mas o município colhe antecipadamente outro benefício de apostar na energia solar: a promoção do ensino.

“A fazenda solar foi projetada para captar os raios do sol com a melhor eficiência possível. A energia é gerada em corrente contínua. Para ser distribuída, ela passa por um inversor que transforma em corrente alternada. Daqui ela é colocada na rede e chega até nas escolas”, explica Fábio Berkenbrock, gerente da Fazenda Solar Nikola Tesla.

Dessa forma, o projeto beneficia a educação também indiretamente. “A energia gerada pela usina é usada para os ares-condicionados, na cozinha, nos computadores das escolas. São equipamentos que dão mais conforto para professores e alunos. Com conforto, amplia-se a capacidade de aprendizagem”, pontua Pavan.

“É uma iniciativa muito justa. O carvão mineral alavancou a economia de Criciúma, é usado na geração de energia elétrica e, por outro lado, deixou o passivo ambiental. Mas agora, esse passivo passa a gerar energia de outra forma, por uma fonte sustentável. É um conceito que pode ser aplicado na transição energética justa”, emenda o secretário.

Impacto acadêmico

Os recursos aplicados em melhorias na geração e consumo de energia elétrica geram retornos para a educação que ultrapassam os muros da ensino básica e chegam até as formações superiores. Ao mesmo tempo em que se gera energia limpa e renovável, o município se preocupa com o uso consciente e adequado. Para isso, a prefeitura conta com um parceiro: o Centro Universitário Satc.

Há nove anos, a instituição é responsável por elaborar e revisar os projetos elétricos das escolas do município, sempre visando a eficiência energética e, por consequência, promovendo a sustentabilidade. Foi a Satc quem realizou os estudos preliminares para dimensionar se o investimento na energia solar seria benéfico para a Secretaria de Educação.

Projetos elaborados pela Satc contribuem com a eficiência energética, economia de recursos públicos e gera experiência aos acadêmicos - Imagem: Reprodução/Portal Satc

“Atualmente o Ministério da Educação exige que 10% das grades curriculares dos cursos sejam dedicados em ações de extensão. E a Satc já fazia isso antes mesmo de ser uma obrigação. Analisamos que este contato com a sociedade acaba trazendo um sentimento de pertencimento. Para o aluno, é benéfico porque ele vai ter a dimensão real de como é a profissão e a complexidade de projetos deste tipo, trabalhando principalmente com órgãos públicos. E dessa forma, estaremos entregando profissionais cada vez mais capacitados para o mercado de trabalho”, evidencia André Tavares, coordenador do curso de Engenharia Elétrica da Satc.

O trabalho é desenvolvido por meio do projeto Energize, executado por acadêmicos do curso de Engenharia Elétrica da Satc. Enquanto desenvolvem atividades junto ao centro acadêmico, os estudantes ganham bolsas para concluírem a suas faculdades. Desde 2016, quando a iniciativa começou, foram quase 50 escolas atendidas na rede pública, beneficiando mais de 13,5 mil alunos.

Para a prefeitura, a parceria faz driblar a burocracia, um dos desafios do poder público. “Caso o município precisasse fazer esses projetos, levaria muito mais tempo. Tem que lançar licitação, contratar uma empresa e ainda gerar custos. No Energize, todos ganham, desde os alunos, a gestão pública e, o principal, a sociedade”, reforça Tavares.

O orgulho de contribuir

Atualmente, o projeto conta com sete bolsistas. São os casos de Leonardo Mariano Kunen e João Luís Rossi Izidoro, da sexta e sétima fase de Engenharia Elétrica, respectivamente. Os dois são os que estão há mais tempo no Energize entre os acadêmicos beneficiados, sendo responsáveis por parte dos projetos desenvolvidos.

Para conseguirem executar as tarefas, eles visitam as escolas, fazem o levantamento da demanda, levam a proposta para a sala de aula e desenvolvem o modelo, sempre com a ajuda dos professores. Após a instalação realizada, eles também conferem se tudo foi realizado conforme estabelecido tecnicamente.

“Nós temos uma verdadeira experiência profissional, com a responsabilidade que a atividade exige. Temos que oferecer um bom trabalho que cumpra com a necessidade da utilidade pública. E tudo isso tendo a liberdade de poder ser estudante, nos dedicando para aprender no mesmo momento que estamos colocando em prática com o suporte dos professores”, valoriza Izidoro.

Leonardo Mariano Kunen (à esquerda) e João Luís Rossi Izidoro são bolsistas do programa Energize - Foto: Lucas Renan Domingos/Portal Engeplus

Em 2024, a Prefeitura de Criciúma investiu na compra de 100 carros elétricos, modernizando toda a frota. Parte da energia usada para abastecer os automóveis vem da Fazenda Solar Nikola Tesla. Os alunos do Energize foram os responsáveis pela elaboração do projeto elétrico para instalação dos carregadores dos veículos. Para Kunen, o projeto proporciona experiências que agregam ao currículo.

“Em breve eu estarei me formando. E os transportes elétricos são uma tendência mundial. E isso pode me beneficiar no futuro quando eu sair para o mercado de trabalho, porque já tive a experiência com uma demanda crescente na nossa área. Da mesma forma acontece com as atividades nas escolas. Temos toda uma preocupação ética, seguindo as normas vigentes, mas pensamos na eficiência energética. Os órgãos públicos estão buscando cada vez mais otimizar seus recursos e estamos contribuindo com isso”, completa.

O exemplo de Criciúma mostra que a iniciativa de unir sustentabilidade, educação e tecnologia cria um ciclo virtuoso que beneficia toda a comunidade. A energia solar, além de reduzir custos e impactos ambientais, se transforma em um instrumento pedagógico e social, despertando nos estudantes o interesse por ciência, inovação e pelo uso responsável dos recursos naturais. Cada painel instalado passa a representar não apenas economia, mas também um investimento direto na formação de novas gerações mais conscientes e preparadas.

O município prova que o poder público pode se consolidar como um laboratório vivo de inovação. A integração entre poder público, academia e comunidade comprova que políticas sustentáveis são possíveis quando existe planejamento e visão de futuro. O brilho do sol, que um dia foi símbolo de promessa tecnológica, hoje ilumina salas de aula, impulsiona aprendizados e inspira um modelo de cidade mais inteligente, limpa e humana, um modelo em que o conhecimento, assim como a energia, é fonte inesgotável de desenvolvimento.

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