Morro dos Cavalos: a união em busca da solução

Entidades, lideranças e população engajam na busca pela melhor trafegabilidade no trecho

Morro dos Cavalos: a união em busca da solução
Foto: Rafaela Custódio/Portal Engeplus

O Sul de Santa Catarina se uniu e mobilizou-se neste ano por uma causa importante para a região. A luta pelo desafogo no Morro dos Cavalos, trecho da BR-101, em Palhoça, mobiliza entidades, lideranças políticas e comunitárias e a população em geral, que sonha em poder transitar com segurança e sem ter sua logística afetada. O gargalo pelas condições de trafegabilidade não compatíveis com a demanda atrasa o desenvolvimento e a economia no estado.

Os problemas são relatados há anos, mas em 2025 acontecimentos impulsionaram a luta, principalmente para quem depende do trecho para fins profissionais, turísticos, de saúde ou até mesmo pessoais. A falta de uma estrutura adequada para comportar o trânsito local gera insegurança para quem usa a via.

Com prejuízos econômicos incalculáveis, empresas são obrigadas a buscarem rotas alternativas que dificultam logísticas, motoristas vivem o perigo de um trecho inadequado e soluções seguem sendo tentadas por autoridades, para que o coração de Santa Catarina, onde encontra-se sua capital, possa ser acessado por todos.

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Bloqueios e transtornos

Uma colisão entre um carro e um caminhão registrada no dia 9 de janeiro, no km 232, da BR-101, no Morro dos Cavalos, em Palhoça, foi apenas a abertura de um ano em que o trecho ganharia mais uma vez os destaques midiáticos por bloqueios e transtornos para os frequentadores da rodovia. O acidente, que gerou apenas danos materiais, se tornou quase inexistente perto do ocorrido no dia 6 de abril.

Na ocasião, um caminhão-tanque de combustível tombou no KM 233, resultando num incêndio de grandes proporções, destruindo 21 automóveis, e deixando cinco pessoas feridas com queimaduras. A ocorrência mobilizou 36 bombeiros de municípios da região e demandou aproximadamente 12 horas de trabalho.

Acidente em abril causou transtornos e interdições no Morro dos Cavalos. Foto: Divulgação/CBMSC

"Esta operação foi uma das mais complexas enfrentadas pelas equipes do nosso Corpo de Bombeiros. Nosso trabalho inicial foi voltado ao controle do risco e ao combate às chamas. A situação era extremamente perigosa, pois o líquido inflamável escoou por baixo dos veículos parados e, ao pegar fogo, ameaçava causar uma tragédia ainda maior", explicou o comandante-geral do CBMSC, coronel Fabiano de Sousa, após o trabalho dos militares.

O acidente gerou transtornos nos dias seguintes para a retirada dos automóveis danificados e de árvores sobre a pista, e também acendeu a chama de debates mais aprofundados e objetivos acerca da pauta. Porém, no dia 10 do mesmo mês, o trecho voltou a ser fechado, só que desta vez por conta das condições climáticas.

Cinco dias depois, o trecho voltou a ser interditado para a remoção de rocha controlada por parte da Arteris Litoral Sul, concessionária responsável pelo local. Na ocasião, houve o registro de filas quilométricas.

Condições climáticas e fenômenos naturais também são responsáveis por interdições no trecho. Foto: Thiago Kaue/Secom SC

Os desafios de quem trafega pelo Morro dos Cavalos

Há 25 anos fazendo a rota Criciúma/São José, o comprador flv (frutas, legumes e verduras) de uma rede de supermercados da região, Anderson Luiz Smania, recorda de momentos difíceis que já passou ao trafegar pelo trecho do Morro dos Cavalos. O principal deles foi justamente no acidente do tombamento da carreta com combustíveis, onde o profissional passou pela região apenas no dia seguinte e mesmo assim teve a logística duramente afetada.

“Eu saí de casa às 3 horas e cheguei às 11 horas em São José. É complicado para carregar os caminhões e voltar. Mais transtorno com curiosos olhando os carros queimados e cinco horas na volta. Acabou atrasando todas as entregas”, lembra.

Além das incertezas sobre o fluxo da via, outro fator gera preocupação para quem transita pela região do Morro dos Cavalos. A falta de iluminação é mais um fato que coloca em risco a vida de quem passa pelo local. Confira como são as condições no período noturno:

Legenda: vídeo gravado pela reportagem do Portal Engeplus mostra a falta de iluminação na rodovia.

O comprador destaca ainda que utiliza a rota três vezes por semana, deixando Criciúma por volta das 3 horas e chegando às 5 horas em São José. “A gente carrega cedo lá para chegar cedo nas lojas aqui. O prejuízo é que deixa de vender, porque a mercadoria é acostumada a chegar pela manhã fresquinha, aí nesses casos chega só na parte da tarde, perde a qualidade pois fica mais tempo na estrada”.

Outro fato que Smania recorda foi com a interdição de uma semana no trecho. As rotas alternativas foram por São Bonifácio ou pela Serra do Rio do Rastro. Segundo o profissional, as viagens de ida duraram até nove horas.

Atrasos na logística afetam a comercialização dos produtos em supermercados. Foto: Especial/Engeplus.

Ricardo Colombo também atua na função de comprador flv na mesma rede de supermercados, porém, depois de anos na estrada, o profissional passou a atuar na logística interna da empresa. Ele também acredita que o trecho é um elo para impulsionar a região, mas que precisa de melhorias para a trafegabilidade.

“O Morro dos Cavalos é essencial para o desenvolvimento da região Sul de Santa Catarina, e do Sul do Brasil, pois é a principal ligação entre o norte do estado. Uma vez esse acesso bloqueado impactaria na rotina de muita gente, devido a distância das rotas alternativas, e condições de trafegabilidade das mesmas, gerando uma distância até duas vezes maior, e má condições das estradas, gerando assim um custo muito mais elevado para o transporte”, ressalta.

Colombo reforça ainda que o período de fim de ano pode voltar a trazer transtornos ainda maiores no trecho. “Vivemos na incerteza de dias chuvosos, acidentes que possam vir a trancar a BR-101, sem contar a temporada de verão onde temos um fluxo muito maior de argentinos, uruguaios, e gaúchos utilizando esse caminho para ir ao litoral catarinense”.

Para Giovani Gamba, representante comercial, natural de Blumenau, além das dificuldades para desempenhar sua profissão, outro obstáculo é visitar os familiares em sua terra natal. Residindo há 12 anos em Criciúma, ele lembra de episódios marcantes que já presenciou ao passar pelo Morro dos Cavalos e das filas que atrasaram seus compromissos particulares e profissionais. Confira no áudio abaixo:

Portal Engeplus · Giovani Gamba, representante comercial, fala sobre transtornos enfrentados no Morro dos Cavalos

Entidades em prol de soluções

Os prejuízos econômicos e o atraso no desenvolvimento são fatores que geram preocupações em diversos segmentos. Engajada com a causa, a Associação Empresarial de Criciúma (Acic) lançou no dia 7 de julho a campanha “Morro dos Cavalos – Solução já!”.

O objetivo da ação, que foi reforçada por outras associações empresariais do Sul de Santa Catarina e por veículos de imprensa, e que segue em andamento, é pressionar lideranças políticas para viabilizar a obra no Morro dos Cavalos. “Nós não temos a resposta de qual é a melhor solução. A Acic não tem dinheiro para pagar o projeto e muito menos para fazer a obra, mas temos o poder de cobrar e pressionar. O que queremos é a solução, seja ela um ou dois túneis, ou o contorno. O que importa é que tenhamos a solução o mais rápido possível e que seja executada”, disse na ocasião o presidente da Acic, Franke Hobold.

Lançamento da campanha ocorreu na sede da instituição. Foto: Lucas Renan Domingos/Portal Engeplus.

Durante o lançamento da campanha, que tem como slogan “A economia pede passagem”, o diretor e tesoureiro da Acic, José Carlos Sprícigo, ressaltou que a região acumula atrasos no desenvolvimento devido à espera pela conclusão da duplicação da BR-101, que só chegou ao fim em 2015, com a inauguração da Ponte Anita Garibaldi, em Laguna (SC).

“Quando uma empresa vem se instalar em Santa Catarina, ela analisa a logística para receber seus insumos e escoar sua produção. A logística é difícil em todo o estado, mas nós temos que nos preocupar com o Sul, que é onde estamos. Tenho certeza que esta mobilização nos fará alcançar o nosso objetivo. A economia está realmente pedindo por essa passagem”, disse.

Além de reuniões em que a entidade participou de forma direta na causa, uma ação realizada no dia 30 agosto na Praça Nereu Ramos mobilizou a população criciumense, com a distribuição de panfletos e adesivos da campanha. O intuito do movimento foi fortalecer o engajamento dos moradores de Criciúma e região. "Nosso objetivo é manter a chama da campanha acesa e ampliar a divulgação para que a sociedade pressione por uma solução. Sabemos que os processos têm caminhado, mas queremos que a sociedade se envolva cada vez mais“, disse Hobold ao Portal Engeplus.

Presidente da Acic marcou presença em mobilização na Praça Nereu Ramos. Foto: João Gabriel/Portal Engeplus.

A adesão à pauta em Criciúma também ganhou força política com a Câmara de Vereadores criando uma Comissão Especial Temporária, que teve um período de 90 dias para recolher informações, debater o assunto e buscar soluções para colaborar com a causa. A equipe de parlamentares foi presidida pelo vereador Marcos Machado (MDB), que após o período protocolar solicitou a criação de uma Frente Parlamentar para que o assunto possa ser acompanhado e tratado na Casa até o fim da atual legislatura, em 2028.

A Federação das Indústrias de SC (Fiesc) também segue atuante na busca por soluções para o gargalo do trecho em Palhoça. Em agosto deste ano, durante uma audiência pública sobre o tema, em Capivari de Baixo, a entidade reforçou a solicitação para a incorporação do túnel duplo sob o Morro dos Cavalos, na Grande Florianópolis, à concessão da CCR Via Costeira, que administra o trecho sul da BR-101.

O vice-presidente regional Sul da Fiesc, Edilson Zanatta, reforça a preocupação da entidade com a demora para soluções na rodovia. “O tempo vai passando e não se tem uma situação definitiva. É sempre uma apreensão passar pelo Morro dos Cavalos, pois não se tem uma certeza de que vamos passar tranquilos por lá”.

Zanatta pontua ainda a importância da mobilização feita por outras entidades da região. “A campanha que a Acic está promovendo é espetacular e nós somos parceiros. A Câmara de Vereadores de Criciúma também tem feito um trabalho muito bom, unindo os municípios do Sul”.

Edilson Zanatta (na esquerda) tomou posse como vice-presidente regional Sul da Fiesc no dia 22 de agosto e já representa a entidade em eventos que sobre o Morro dos Cavalos. Foto: Divulgação.

Otimismo e frustrações

O Fórum Parlamentar Catarinense, coordenado pelo deputado Pedro Uczai (PT) tem sido um dos responsáveis por tratar as demandas do Morro dos Cavalos diretamente com o Governo Federal e com outros órgãos responsáveis que estão envolvidos na pauta, como a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) e o Tribunal de Contas da União (TCU). No mês de agosto, a ANTT entregou um relatório ao TCU, que montou uma comissão para avaliar os tópicos solicitados, num período de 90 dias, com o objetivo de definir o relatório de prioridades, o cronograma de execução e o impacto financeiro e tarifário.

“Abrimos um diálogo sobre o Morro dos Cavalos, permitindo formalizar um documento ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), para poder ser incorporado na otimização da BR-101 Norte ou na BR-101 Sul, que hoje é administrado pela concessionária Motiva (CCR ViaCosteira). Vamos fazer um documento para entregar ao presidente, manifestando a posição da bancada favorável à BR-101 Sul”, frisou Uczai ao Portal Engeplus no dia 13 de agosto.

O trecho do Morro dos Cavalos é administrado pela Arteris Litoral Sul. O desejo das lideranças políticas envolvidas é que a Motiva seja a responsável pelas obras de adequações de trafegabilidade da via.

O otimismo na busca por soluções também conduziu o deputado federal Luiz Fernando Vampiro (MDB) para uma audiência pública no dia 21 de outubro, em Brasília. O parlamentar, representante da região Sul, conseguiu reunir a Secretária Nacional de Transporte Rodoviário do Ministério dos Transportes, Viviane Esse; o Secretário adjunto de Controle Externo de Solução Consensual e Prevenção de Conflitos do Tribunal de Contas da União (TCU), Silvio Caracas de Moura Neto; o Diretor-geral da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), Guilherme Theo Rodrigues da Rocha Sampaio; o Diretor substituto de Licenciamento Ambiental do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Liceros Alves dos Reis; o Diretor-presidente da Concessionária ViaCosteira, representando a Motiva (antigo Grupo CCR), Fernando Henrique De Marchi; e o Diretor-presidente da Arteris, Martí Carbonell Mascaró.

“Foi um trabalho muito grande para reunir todos. Essas pessoas têm poder de decisão e ligação direta com nossa pauta. Vamos apresentar um audiovisual com notícias que mostram os impactos do Morro dos Cavalos”, frisou Vampiro.

Deputado não ficou contente com alegações apresentadas por representantes do governo federal. Foto: Bruno Spada/Câmara dos Deputados

O presidente da Acic embarcou no mesmo dia para a capital federal. Convidado para a audiência, Hobold também revelou o otimismo ao Portal Engeplus antes do encontro. “A gente está sempre otimista. Vamos dar mais um passo nesse assunto, colocando mais um tijolo nessa obra. Continuaremos acompanhando e buscando resultados positivos para o Morro dos Cavalos”.

Apesar da empolgação pré-reunião, o deputado do MDB saiu frustrado com os encaminhamentos do encontro. “Não ficamos satisfeitos. Todos os representantes do Sul entenderam, na verdade, que o Ministério dos Transportes precisa ser um pouco mais ágil. Chamamos os atores envolvidos e a representante do ministério foi a última a falar e disse que está esperando uma hora o DNIT, outra hora um estudo técnico. Eles vão nos entregar um cronograma para podermos cobrar os órgãos responsáveis para a solução do problema”, destacou Vampiro.

Na audiência, os representantes das concessionárias envolvidas demonstraram disposição para negociar a transferência do trecho do Morro dos Cavalos para a Motiva ViaCosteira. O TCU disse que está progredindo com os trabalhos na Câmara de Solução Consensual, mesmo entendimento apresentado pela ANTT.

Governo de Santa Catarina apresenta projeto de contorno

Diferentemente da proposta de túneis, que também são debatidas as construções como solução para o Morro dos Cavalos, o Governo de Santa Catarina apresentou um projeto ao governo federal no mês de setembro com a opção de um contorno para o sentido Sul, mantendo todo trecho atual para o Norte. O valor estimado de investimento para a obra de 5,2 quilômetros é de R$ 291 milhões.

De acordo com o secretário adjunto da Secretaria de Estado da Infraestrutura e Mobilidade, Ricardo Grando, o projeto tem um custo significativamente mais baixo do que a alternativa dos dois túneis, que custa cerca de 15% a mais. O responsável pela pasta afirmou ainda que o estudo contempla diversas disciplinas essenciais para a execução do projeto, como análise de tráfego, geotecnia, sondagem do terreno, impacto ambiental e o orçamento da obra. Além disso, a iniciativa inclui a construção de pontes necessárias para o trajeto.

Confira o vídeo explicativo do projeto:

Projeto em território indígena

Um dos pontos que pode se tornar um entrave para o projeto é o avanço sobre terras indígenas. Do total de 5,2 quilômetros da obra, 1,5 km atravessa território indígena. Em entrevista ao Portal Engeplus no dia 3 de setembro, Grando destacou que a equipe está disposta a dialogar com a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (FUNAI) e com a comunidade indígena, buscando soluções que envolvam compensações ou até mesmo realocação de casas, caso necessário.

"Para nós, não é problema nenhum. A gente é parceiro nesse contexto", comentou o secretário, ressaltando a importância de encontrar uma solução que atenda ao interesse de todos, sem prejudicar a obra.

Governo de Santa Catarina busca alternativas para o Morro dos Cavalos. Foto: Fabrício Júnior/Portal Engeplus.

Em meio aos entraves, o trecho sofre com transtornos

Enquanto entidades, políticos e comunidades se unem para brigar por soluções para o Morro dos Cavalos e esbarram em imbróglios jurídicos e burocráticos, a população segue sofrendo com transtornos no trecho. O ano está prestes a encerrar e no penúltimo dia de seu décimo mês mais adversidades causaram incômodo para quem precisou utilizar a via.

Na tarde da última quinta-feira, dia 30, um incêndio em um carro e uma pane mecânica em um caminhão provocaram filas quilométricas nos dois sentidos da rodovia. Os casos separados proporcionaram a espera de pessoas que trafegavam pelo trecho.

Em um dos veículos, no sentido Sul, estava a deputada federal, Geovania de Sá (PSDB). A parlamentar retornava de Brasília e após o pouso em Florianópolis seguia viagem de carro pela rodovia. A representante catarinense na capital federal postou um vídeo em suas redes sociais ressaltando que o problema na BR-101 ocorrido no dia reforça a necessidade de uma solução para o trecho em Palhoça.

Quem segue a rota, segue querendo soluções

Muitas pessoas e empresas seguem sendo afetadas por adversidades que geram o gargalo na BR-101, em Palhoça. Enquanto as soluções não são efetivas de fato, o desejo de quem utiliza a via é de que um projeto possa sair do papel, seja ele “A” ou “B”, para que a segurança de quem está diariamente ou semanalmente na estrada seja preservada e que logísticas não sejam severamente afetadas por problemas simples, mas que se tornam gigantes por não haver infraestrutura adequada.

“Esperamos o túnel ou o contorno que estão falando agora. Independente de qual for, um dos dois vai nos ajudar muito”, finaliza Smania, personagem inicial da reportagem, que se prepara para mais uma viagem passando pelo trecho.

E enquanto os projetos não saem do papel, o Portal Engeplus te leva para uma carona no Morro dos Cavalos, sentido Sul. Abra o vídeo abaixo e venha com a gente.

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